Setembro de 2008 foi marcado pela organização e realização das “Olimpíadas” do Projeto; oficialmente os “I Jogos do Projeto de Gente”.
Essa idéia já havia sido lançada desde antes do início das outras olimpíadas – as de Beijing 2008 - mas resolvemos esperar o término daquelas para esperar a possível inscrição de atletas que, naquele momento, estavam na capital da China.
Nossas modalidades esportivas foram: bandeirola, queimada, corrida com ovo, corrida com saco, corrida de mão (plantando bananeira), carrinho de mão, cordão (passar, andando para frente, por baixo de um barbante que vai se abaixando), embaixadinha, peteca, vôlei em dupla, xadrez, damas, dominó, tabuada, soletração, corrida de velocidade (alguns... bons... metros rasos) e salto em distância. Tal número de modalidades exigiu um esforço de logística impressionante por parte dos projetistas destes jogos.
O fato é que o pessoal de Beijing não compareceu. Concluímos que ou estavam desgastados por aquelas competições, mais o fuso horário, se porventura viessem, ou “amarelaram” mesmo. As opiniões se dividiram. Razoável!
Agora, falando sério: primeiro, nos atentamos para as regras que seriam seguidas nas provas. Uma proposta foi que não existisse a figura tradicional do juiz. Esta proposta aconteceu por conta da observação de um dos educadores sobre a ética com que as crianças jogavam queimada – um jogo em que, muitas vezes, a bola “pega” de raspão – trisca – um jogador que pode ou não acusar o lance. Ficou decidido que os próprios competidores seriam os juízes de si mesmos; que um observador estaria atento para resolver eventuais dúvidas; que o observador apenas interferiria se convocado pelos jogadores; que a decisão deste observador, nestes casos, seria plenamente aceita. Foi também decidido, em roda, que haveria, sempre que necessário, uma divisão por categoria de idade, peso, tamanho ou qualquer outra condição que implicasse em forte vantagem para certo competidor. Os times foram, então, formados buscando um equilíbrio de forças entre seus componentes. Assim, nas práticas coletivas, havia criança muito pequena jogando ao lado de outra grande. Foi interessante perceber táticas sendo elaboradas para que o jogo fluísse nessas condições (era divertido ver um pequenino escondido atrás do grandalhão que o protegia no jogo de queimada, por exemplo; ou um grupinho de pequeninos correndo juntos daqui p’racolá na bandeirola).
Por outro lado, também foi possível perceber como que, quando o jogo “vale ponto”, a ética fica ameaçada. Por mais de um momento aconteceram discussões que nas queimadas fora dos Jogos não aconteceriam. Belos temas para discussão e comentário depois dos jogos, tanto em conversas informais quanto nas rodas daqueles dias... e assunto para muitos dias. Essa circunstância também propiciou bons momentos de lealdade e integridade.
Os Jogos também puseram em evidência nosso problema em relação à reduzida equipe adulta de trabalho. Os poucos educadores precisaram se desdobrar para dar conta do recado. Também a questão da flutuação das crianças (comentado no diário de agosto), por vezes, dificultava a realização das provas nos tempos previamente combinados. Volta e meia recebíamos um recado dizendo que o menino ou a menina não poderiam vir naquele dia porque a mãe teve que ir trabalhar e a criança tinha que ficar tomando conta de outra criança – um exemplo. Nestes momentos ficou combinado (um aprendizado da prática) que os jogadores se reuniriam e decidiriam como fazer: a preferência era, sempre que possível, adiar a prova para que aquela criança pudesse participar; quando de todo impossível, ela era substituída por um companheiro ou companheira. Naturalmente que nas provas individuais tentamos sempre o bom momento em que todos os competidores estivessem presentes. Isto fez com que o cronograma das competições fosse ajustado a cada dia. Um bom exercício de tolerância, camaradagem e flexibilidade. Claro que, em alguns momentos, foi necessário viver a frustração de não ter todos os competidores reunidos para uma prova que não podia ser mais adiada. De toda maneira, bons exercícios.
Para registro:
Na bandeirola, competiram os seguintes times:
Vermelho – Allan, Flávio, Jaqueline, Mireli e Juliene
Laranja – Tássio, Flávia, Lidimara, Laiara e Tales
Amarelo – Rafael, Sula, Maciele, Iasmine e Sabrina
Verde – Douglas, Ana Paula, Eviton, Mávila e Vanderson
Azul – Renato, Letícia, Neuziane, Andrieli e Messias
Branco – Paraíba, Weber, Marina, Clayton e Abimael
O time Vermelho ganhou o torneio.
Na queimada:
Vermelho – Allan, Flávio (Sula), Jaqueline, Robson (Andrieli), Mireli e Juliene (Luli)
Laranja – Tássio, Douglas, Flávia (Sol), Jonas, Lidimara (Luli) e Juliele (Laiara)
Amarelo – Rafael, Ioane, Sula, Carlos Germano, Maciele e Ingrid
Verde – Douglas (Rafael), Ana Paula (Ismael), Eviton (Aurélio), Maiara (Flávia e Gistavo), Mávila e Iasmine
Azul – Renato (Andréia), Igor (Gustavo), Sabrina, Carlos André (Daniel), Letícia e Vanderson
Branco – Paraíba, Weber, Ramon, Marina (Sol), Clayton e Abimael
O time Vermelho ganhou o torneio.
Na soletração ganhou a Letícia, seguida pelo Flávio; e na competição de tabuada, ganhou o Aurélio, seguido pelo Ioane.
Dominó: Eviton, seguido pelo Aurélio e o Vanderson. No Cordão, ganhou a Maciele.
Na corrida de carrinho de mão: Talita e Juliele, entre os pequenos e Allan e Tássio entre os grandes.
As provas de velocidade foram divididas em três categorias:
A – Flávio ganhou; Aurélio, Ioane e Douglas seguiram.
B – Jonas venceu; Carlos André e Rafael logo depois.
C – Flávia ganhou; seguiram Maciele, Juliene e Juliele (essas duas, gêmeas, empataram!)
Na corrida de mão, ganhou o Carlos André; Douglas, Jonas e Guilherme também competiram.
O Ramon fez 21 embaixadinhas, ganhou; Renato, Douglas, o outro Douglas, Aurélio, Gustavo, Flávio, Rafael e Clayton também jogaram.
No torneio de vôlei, jogaram as seguintes duplas: Ioane e Rafael, Sol e Marlon, Neuziane e Sula, Tássio e Allan, Flávio e Igor, Eviton e Gustavo. Fizeram a final: Ioane e Rafael contra Tássio e Allan. Vencedores, depois de um jogo emocionante: Tássio e Allan
O salto em distância também foi dividido em três categorias:
A – Igor pulou 3,44m; Renato, 3,14; Douglas, 3,17 e Ioane, 3,14
B – Douglas, 3,70; Aurélio, 2,93; Rafael, 2,70; Flávio, 3,15 e Douglas, 3,21
C – Eviton, 2,82; Carlos André, 2,50, Lucas, 2,65 e Jonas, 2,65
Corrida com ovo; 2 categorias: Letícia correu mais do que a Talita e o Ioane; Carlos André mais do que a Sula e o Sol.
Na corrida com saco a Sabrina foi mais rapidinha do que a Maciele e o Ioane; e o Douglas mais do que o Sol e a Iasmine.
No torneio de peteca venceram o Allan e o Rafael; a Flávia e o Gustavo.
Xadrez: Allan, Ioane, Degenan e Sol chegaram ao quadrangular final. Infelizmente, o Degenan não pode fazer os jogos finais; ganhou o Ioane.
Neste ponto, lamentamos, muito lamentamos, a impossibilidade da continuação do trabalho do Paulinho Matos que trouxe o xadrez para o Projeto de Gente. Infelizmente, ele não pode continuar com a gente; porém, deixou uma fantástica semente – que, de verdade verdade, já deu até broto. Paulinho, nosso mestre de xadrez, não ensinou apenas que a dama anda para todo lado ou que o cavalo pula outra peça que estiver no caminho de seu ”L”, ensinou a linguagem e o valor dos combinados, das regras que organizam harmonia, bem-estar e alegria, convivência e vivência – quantas vezes não ouvimos, em pequenas vozes, o famoso: “peça tocada é peça jogada”. Apresentou o jogo para muitas crianças, descobriu apaixonados - feito ele -, e deixa saudades! Porta aberta, companheiro! Os tabuleiros pintados na tábua estão aqui e a criançada segue jogando (sempre de olho na porta aberta!). Aliás, Ioane, Allan, Sol, Degenan, Robson e Rafael resolveram criar o Grupo de Xadrez do Projeto de Gente – grupo sempre aberto e com a função de ensinar o que aprenderam para os novos que quiserem chegar.
No fim houve a premiação. As medalhas forma confeccionadas em plaquinhas de fórmica que a Monica, arquiteta, havia oferecido, há muito tempo, junto com muitos outros materiais. Ficaram lá esperando o momento preciso para ressurgirem do fundo do baú. Todos receberam suas medalhas, seja pela participação seja por terem conseguido, com seu melhor esforço, um resultado melhor do que os outros competidores que também deram tudo que podiam. Durante toda a competição conversávamos muito sobre a supervalorização do 1º lugar.
Além disso, foram criadas medalhas que premiaram pessoas que atuaram de forma justa. Por exemplo, o Sol recebeu uma medalha por ter vibrado de alegria quando os dois times propuseram refazer um jogo em que ele, Sol, havia se equivocado em uma decisão quando era o observador do jogo. Ele já havia decidido, percebeu, depois, o erro, comentou com todos e, no dia seguinte, foi surpreendido com a decisão dos jogadores. Foi muito bonito vê-lo vibrar por saber que seu erro, afinal, não iria prejudicar claramente um dos times. Louve-se também a atitude dos times, principalmente a do beneficiado pela decisão errada. Ioane e Rafael receberam medalha pelo belo exemplo de companheirismo quando, jogando contra um time claramente superior, não perderam a elegância, elogiando o parceiro a cada jogada e jogando com raça até o resultado final. Houve uma premiação especial para as pessoas que torceram muito por seus escolhidos e, elegantemente, não mangaram dos adversários.
Assim terminou setembro. Neste fim de mês recebemos a notícia que será necessário entregar a casinha do Projeto até junho de 2009. Já iniciamos a busca por um novo espaço. Também neste fim de mês fomos procurados pela Milena e o Luiz – donos da Pousada Rio do Peixe – que deram a idéia e se ofereceram para comprar cartões de fim de ano confeccionados, em papel reciclado, pela moçada do Projeto de Gente. Estamos, junto com o pessoal da Patrulha Ecológica, iniciando os preparativos para esta atividade.
Gente, seguimos em busca de patrocínio e adesões à Associação Projeto de Gente.
Até o mês que vem!
sábado, 18 de outubro de 2008
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
AGOSTO 2008
28 de maio de 2007, chegada à Cumuruxatiba; 28 de agosto de 2007, 1º dia de atividade do Projeto de Gente. Durante estes três meses o Projeto foi apresentado a dezenas de pessoas na vila; apresentado e acolhido por gente da terra, pescadores, professores e professoras, diretores e diretoras das escolas, comerciantes, pais e mães de crianças.
No 1º dia tínhamos 29 crianças inscritas. Hoje, setembro de 2008, são mais de 50. Um crescimento de, pelo menos, 42% no nº de crianças participando das atividades do Projeto de Gente. Sem dúvida, um bom índice.
Mas, o que ele significa? Que as crianças gostam do ambiente do Projeto? Muito provavelmente, pois se não seríamos abandonados. Crianças não fazem o que não desejam, a não ser que sejam obrigadas por algum motivo. E, muitas vezes, são obrigadas a fazer o que não desejam em horas que não desejam; obrigadas, principalmente, pelo poder que os adultos constroem; poder que poderia ser vivido como autoridade – não abusiva, não ameaçadora, não chantagista – que cria uma rede de proteção capaz de fazer com que os pequenos se sintam seguros para reconhecer e desenvolver suas próprias e pessoais autoridades.
E porque os adultos não vivem simplesmente esta autoridade? Porque a transformam em autoritarismo e poder? Muito provavelmente porque, desde muito pequenos, desde simples projetos de gente, percebem que o exercício da autoridade - da mais profunda autoridade, aquela que nos impele, pura e simplesmente, a ser quem cada um é -, uma autoridade a qual poderíamos chamar de interna, não assegura o respeito à existência.
A autoridade interna, por si, não garante mesmo o respeito do outro; principalmente quando somos muito, muito pequenos e as possibilidades dos maiores se nos afiguram como verdadeiros super poderes, quando, de fato, são apenas possibilidades adultas. Entretanto, tais possibilidades, muitas vezes, são usadas como instrumentos de opressão que é, então, confundido, como sendo poder real e infalível (confundido – e confundindo -, diga-se, tanto pelo pequeno quanto pelo maior). Apenas em uma comunidade onde a manifestação da autoridade pessoal seja percebida e reconhecida, desde sempre e naturalmente, como um direito ordinário e legítimo, esse respeito será alcançado e trará a sensação de existência assegurada e viável.
No Projeto de Gente as crianças não são obrigadas a fazer o que não desejam na hora que não desejam; elas se comprometem a fazer o que desejam na hora que combinam ser a boa hora. Daí se estabelece a obrigação, o compromisso. Sua autoridade interna tem voz, tem voto, tem autoridade externa, manifesta.
Um dos pilares do Projeto é, justamente, este exercício de liberdade e o comprometimento com as combinações e regras estabelecidas em comum acordo, democraticamente.
Entretanto, muitas vezes, as regras são descumpridas, as combinações são esquecidas e uma velha ordem, onde um implica com outro, uma turma “vaia” aquele que teve uma atitude diferente, outro mostra poder geralmente sobre um menor ou mais fraco ou mais tímido, onde o mais tímido ou mais fraco ou menor usa esta circunstância para conseguir a simpatia de um forte ou de um adulto que pune o “poderoso”, a velha ordem, dizíamos, “naturalmente” predomina.
A sociedade está arcaicamente organizada deste modo e esta parece ser a “correta” organização, aquela que devemos aceitar como a realidade na qual vivemos e vamos seguir vivendo: o mundo da competitividade, do 1º lugar, do vestibular, do mais forte, do “é preciso, afinal, ter um lugar na turma”, do opressor e do oprimido. Neste mundo pouca dúvida resta sobre onde é melhor se colocar, nele estamos viciados. Fazemos o que, no fundo, não concordamos por conta de uma atitude reativa, defensiva, assustada com a possibilidade de não ter sua existência viabilizada.
Daí o freqüente questionamento: “Muito bem! Concordo com a maior parte do que você está dizendo; mas, como é que vai ser quando o menino ou a menina tiverem que se confrontar com o mundo real? Como é que ele vai se sentir na fila do emprego, na luta dentro do mercado de trabalho?”
Bom, a resposta pode ser: “Este menino ou menina pode escolher não lutar dentro do mercado, não entrar na fila deste emprego, pode não se confrontar com o mundo, ele ou ela podem criar um novo mundo, sem luta, sem fila de emprego, podem criar seu trabalho. Uma ordem na qual cada um irá, justo, encontrar seu lugar e se aliar com os outros formando a imensa rede vital onde cabemos todos nós, cada um manifestando sua autoridade interna.”
Mas, como medir o desenvolvimento deste processo no Projeto de Gente? Talvez lembrando o momento em que um garoto machucou uma menina e correu para fora das dependências do Projeto; foi perseguido por 3 outros meninos que o alcançaram; o agressor, crente que ia apanhar dos 3, pediu que não o batessem; os 3 disseram: “não viemos aqui para bater em você, viemos para conversar por que você fez aquilo; sentaram na beira da calçada, conversaram e, no dia seguinte, o menino pediu desculpas à menina. Ou, uma outra situação, em que o “juiz” de um jogo vibrou ao saber que os dois times haviam resolvido disputar novamente o jogo onde ele errara – e apenas percebeu isto mais tarde - numa decisão que deu a vitória para um dos times. Lembrar da decisão dos times e da alegria do “juiz” – juiz está entre aspas porque ele, de fato, era um observador do jogo; os juízes (sem aspas) eram os próprios jogadores; esta foi uma combinação realizada antes dos jogos e valendo para todas as partidas daquelas competições. Vale lembrar também a roda que se fez (fora do Projeto) em torno de um garoto que estava roubando pequenos objetos e pequenas quantias de dinheiro dos seus amigos; roda que teve a finalidade, não de excluir o menino, mas sim de conversar com ele sobre o porque ele estava agindo assim. Também lembrar o rapaz, machista e machão “por natureza”, que chorou ao falar, numa conversa com um dos educadores do Projeto, sobre uma situação vivida com sua namorada. Lembrar também da menina que exigiu que, em sua casa, se discutisse porque apenas a mãe e as meninas lavavam os pratos, talheres e panelas depois das refeições; discussão feita; votação feita; hoje todos lavam os pratos. Outra: perceber este e aquela se dando conta de que, ali, eles têm direito a voz e voto, a construir o espaço, que sua opinião pode imperar – sem opressão - sobre a de qualquer um, incluindo a posição dos adultos.
Quantas situações serão necessárias, em certo período de tempo, para medir o desenvolvimento deste processo numa pessoa de 7, 8, 9,10 ou 14 anos com 7,8, 9, 10 ou 14 anos de árduo, diário, treinamento no sentido de dever obediência a regras que ele não criou, de “ter que” cumprir performances para não “perder” o ano, de criar estruturas de sobrevivência junto a um pai cujo filho, ao lhe ser perguntado se apanhava respondeu com “naturalidade”: “Lógico!”
Quantos recuos após avanços serão considerados toleráveis na nossa caminhada? Recuos, diga-se de passagem, de crianças, mas também dos adultos tampouco acostumados a não exercer o tal do poder que lhes oferece a tal da – falsa – sensação de proteção e de possibilidade de sobrevivência neste mundo – triste mundo onde se busca sobrevida e não vida.
Em um ano de trabalho – cerca de nove meses de atividade – temos a certeza de que mais situações como as descritas precisam ser vividas, e que os recuos ainda foram insuficientes para configurar impossibilidade.
Constatamos que precisamos de mais gente, de mais adultos, seguros na crença dos conceitos do Projeto de Gente, trabalhando neste sentido; trabalhando e recebendo a remuneração que lhes permitam estar completamente envolvidos pelo trabalho. Constatamos que precisamos fortalecer a roda de combinações; que é necessário que as crianças flutuem menos no comparecimento à roda, de modo a torná-la sempre mais e mais legítima e, com suas decisões, mais e mais presente e ativa. Para isto precisamos também trabalhar na própria flutuação da presença das crianças no Projeto. Uma flutuação que acontece por inúmeros motivos. O maior deles tem a ver com o fato de muitas crianças precisarem fazer dever de casa ou ir à banca – que é como se chama a aula de reforço; outro, talvez tão importante quanto o primeiro, está ligado ao trabalho que muitos precisam fazer depois da escola: vender o peixe que o pai pescou, cuidar dos irmãos menores, etc. Também freqüentemente as crianças são castigadas por algo que fizeram e a punição é não ir ao projeto de Gente – um triste índice de aceitação do nosso trabalho. Este é também um indicador de um campo de trabalho a ser ainda mais desenvolvido pelo Projeto: o contato com as famílias das crianças. Um contato que pode fazer diminuir tais punições, aumentar a participação efetiva das famílias e também elevar o grau de confiança dos pais e mães no sentido de permitir a presença menos flutuante das suas crianças – as mães, principalmente, manifestam a preocupação de que a ida diária de seus filhos ao Projeto prejudique o rendimento escolar (sempre respondemos que as crianças podem contar com os educadores do Projeto para ajudá-los nos deveres e estudos).
Assim, completamos um ano de atividade carregados de metas a serem conquistadas... e alguns gols marcados (talvez até mesmo, sem falsa modéstia, um ou dois gols de placa!). Entretanto, a partida está apenas com 2-3 minutos do 1º tempo,... e, se der empate no tempo regulamentar, vai ter prorrogação e até mesmo, se preciso, decisão nos pênaltis!
Vamos jogar... e nos divertir que nosso jogo é cheio de beleza, raça e graça!
Até o mês que vem!
No 1º dia tínhamos 29 crianças inscritas. Hoje, setembro de 2008, são mais de 50. Um crescimento de, pelo menos, 42% no nº de crianças participando das atividades do Projeto de Gente. Sem dúvida, um bom índice.
Mas, o que ele significa? Que as crianças gostam do ambiente do Projeto? Muito provavelmente, pois se não seríamos abandonados. Crianças não fazem o que não desejam, a não ser que sejam obrigadas por algum motivo. E, muitas vezes, são obrigadas a fazer o que não desejam em horas que não desejam; obrigadas, principalmente, pelo poder que os adultos constroem; poder que poderia ser vivido como autoridade – não abusiva, não ameaçadora, não chantagista – que cria uma rede de proteção capaz de fazer com que os pequenos se sintam seguros para reconhecer e desenvolver suas próprias e pessoais autoridades.
E porque os adultos não vivem simplesmente esta autoridade? Porque a transformam em autoritarismo e poder? Muito provavelmente porque, desde muito pequenos, desde simples projetos de gente, percebem que o exercício da autoridade - da mais profunda autoridade, aquela que nos impele, pura e simplesmente, a ser quem cada um é -, uma autoridade a qual poderíamos chamar de interna, não assegura o respeito à existência.
A autoridade interna, por si, não garante mesmo o respeito do outro; principalmente quando somos muito, muito pequenos e as possibilidades dos maiores se nos afiguram como verdadeiros super poderes, quando, de fato, são apenas possibilidades adultas. Entretanto, tais possibilidades, muitas vezes, são usadas como instrumentos de opressão que é, então, confundido, como sendo poder real e infalível (confundido – e confundindo -, diga-se, tanto pelo pequeno quanto pelo maior). Apenas em uma comunidade onde a manifestação da autoridade pessoal seja percebida e reconhecida, desde sempre e naturalmente, como um direito ordinário e legítimo, esse respeito será alcançado e trará a sensação de existência assegurada e viável.
No Projeto de Gente as crianças não são obrigadas a fazer o que não desejam na hora que não desejam; elas se comprometem a fazer o que desejam na hora que combinam ser a boa hora. Daí se estabelece a obrigação, o compromisso. Sua autoridade interna tem voz, tem voto, tem autoridade externa, manifesta.
Um dos pilares do Projeto é, justamente, este exercício de liberdade e o comprometimento com as combinações e regras estabelecidas em comum acordo, democraticamente.
Entretanto, muitas vezes, as regras são descumpridas, as combinações são esquecidas e uma velha ordem, onde um implica com outro, uma turma “vaia” aquele que teve uma atitude diferente, outro mostra poder geralmente sobre um menor ou mais fraco ou mais tímido, onde o mais tímido ou mais fraco ou menor usa esta circunstância para conseguir a simpatia de um forte ou de um adulto que pune o “poderoso”, a velha ordem, dizíamos, “naturalmente” predomina.
A sociedade está arcaicamente organizada deste modo e esta parece ser a “correta” organização, aquela que devemos aceitar como a realidade na qual vivemos e vamos seguir vivendo: o mundo da competitividade, do 1º lugar, do vestibular, do mais forte, do “é preciso, afinal, ter um lugar na turma”, do opressor e do oprimido. Neste mundo pouca dúvida resta sobre onde é melhor se colocar, nele estamos viciados. Fazemos o que, no fundo, não concordamos por conta de uma atitude reativa, defensiva, assustada com a possibilidade de não ter sua existência viabilizada.
Daí o freqüente questionamento: “Muito bem! Concordo com a maior parte do que você está dizendo; mas, como é que vai ser quando o menino ou a menina tiverem que se confrontar com o mundo real? Como é que ele vai se sentir na fila do emprego, na luta dentro do mercado de trabalho?”
Bom, a resposta pode ser: “Este menino ou menina pode escolher não lutar dentro do mercado, não entrar na fila deste emprego, pode não se confrontar com o mundo, ele ou ela podem criar um novo mundo, sem luta, sem fila de emprego, podem criar seu trabalho. Uma ordem na qual cada um irá, justo, encontrar seu lugar e se aliar com os outros formando a imensa rede vital onde cabemos todos nós, cada um manifestando sua autoridade interna.”
Mas, como medir o desenvolvimento deste processo no Projeto de Gente? Talvez lembrando o momento em que um garoto machucou uma menina e correu para fora das dependências do Projeto; foi perseguido por 3 outros meninos que o alcançaram; o agressor, crente que ia apanhar dos 3, pediu que não o batessem; os 3 disseram: “não viemos aqui para bater em você, viemos para conversar por que você fez aquilo; sentaram na beira da calçada, conversaram e, no dia seguinte, o menino pediu desculpas à menina. Ou, uma outra situação, em que o “juiz” de um jogo vibrou ao saber que os dois times haviam resolvido disputar novamente o jogo onde ele errara – e apenas percebeu isto mais tarde - numa decisão que deu a vitória para um dos times. Lembrar da decisão dos times e da alegria do “juiz” – juiz está entre aspas porque ele, de fato, era um observador do jogo; os juízes (sem aspas) eram os próprios jogadores; esta foi uma combinação realizada antes dos jogos e valendo para todas as partidas daquelas competições. Vale lembrar também a roda que se fez (fora do Projeto) em torno de um garoto que estava roubando pequenos objetos e pequenas quantias de dinheiro dos seus amigos; roda que teve a finalidade, não de excluir o menino, mas sim de conversar com ele sobre o porque ele estava agindo assim. Também lembrar o rapaz, machista e machão “por natureza”, que chorou ao falar, numa conversa com um dos educadores do Projeto, sobre uma situação vivida com sua namorada. Lembrar também da menina que exigiu que, em sua casa, se discutisse porque apenas a mãe e as meninas lavavam os pratos, talheres e panelas depois das refeições; discussão feita; votação feita; hoje todos lavam os pratos. Outra: perceber este e aquela se dando conta de que, ali, eles têm direito a voz e voto, a construir o espaço, que sua opinião pode imperar – sem opressão - sobre a de qualquer um, incluindo a posição dos adultos.
Quantas situações serão necessárias, em certo período de tempo, para medir o desenvolvimento deste processo numa pessoa de 7, 8, 9,10 ou 14 anos com 7,8, 9, 10 ou 14 anos de árduo, diário, treinamento no sentido de dever obediência a regras que ele não criou, de “ter que” cumprir performances para não “perder” o ano, de criar estruturas de sobrevivência junto a um pai cujo filho, ao lhe ser perguntado se apanhava respondeu com “naturalidade”: “Lógico!”
Quantos recuos após avanços serão considerados toleráveis na nossa caminhada? Recuos, diga-se de passagem, de crianças, mas também dos adultos tampouco acostumados a não exercer o tal do poder que lhes oferece a tal da – falsa – sensação de proteção e de possibilidade de sobrevivência neste mundo – triste mundo onde se busca sobrevida e não vida.
Em um ano de trabalho – cerca de nove meses de atividade – temos a certeza de que mais situações como as descritas precisam ser vividas, e que os recuos ainda foram insuficientes para configurar impossibilidade.
Constatamos que precisamos de mais gente, de mais adultos, seguros na crença dos conceitos do Projeto de Gente, trabalhando neste sentido; trabalhando e recebendo a remuneração que lhes permitam estar completamente envolvidos pelo trabalho. Constatamos que precisamos fortalecer a roda de combinações; que é necessário que as crianças flutuem menos no comparecimento à roda, de modo a torná-la sempre mais e mais legítima e, com suas decisões, mais e mais presente e ativa. Para isto precisamos também trabalhar na própria flutuação da presença das crianças no Projeto. Uma flutuação que acontece por inúmeros motivos. O maior deles tem a ver com o fato de muitas crianças precisarem fazer dever de casa ou ir à banca – que é como se chama a aula de reforço; outro, talvez tão importante quanto o primeiro, está ligado ao trabalho que muitos precisam fazer depois da escola: vender o peixe que o pai pescou, cuidar dos irmãos menores, etc. Também freqüentemente as crianças são castigadas por algo que fizeram e a punição é não ir ao projeto de Gente – um triste índice de aceitação do nosso trabalho. Este é também um indicador de um campo de trabalho a ser ainda mais desenvolvido pelo Projeto: o contato com as famílias das crianças. Um contato que pode fazer diminuir tais punições, aumentar a participação efetiva das famílias e também elevar o grau de confiança dos pais e mães no sentido de permitir a presença menos flutuante das suas crianças – as mães, principalmente, manifestam a preocupação de que a ida diária de seus filhos ao Projeto prejudique o rendimento escolar (sempre respondemos que as crianças podem contar com os educadores do Projeto para ajudá-los nos deveres e estudos).
Assim, completamos um ano de atividade carregados de metas a serem conquistadas... e alguns gols marcados (talvez até mesmo, sem falsa modéstia, um ou dois gols de placa!). Entretanto, a partida está apenas com 2-3 minutos do 1º tempo,... e, se der empate no tempo regulamentar, vai ter prorrogação e até mesmo, se preciso, decisão nos pênaltis!
Vamos jogar... e nos divertir que nosso jogo é cheio de beleza, raça e graça!
Até o mês que vem!
domingo, 10 de agosto de 2008
JULHO DE 2008
Julho de 2008 foi um mês praticamente destinado à organização da festa junina do Projeto de Gente. Um meio mês, pois já havíamos confirmado a decisão de seguir as férias – e feriados – das escolas de Cumuruxatiba. As férias começariam em 18 de julho.
Assim, combinamos a festa para o dia 19 de julho – o sábado seguinte ao último dia de aulas nas escolas.
Uma das principais motivações desta festa era conseguir a reunião do máximo de pais, mães e responsáveis pelas crianças que freqüentam o Projeto. Com este objetivo foi elaborada uma carta a ser levada para casa por todas as crianças.
Ficou assim:
Aos pais, mães ou outros responsáveis pelas crianças e jovens que freqüentam o Projeto de Gente
Caros amigas e amigos,
Este ano o pessoal do Projeto de Gente tem um grande desejo: aproximar-se mais das famílias das crianças e jovens que freqüentam o Projeto.
Como tentamos criar um espaço onde as crianças aprendem coisas importantes para sua vida num ambiente de alegria e bem estar, nada melhor do que uma festa para nos colocar mais pertinho uns dos outros.
E, nesta época do ano, também nada melhor do que uma festa junina: um arraiá. Como será nosso primeiro arraiá, ele será bem pequenininho, bem simples.
Um Projeto de Arraiá: uma fogueirinha, uma pequena quadrilha, barraquinha, comidinha e bebidinha...
Todas as crianças e adultos que participam do Projeto de Gente estão convidando vocês para construir a festa juntos!
Se puder marque, aqui em baixo, uma colaboração que você pode dar para a festa:
( ) um bolo ( ) cocadas ( ) pamonhas ( ) refrigerante ( ) suco ( ) batata-doce p’ra assar na fogueira ( ) banana da terra também para assar na fogueira ( ) outra gostosura qualquer
Marque e peça para a criança trazer o papel para o Projeto.
Mas, lembre-se, não é nada obrigatório, a maneira mais importante de participar é vindo na festa p’ra gente se divertir, conversar e se conhecer mais.
Se você também quiser participar fazendo bandeirinhas, barraquinha, estas coisinhas de arraiá é só vir na casinha do Projeto que a gente pode arrumar tudo junto.
Escolhemos o dia 19 de julho, um sábado, para fazer a festa. Ela vai começar lá pelas 5 da tarde que é p’ra não acabar muito tarde, mas pegar um pouquinho da noite e da luz da fogueira.
Um cordial abraço do
Pessoal do Projeto de Gente
Como vocês perceberam o nome de nosso arraiá ficou sendo, por conta de suas singelas dimensões: O Projeto de Arraiá.
Resolveu-se, em roda, que haveria casamento na roça, quadrilha, barraquinha de pescaria e de comidinha. Foi também decidido que as comidinhas seriam gratuitas uma vez que iríamos recebê-las como presente das pessoas – não era uma festa com o intuito de levantar recursos financeiros – e presente não se vende.
Há algum tempo havíamos ganhado um saco de objetos – prendedores de cabelo, alguns óculos escuros, carteirinhas, etc. Em várias ocasiões foi sugerido um uso para estas “coisinhas”, porém nunca se configurou um bom momento para isso. Parece que os objetos estavam mesmo esperando o bom momento, pois se transformaram em ótimas prendas da pescaria. Já fazia tanto tempo que havíamos ganhado este presente que não nos lembramos exatamente quem foi a pessoa que nos ofertou as prendas da barraquinha de pescaria. De todo jeito, quem quer que seja e esteja onde estiver, receba nosso agradecimento.
Os dias foram dedicados à preparação da festa: ensaios de quadrilha, construção das barraquinhas com palha de coqueiro e bambu, fabricação e colocação das bandeirolas feitas com papel de revistas – e que foram, depois da festa, guardadas para a fabricação de papel reciclado no fim do ano –, produção dos cartazes para indicar onde estava o que. As pessoas que quiseram trabalhar na organização escolheram o que mais gostariam de fazer, formaram equipes e puseram mãos à obra. No início tínhamos a impressão de que não conseguiríamos concretizar o planejado. Muita dispersão, uma certa falta de compromisso com as combinações. Foi, então, convocada uma roda extraordinária em que se discutiu a possibilidade de não haver festa por conta destas questões. Neste dia, era a terça-feira (15) imediatamente anterior à festa, todos compreenderam que faltavam apenas 3 dias para o sábado e que, naquele ritmo, não teríamos a festa. Um organograma foi votado: dia 16 – construção das barraquinhas; 17 – ensaio intensivo do casório na roça e da quadrilha e no dia 18, sexta-feira, ensaio geral e organização dos detalhes que faltassem. Aí sim, no meio de muita brincadeira, jogos de xadrez, jogo da viúva-viúvo, pulação de corda e o que mais quiséssemos, a festa apareceu frente aos nossos olhos.
Foi exato nesta época que recebemos a visita da Carol e do Luís, de São Paulo. Ela trabalhava na Escola Lumiar, em 2005, onde fizemos a formação em Educação Democrática. Hoje, ela e Luís, trabalham na organização de uma escola democrática junto com outros 7 parceiros - entre eles a Helena Singer, nossa grande amiga.
Carol trabalhou efetivamente na produção da festa e deixou sua marca em várias crianças que comentaram por muitos dias sobre as brincadeiras que ela ensinou. Comentaram e brincaram - brincam. Luiz, infelizmente, precisou voltar antes para São Paulo; entretanto, tivemos conversas muito produtivas e estimulantes para nós. Entre os temas: a possibilidade de Cumuruxatiba, o Projeto de Gente, receber o próximo encontro nacional de Educação Democrática, em julho de 2009.
Há poucos dias recebemos o boletim de julho da Politeia – organização a que estão vinculados Carol e Luiz.
Aqui vai a transcrição de um trecho do Boletim:
“REDE DE ESCOLAS e ONGs PELO BRASIL
A Politeia mantém sua política de troca de experiências e colaboração com escolas e organizações não governamentais voltadas para a transformação da educação no Brasil. No primeiro semestre deste ano, trocamos visitas e mantivemos contatos eletrônicos com o Projeto Amanamanha, em Garopaba, no litoral catarinense. A Amanamanha está construindo uma escola sustentável e democrática em espaço onde atualmente desenvolve projetos educativos apoiados em técnicas de permacultura como a construção de banheiro ecológico, com reaproveitamento de água da chuva, e produção de sabão com o óleo de cozinha usado dos próprios integrantes do projeto.
O segundo semestre aprofundamos nossa colaboração com o Projeto de Gente, em Cumuruxatiba, na Bahia, visitando este belo lugar. Numa casa modesta, cinqüenta crianças de 6 a 14 anos passam as tardes onde ocorrem atividades livres de xadrez, artes, culinária e jogos e brincadeiras, organizadas pelos mestres voluntários e coordenadas pelo médico-educador Alexandre Cavalcanti. A gestão do projeto é feita por todos nas Assembléias semanais, questões corriqueiras são resolvidas nas rodas diárias e qualquer evento de maior importância é levado ao foro de discussão nomeado de Debate. Com o tempo, almeja-se transformar o Projeto de Gente em mais uma escola democrática no Brasil.”
Conheça mais sobre a Politeia acessando www.politeia.org.br.
A pequena temporada da Carol entre nós reforçou a certeza da necessidade de termos educadores com experiência no dia a dia com as crianças. Reforçou, portanto, a certeza da necessidade da profissionalização do Projeto de Gente. Precisamos nos esforçar para conseguir recursos para pagar os salários de pessoas que tenham o conhecimento dos conceitos do Projeto de Gente e que também possuam prática no contato com crianças.
Mas, vamos voltar para a festa...
De cara, fomos surpreendidos com a quantidade de crianças. Nós não havíamos feito nenhum anúncio, a não ser para os responsáveis pelas crianças do Projeto.
Novamente a questão do tamanho da equipe se apresentou: faltava gente para dar conta de tudo o que era necessário. Entretanto, uma, também inesperada, circunstância aconteceu. Como houve um bom comparecimento de pais e mães, eles – na verdade, elas – se organizaram na cozinha e as comidinhas foram ficando prontas. Crianças e adultos também se organizaram nas barraquinhas e as pipocas, copinhos de caldinho de mandioca, mungunzá, bolos, cocadas, sucos e refrigerantes foram saindo.
Aprendemos muito sobre como organizar a próxima festa.
O casório foi uma beleza! Muito engraçado. Dias antes havíamos escolhido uma historinha que fugia da velha confusão do noivo que já era casado e do delegado com arma na mão obrigando o noivo a se casar. Quem sabe não publicamos, em alguma seção do blog, o roteiro da peça? O casamento terminava com um baile que era aberto pela quadrilha. Aliás, uma grande quadrilha com 17 pares. Toda a seqüencia da quadrilha também foi elaborada em conjunto e o Alexandre – que cantou os passos – foi severamente advertido por ter se esquecido do “beija-flor” (realmente uma pena porque este é um dos passos mais bonitos de uma quadrilha).
Enfim, mais um passo havia sido dado. Como sempre com erros e acertos, o aprendizado do cotidiano, aprendizado no qual mestres e aprendizes se fazem aprendizes e mestres. A expressão “escola da vida”, surrada e, por isto tantas vezes subvalorizada, vai ganhando, para nós do Projeto, seu mais profundo sentido. Nela vamos aprendendo a – tentando – transformar uma certa erudição – de fato, mais “decoreba” – ganha nos bancos de escolas, na leitura de livros, recolhida nos caminhos do pensamento, da razão, em outra substância mais viva, humanizada, quiçá mais sábia, certamente mais pulsante.
Outra visita que nos trouxe imensa alegria foi a do Jorge, Fátima – ativos associados da Associação Projeto de Gente e donos da Papelaria Rainha de Fátima, do Rio de Janeiro – que, ano passado, fizeram uma importantíssima doação de material. Vieram com a Clarice e a Maíra, duas lindas jovens cheias de alegria e graça. Infelizmente, o Projeto já estava em recesso quando eles chegaram. Entretanto, recebemos a seguinte mensagem pelo correio eletrônico:
CHEGAMOS!!!!!
Cumuru é um lugar único:
Crianças em abundância
Projeto de Gente caminhando;
Pessoas bacanas;
Um amigo especial;
Foi uma viagem muito legal, apesar de ter sido muito rápida;
Vimos na prática o Projeto acontecendo , (apesar de não termos chegado a tempo de ver a casa funcionando, sentimos a energia das crianças e a força do trabalho)
"A casinha do Projeto"
Com seus móveis construídos artesanalmente/amorosamente,
com seus espaços já tão definidos:
uma sala para biblioteca/sala de estudos,
uma sala para oficina de artes,
uma cozinha generosa para oficina de culinária,
uma sala para roda.
E o quintal?????
cajueiro, mangueira e pitangueira e uma horta em construção...
e um lindo forno para completar.
Idéias se multiplicando:
Casa na Árvore...
Mesa de pingue-pongue...
Que tal?
Uma rede de Vôlei ou Peteca ou ambas...
Quantos sonhos e quantos projetos...
Vamos lá amigos.
Vamos insistir...
Chegaremos!!!!!
Um forte abraço.
Beijos Saudosos!!!!
Jorge/Fátima
O título da mensagem era: Viagem Maravilhosa... Mais uma “lenha na fogueira” que aquece e ilumina o trabalho aqui em Cumuruxatiba.
Notícias: o Jef, Ioane e Jonas doaram um jogo da memória e outro chamado Uno. O Dr. Begara tomou a iniciativa de, atendendo particularmente a eventuais turistas, não cobrar seus honorários, e sim sugerir uma doação ao Projeto de Gente. Begara e Eliana, sua esposa, já são mais dois “projetista”! Foi deste modo que recebemos a doação de R$50,00 de Marcelo Neves. Obrigado, amigo! Recebemos também a doação de R$400,00 de Maria Cristina Bó. Muito obrigado, Cristina! Recebemos um telefonema da Lourdinha, coordenadora do Compartilharte, um espaço de trabalho desenvolvido em Teresópolis, estado do rio de Janeiro. Há alguns meses, escrevemos um texto inspirado em seu excepcional trabalho. Para conhecer mais e melhor, acesse www.espacocompartilharte.org.br... Vale muito à pena! Nós, sem dúvida, vamos manter contato e trocar experiências.
No próximo dia 04 de agosto, como sempre às 13h, reiniciamos as atividades. Aguardem o diário de agosto – mês de aniversário do Projeto de Gente em Cumuruxatiba, sul da Bahia...
Assim, combinamos a festa para o dia 19 de julho – o sábado seguinte ao último dia de aulas nas escolas.
Uma das principais motivações desta festa era conseguir a reunião do máximo de pais, mães e responsáveis pelas crianças que freqüentam o Projeto. Com este objetivo foi elaborada uma carta a ser levada para casa por todas as crianças.
Ficou assim:
Aos pais, mães ou outros responsáveis pelas crianças e jovens que freqüentam o Projeto de Gente
Caros amigas e amigos,
Este ano o pessoal do Projeto de Gente tem um grande desejo: aproximar-se mais das famílias das crianças e jovens que freqüentam o Projeto.
Como tentamos criar um espaço onde as crianças aprendem coisas importantes para sua vida num ambiente de alegria e bem estar, nada melhor do que uma festa para nos colocar mais pertinho uns dos outros.
E, nesta época do ano, também nada melhor do que uma festa junina: um arraiá. Como será nosso primeiro arraiá, ele será bem pequenininho, bem simples.
Um Projeto de Arraiá: uma fogueirinha, uma pequena quadrilha, barraquinha, comidinha e bebidinha...
Todas as crianças e adultos que participam do Projeto de Gente estão convidando vocês para construir a festa juntos!
Se puder marque, aqui em baixo, uma colaboração que você pode dar para a festa:
( ) um bolo ( ) cocadas ( ) pamonhas ( ) refrigerante ( ) suco ( ) batata-doce p’ra assar na fogueira ( ) banana da terra também para assar na fogueira ( ) outra gostosura qualquer
Marque e peça para a criança trazer o papel para o Projeto.
Mas, lembre-se, não é nada obrigatório, a maneira mais importante de participar é vindo na festa p’ra gente se divertir, conversar e se conhecer mais.
Se você também quiser participar fazendo bandeirinhas, barraquinha, estas coisinhas de arraiá é só vir na casinha do Projeto que a gente pode arrumar tudo junto.
Escolhemos o dia 19 de julho, um sábado, para fazer a festa. Ela vai começar lá pelas 5 da tarde que é p’ra não acabar muito tarde, mas pegar um pouquinho da noite e da luz da fogueira.
Um cordial abraço do
Pessoal do Projeto de Gente
Como vocês perceberam o nome de nosso arraiá ficou sendo, por conta de suas singelas dimensões: O Projeto de Arraiá.
Resolveu-se, em roda, que haveria casamento na roça, quadrilha, barraquinha de pescaria e de comidinha. Foi também decidido que as comidinhas seriam gratuitas uma vez que iríamos recebê-las como presente das pessoas – não era uma festa com o intuito de levantar recursos financeiros – e presente não se vende.
Há algum tempo havíamos ganhado um saco de objetos – prendedores de cabelo, alguns óculos escuros, carteirinhas, etc. Em várias ocasiões foi sugerido um uso para estas “coisinhas”, porém nunca se configurou um bom momento para isso. Parece que os objetos estavam mesmo esperando o bom momento, pois se transformaram em ótimas prendas da pescaria. Já fazia tanto tempo que havíamos ganhado este presente que não nos lembramos exatamente quem foi a pessoa que nos ofertou as prendas da barraquinha de pescaria. De todo jeito, quem quer que seja e esteja onde estiver, receba nosso agradecimento.
Os dias foram dedicados à preparação da festa: ensaios de quadrilha, construção das barraquinhas com palha de coqueiro e bambu, fabricação e colocação das bandeirolas feitas com papel de revistas – e que foram, depois da festa, guardadas para a fabricação de papel reciclado no fim do ano –, produção dos cartazes para indicar onde estava o que. As pessoas que quiseram trabalhar na organização escolheram o que mais gostariam de fazer, formaram equipes e puseram mãos à obra. No início tínhamos a impressão de que não conseguiríamos concretizar o planejado. Muita dispersão, uma certa falta de compromisso com as combinações. Foi, então, convocada uma roda extraordinária em que se discutiu a possibilidade de não haver festa por conta destas questões. Neste dia, era a terça-feira (15) imediatamente anterior à festa, todos compreenderam que faltavam apenas 3 dias para o sábado e que, naquele ritmo, não teríamos a festa. Um organograma foi votado: dia 16 – construção das barraquinhas; 17 – ensaio intensivo do casório na roça e da quadrilha e no dia 18, sexta-feira, ensaio geral e organização dos detalhes que faltassem. Aí sim, no meio de muita brincadeira, jogos de xadrez, jogo da viúva-viúvo, pulação de corda e o que mais quiséssemos, a festa apareceu frente aos nossos olhos.
Foi exato nesta época que recebemos a visita da Carol e do Luís, de São Paulo. Ela trabalhava na Escola Lumiar, em 2005, onde fizemos a formação em Educação Democrática. Hoje, ela e Luís, trabalham na organização de uma escola democrática junto com outros 7 parceiros - entre eles a Helena Singer, nossa grande amiga.
Carol trabalhou efetivamente na produção da festa e deixou sua marca em várias crianças que comentaram por muitos dias sobre as brincadeiras que ela ensinou. Comentaram e brincaram - brincam. Luiz, infelizmente, precisou voltar antes para São Paulo; entretanto, tivemos conversas muito produtivas e estimulantes para nós. Entre os temas: a possibilidade de Cumuruxatiba, o Projeto de Gente, receber o próximo encontro nacional de Educação Democrática, em julho de 2009.
Há poucos dias recebemos o boletim de julho da Politeia – organização a que estão vinculados Carol e Luiz.
Aqui vai a transcrição de um trecho do Boletim:
“REDE DE ESCOLAS e ONGs PELO BRASIL
A Politeia mantém sua política de troca de experiências e colaboração com escolas e organizações não governamentais voltadas para a transformação da educação no Brasil. No primeiro semestre deste ano, trocamos visitas e mantivemos contatos eletrônicos com o Projeto Amanamanha, em Garopaba, no litoral catarinense. A Amanamanha está construindo uma escola sustentável e democrática em espaço onde atualmente desenvolve projetos educativos apoiados em técnicas de permacultura como a construção de banheiro ecológico, com reaproveitamento de água da chuva, e produção de sabão com o óleo de cozinha usado dos próprios integrantes do projeto.
O segundo semestre aprofundamos nossa colaboração com o Projeto de Gente, em Cumuruxatiba, na Bahia, visitando este belo lugar. Numa casa modesta, cinqüenta crianças de 6 a 14 anos passam as tardes onde ocorrem atividades livres de xadrez, artes, culinária e jogos e brincadeiras, organizadas pelos mestres voluntários e coordenadas pelo médico-educador Alexandre Cavalcanti. A gestão do projeto é feita por todos nas Assembléias semanais, questões corriqueiras são resolvidas nas rodas diárias e qualquer evento de maior importância é levado ao foro de discussão nomeado de Debate. Com o tempo, almeja-se transformar o Projeto de Gente em mais uma escola democrática no Brasil.”
Conheça mais sobre a Politeia acessando www.politeia.org.br.
A pequena temporada da Carol entre nós reforçou a certeza da necessidade de termos educadores com experiência no dia a dia com as crianças. Reforçou, portanto, a certeza da necessidade da profissionalização do Projeto de Gente. Precisamos nos esforçar para conseguir recursos para pagar os salários de pessoas que tenham o conhecimento dos conceitos do Projeto de Gente e que também possuam prática no contato com crianças.
Mas, vamos voltar para a festa...
De cara, fomos surpreendidos com a quantidade de crianças. Nós não havíamos feito nenhum anúncio, a não ser para os responsáveis pelas crianças do Projeto.
Novamente a questão do tamanho da equipe se apresentou: faltava gente para dar conta de tudo o que era necessário. Entretanto, uma, também inesperada, circunstância aconteceu. Como houve um bom comparecimento de pais e mães, eles – na verdade, elas – se organizaram na cozinha e as comidinhas foram ficando prontas. Crianças e adultos também se organizaram nas barraquinhas e as pipocas, copinhos de caldinho de mandioca, mungunzá, bolos, cocadas, sucos e refrigerantes foram saindo.
Aprendemos muito sobre como organizar a próxima festa.
O casório foi uma beleza! Muito engraçado. Dias antes havíamos escolhido uma historinha que fugia da velha confusão do noivo que já era casado e do delegado com arma na mão obrigando o noivo a se casar. Quem sabe não publicamos, em alguma seção do blog, o roteiro da peça? O casamento terminava com um baile que era aberto pela quadrilha. Aliás, uma grande quadrilha com 17 pares. Toda a seqüencia da quadrilha também foi elaborada em conjunto e o Alexandre – que cantou os passos – foi severamente advertido por ter se esquecido do “beija-flor” (realmente uma pena porque este é um dos passos mais bonitos de uma quadrilha).
Enfim, mais um passo havia sido dado. Como sempre com erros e acertos, o aprendizado do cotidiano, aprendizado no qual mestres e aprendizes se fazem aprendizes e mestres. A expressão “escola da vida”, surrada e, por isto tantas vezes subvalorizada, vai ganhando, para nós do Projeto, seu mais profundo sentido. Nela vamos aprendendo a – tentando – transformar uma certa erudição – de fato, mais “decoreba” – ganha nos bancos de escolas, na leitura de livros, recolhida nos caminhos do pensamento, da razão, em outra substância mais viva, humanizada, quiçá mais sábia, certamente mais pulsante.
Outra visita que nos trouxe imensa alegria foi a do Jorge, Fátima – ativos associados da Associação Projeto de Gente e donos da Papelaria Rainha de Fátima, do Rio de Janeiro – que, ano passado, fizeram uma importantíssima doação de material. Vieram com a Clarice e a Maíra, duas lindas jovens cheias de alegria e graça. Infelizmente, o Projeto já estava em recesso quando eles chegaram. Entretanto, recebemos a seguinte mensagem pelo correio eletrônico:
CHEGAMOS!!!!!
Cumuru é um lugar único:
Crianças em abundância
Projeto de Gente caminhando;
Pessoas bacanas;
Um amigo especial;
Foi uma viagem muito legal, apesar de ter sido muito rápida;
Vimos na prática o Projeto acontecendo , (apesar de não termos chegado a tempo de ver a casa funcionando, sentimos a energia das crianças e a força do trabalho)
"A casinha do Projeto"
Com seus móveis construídos artesanalmente/amorosamente,
com seus espaços já tão definidos:
uma sala para biblioteca/sala de estudos,
uma sala para oficina de artes,
uma cozinha generosa para oficina de culinária,
uma sala para roda.
E o quintal?????
cajueiro, mangueira e pitangueira e uma horta em construção...
e um lindo forno para completar.
Idéias se multiplicando:
Casa na Árvore...
Mesa de pingue-pongue...
Que tal?
Uma rede de Vôlei ou Peteca ou ambas...
Quantos sonhos e quantos projetos...
Vamos lá amigos.
Vamos insistir...
Chegaremos!!!!!
Um forte abraço.
Beijos Saudosos!!!!
Jorge/Fátima
O título da mensagem era: Viagem Maravilhosa... Mais uma “lenha na fogueira” que aquece e ilumina o trabalho aqui em Cumuruxatiba.
Notícias: o Jef, Ioane e Jonas doaram um jogo da memória e outro chamado Uno. O Dr. Begara tomou a iniciativa de, atendendo particularmente a eventuais turistas, não cobrar seus honorários, e sim sugerir uma doação ao Projeto de Gente. Begara e Eliana, sua esposa, já são mais dois “projetista”! Foi deste modo que recebemos a doação de R$50,00 de Marcelo Neves. Obrigado, amigo! Recebemos também a doação de R$400,00 de Maria Cristina Bó. Muito obrigado, Cristina! Recebemos um telefonema da Lourdinha, coordenadora do Compartilharte, um espaço de trabalho desenvolvido em Teresópolis, estado do rio de Janeiro. Há alguns meses, escrevemos um texto inspirado em seu excepcional trabalho. Para conhecer mais e melhor, acesse www.espacocompartilharte.org.br... Vale muito à pena! Nós, sem dúvida, vamos manter contato e trocar experiências.
No próximo dia 04 de agosto, como sempre às 13h, reiniciamos as atividades. Aguardem o diário de agosto – mês de aniversário do Projeto de Gente em Cumuruxatiba, sul da Bahia...
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Junho de 2008
Chegou o inverno. Chegou a chuva. Chegou a Trezena de Santo Antônio. Chegaram São João e o João Bastos, este lá das bandas do Rio de Janeiro.
O inverno, a chuva, a trezena e São João eram esperados e não eram, exatamente, novidades. Até ao contrário, pois todos sabemos o que deve acontecer e como é que fica a vila: vento frio no fim do dia, muita poça d’água e lama descendo dos morros, mas, mesmo assim, barraquinhas, bingo, quentão, quadrilha e forró – tudo mais ou menos cheio de gente se menos ou mais chuva.
O João, do Rio, também era esperado com ansiedade e alguma expectativa: será que vai gostar do que vai encontrar? Daqui há pouco vamos ouvir a resposta desta pergunta porque ele mesmo vai responder de própria voz... ou punho.
Com o João, não o santo, chegou também o dia da Festa do Forno do Projeto de Gente. E a Festa do Forno era pura novidade: será que o forno vai esquentar? Afinal choveu muito nos últimos três dias e o forno é descoberto. Na madrugada anterior à festa caiu um pé d’água daqueles de acordar gente de sono pesado. As massas vão crescer? A quantidade de pão e pizzas e biscoitos vai ser suficiente? Os sucos de graviola, maracujá e acerola serão suficientes? E se o forno esquentar demais? Será que vai queimar tudo? Vai tudo virar carvãozinho? A porta do forno, preparada pelo Antônio, vai dar conta do recado? E o teatro de mamulengos? Será que os meninos e meninas vão saber, como juraram de pés juntos, improvisar as falas da história mais ou menos costurada? Será que vai dar o famoso “branco” nos poetas e declamadores? Os atores da peça “Quem ama, cuida” vão lembrar as falas e as marcações? O diretor vai ter um treco?
Pois foi uma beleza! O forno esquentou, crianças e adultos botaram a mão na massa e os os pães cresceram, os biscoitos e pizzas não queimaram e, além disso, estavam realmente deliciosos, o suco não foi suficiente não, mas ninguém ligou, os poetas e declamadores soltaram a voz, os mamulengos fizeram todo mundo rir, os atores foram “o” espetáculo... e o diretor sobreviveu!
Pois foi nesse mesmo dia, como dissemos que o João chegou a Cumuru. Pegou o fim da festa, mas os atores da peça fizeram questão de oferecer uma nova sessão.
O João, com sua tranqüilidade e amabilidade, foi logo se inserindo na pequena comunidade do Projeto de Gente. Nos dias seguintes conversou com muitas crianças, conheceu um pouco de suas vidas, fez anotações, jogou o jogo das palavras cruzadas (aprendeu a grande palavra “minimicoleão” que rendeu muitos pontos ao Dilermano), participou das Rodas – vale o parêntese: as Rodas destes últimos dias têm sido confusas, dispersas; as crianças estão bem agitadas; talvez um dos motivos tenha sido um certo assunto espinhoso: o desaparecimento de um ou dois pacotes de biscoitos do lanche. Procuramos não sair atrás de quem foi quem não foi, se este ou aquele, e sim buscamos trabalhar mais as questões que surgem a partir desta situação, principalmente o tema da confiança e da desconfiança, da geração dos mecanismos de controle (portas trancadas, punições, etc). Falamos também sobre o fato de que a pessoa que pegou os biscoitos não estava bem, não estava legal, pois os biscoitos eram de todos, portanto, eram dela mesma; e, se não estava bem, precisava mesmo é de apoio para se sentir melhor. Apesar disto muitas crianças tentam logo se defender dizendo que não foram elas –“ eu estava no Rio do Peixe, não vim neste dia”, “eu estava com febre, nem fui à escola” –, outras, acostumadas ao sistema que apenas investiga, pune os culpados e dão por resolvido o problema, tentam descobrir quem foi, armam histórias, desconfiam. Ficamos com a forte sensação de que este é mais um dos pontos a se ter paciência,... conversar,... conversar e, mais uma vez,... conversar.
Este é um típico momento que consideramos de grande importância no Projeto de Gente. Ao invés de apenas nos aborrecer, procuramos viver a situação de outra maneira; isto é, aí está a boa hora de aprender algo novo, a hora em que estamos mobilizados, tocados em nossos interesses e sensibilidades, o bom momento para mostrar que existem outros ângulos a se observar e outras vias de resolução, hora de romper velhos e cristalizados padrões e organizar novas possibilidades, de realmente vivenciar o “problema” e transformá-lo em uma questão a ser encarada, aprofundada e resolvida do modo que, de fato, acharmos mais adequado. Uma solução que emerge da sensibilidade e com a responsabilidade de cada um, uma solução que pode demorar mais do que apanhar e punir o culpado – mesmo com o óbvio direito à defesa –, uma solução que pode trazer outras delicadas – e muitas vezes incômodas – questões, mas, certamente, uma solução mais profunda e conseqüente.
De tudo isto o João participou – de 09 a 18 – ativamente, conversou, opinou, sugeriu, votou. Aliás, foi tirado que não teríamos biscoito no lanche seguinte à descoberta do desaparecimento. Os motivos foram: (1) chamar a atenção para a importância do fato de modo contundente e (2) deixar claro que o dinheiro é pouco e se coisas desaparecem vão faltar mesmo lá adiante. No dia seguinte, o Paulinho, o mestre de xadrez, mostrou-se preocupado com a possibilidade de as crianças sentirem como se tivesse havido uma punição coletiva. Mais conversa...
Este aqui parece ser um bom momento para o João dar seu depoimento. Com a palavra nosso amigo:
Visita ao Projeto de Gente (Cumuruxatiba)
09 a 18 de junho de 2008
09/06, segunda-feira: às cinco da tarde, tendo iniciado minha viagem no Rio de Janeiro às 8 e meia da noite da véspera, sou acolhido em Cumuruxatiba pelo carinho do Mujinha e do Alexandre. Subimos a falésia, até a casinha do Projeto de Gente, onde a festa de inauguração do forno está terminando, já ao cair da tarde.
Em atenção a mim, Ioane e Sol reapresentam o esquete teatral que haviam encenado pouco antes, um texto que deve ter sido difícil de decorar.
Em torno do palco, crianças, pais, colaboradores do Projeto. A tarde morrendo, o clarão do forno se destacando em meio ao crepúsculo, a última rodada de pães e pizzas, assados sob a orientação do Juan, tudo configurou uma ótima recepção!
10/06, terça-feira: Depois de passar a manhã tomando conhecimento da vila (caminhada na praia deserta, visita ao pátio da igreja, embandeirado para a trezena de Santo Antonio, conhecimento de novos e antigos moradores), estava eu, à uma da tarde, na casinha do Projeto, junto com o Alexandre. Antes da abertura da casa, a conversa com os “madrugadores”, que subiam em árvores, faziam malabarismo, me ilustraram com lições sobre a vegetação nativa: pés de araçá, manga, aroeira, mangaba e beri-beri.
Depois chegou Paulinho, o mestre de xadrez. Nesse dia, logo que a casa se abriu, foi organizado um mutirão para arrumar a casa, cuja rotina tinha sido afetada pela comemoração da véspera.
Quem já estavam no Projeto foram escolhendo suas atividades: Dejnan, Gladstone, Ana Paula e Paulinho iniciaram uma partida de xadrez, Jonas, Ioane e Flávio optaram por desenho, Ana Paula, Dilermano, Jonas e João escolheram palavras cruzadas, outros foram para o banco imobiliário. Crianças que chegaram depois foram se incorporando aos diversos grupos.
Alexandre era o responsável nesse dia pelas anotações de retirada de material.
Na roda desse dia discutiu-se a mudança de horário do lanche, a festa da véspera, a dificuldade de manter silêncio e disciplina na roda. Não sei se alguém percebeu, mas eu estava muito emocionado ao contemplar, pela primeira vez, o grupo reunido para discutir questões do Projeto.
Após o lanche e arrumação da casa, termina meu primeiro dia inteiro no Projeto de Gente.
11/06, quarta-feira: pela manhã, trabalhamos, Alexandre e eu, no computador, organizando o cadastro de simpatizantes e apoiadores do Projeto em Cumuru, e enviando a todos o informe de maio.
Cheguei à casinha do Projeto somente às duas da tarde, e já encontrei um grupo de crianças ocupadas em cortar legumes e preparar o lanche, na oficina de culinária da Dolores: todos de avental e gorros improvisados, pequenos mestres-cuca.
Algumas crianças que brincavam no quintal enriqueceram meu vocabulário com palavras e expressões da terra: rétar, no sentido de arretar, perseguir; pocar, que que dizer quebrar; enrabar, que, ao contrário do sentido malicioso que tem em outras regiões, em Cumuru quer dizer ir atrás, ir na cola: eu corria e o cachorro tentava me alcançar, me enrabando. Quando eu falei que jogar palavras cruzadas era gostoso, todos estranharam: gostoso? gostoso é coisa de comer...
No lanche, os alunos serviram o produto da oficina, como o Alexandre já contou no Diário.
A roda desse dia foi diferente: fomos assistir a um áudio-visual preparado sobre o Projeto, no aparelho instalado na casa do Alexandre, e conversamos sobre isso.
12/06, quinta-feira: dia em que as crianças não têm atividade no Projeto. Aproveitamos para discutir a construção da democracia na “roda”. Uma saudável divergência, o Alexandre enfatizando a necessidade de deixar as crianças à vontade para participarem ou não das rodas, enquanto minha posição era de que as crianças deveriam, pelo menos no início, estar obrigatoriamente nas rodas e exercitar a participação democrática. Uma discussão que vai longe...
No final da tarde, reunião no ateliê da Renata, com a presença de Dolores, Ângela, Renata, Paulinho, Alexandre e eu. Discutiram-se as tarefas a serem cumpridas no Rio e em Cumuru: blog de divulgação, campanha de ampliação dos apoiadores, contato mais estreito da coordenação do Projeto com os pais e responsáveis.
13/06, sexta-feira: dia de Santo Antônio, alvorada com banda tocando marchinhas alegres. A vila de Cumuru fica muito alegre nos dias da trezena do santo padroeiro. As crianças mais velhas saíam alguns dias mais cedo do Projeto, para participar do ensaio da quadrilha na escola. Assisti na sexta à noite ao início da missa, com os pescadores entrando na igreja em procissão, carregando uma imagem de sua santa protetora.
A cada momento, andando com Alexandre pelas ruas, aparece uma criança ligada ao Projeto. E lá vem a pergunta: “Alexandre, segunda-feira vai ter projeto?”, como para se assegurar de que o Projeto veio mesmo para ficar.
Durante o dia de sexta-feira, sentamo-nos por várias horas em frente ao computador, discutindo a montagem de um blog e a catalogação de fotos e documentos do projeto.
16/06, segunda-feira: durante a tarde, entrevistei várias crianças do Projeto, atualizando as fichas do cadastro com nome e profissão dos pais, data de nascimento, ano escolar. Também procuramos investigar certos aspectos mais sutis, como, por exemplo, perguntar sobre os “gostares” e “não-gostares” das crianças, expectativas quanto ao futuro e avaliação sobre a vida em Cumuru. Pude colher algumas histórias interessantes, bem como perceber algumas peculiaridades de cada um, que são ingredientes importantes, mas às vezes tristes, para compor a história de suas vidas: separação de casais, perda de um dos pais, questões de violência doméstica, laços de amizade que vão além dos vínculos familiares.
Com a ajuda das crianças, Renata e Ângela pintaram tabuleiros de xadrez sobre as toscas tábuas da mesinha. Outro grupo de crianças trabalhou com Alexandre fixando prateleiras e mudando de lugar alguns dos móveis. O acervo de móveis é pequeno, mas já é um progresso em relação ao que tínhamos há uns meses atrás: hoje existem estantes de tábuas, mesas de madeira tosca apoiadas em cavaletes, banquinhos de plástico. Fiquei pensando que uma boa contribuição para o projeto seriam algumas mesas de plástico, que nos dias de sol poderiam ser arrumadas no quintal, e ao final do dia empilhadas numa das salas da casinha.
É interessante a forma como as crianças se apropriam do espaço do quintal: as árvores parecem personagens importantes, pequenos planetas que desempenham papel importante na vida do Projeto. Lá em cima elas podem ficar conversando, escolher se ocupam os galhos mais baixos ou mais altos, fazer os malabarismos que quiserem.
Também o forno é uma figura importante: há sempre dois ou três sentados ali em cima, como se estivessem pilotando um pequeno barco. Seria curioso pesquisar as fantasias que as crianças têm quando se apropriam desses espaços.
17/06, terça-feira: prosseguiu a tarefa de entrevistar e fotografar as crianças. Nesse dia as crianças estavam bastante inquietas na “roda”, mas foram discutidas questões importantes, como já apresentado pelo Alexandre. Nas conversas que tive com eles sobre o futuro, muitos são atraídos por profissões ligadas ao mar e ao meio ambiente: alguns querem ser biólogos, outros querem mergulhar. Quanto aos pontos que gostariam de mudar em Cumuru, mais de um falou que gostaria de acabar com as brigas.
18/06, quarta-feira: pela manhã, tive oportunidade de visitar a aldeia indígena Caí. Quem nos apresentou a aldeia foram D. Léa e seu filho Romualdo. Numa visita rápida, acho que pude apenas tangenciar a complexidade da questão indígena no Sul da Bahia. Pelo que entendi, os pataxós estavam integrados na sociedade, mas havia um passivo histórico a saldar. O trabalho nas aldeias tenta recuperar os valores e as tradições indígenas, além de lutar pela demarcação das terras das reservas. Esse ponto, particularmente, é um ponto de elevado conflito potencial com a população não-indígena da região.
À tarde, não pude permanecer na casinha até o final no Projeto, pois meu ônibus para Itamaraju partia às 16 horas. Não foi possível assim experimentar os crepes preparados pelas crianças na oficina de culinária. Tirei as últimas fotos do grupo e me despedi de todos, pois precisava buscar minha bagagem na pousada.
No ponto de ônibus, tive a alegria de encontrar o Alexandre e três das crianças do projeto: Maciele, Raíssa e Flávia.
E assim terminou minha primeira visita a Cumuruxatiba. Saí de lá com a sensação de que o Projeto criou raízes nos corações e nas mentes da população local, e que, a despeito da carência de recursos, o Projeto está consolidado.
João Bastos de Mattos
Capivari, 09 de julho de 2008
E agora, depois deste belo relato do João, notícias! Foram pintados os tabuleiros de xadrez na mesa baixa. Assim, temos agora o tabuleiro doado pela Lúcia – com lindas peças de madeira –, o que o Paulinho trouxe – com peças de pedra sabão (um empréstimo muito valioso dado o carinho que o Paulinho tem com estas peças) e os dois novos e coloridos tabuleiros da mesa. Temos ainda um jogo de peças também de pedra sabão – Dolores nos presenteou. Valeu, Lúcia, Paulinho e Dolores!
Outra grande notícia: o Begara, o novo médico do Posto de Saúde, nos doou... uma caixa d’água novinha em folha – ou melhor, em fibra. Uma caixa de 500 litros (por ele seria de 1000) com toda a parafernália de canos, bóias, registros e flange (seja lá o que for isto!) necessários para sua instalação. Os homens e mulheres já estão convocados para o mutirão de colocação da caixa em seus novos esteios – doados pelo Ricardo e Ângela Darc. Obrigado, Begara! Valeu, Ângela e Ricardo!
Paulinho fez uma viagem de uma semana e, mais uma vez, deixou clara a necessidade de aumentar o quadro de educadores. Uma ou mesmo duas pessoas são insuficientes para implementar o que se pretende no Projeto de Gente.
Sexta-feira (27) tivemos a 1ª sessão de cinema no Projeto propiciada pelo Ricardo, Andrea e, claro, o Theo. O nome do Cine será escolhido logo logo. O filme foi o Shrek e aprendemos que não podemos começar tarde a sessão, pois muitas crianças precisam realmente sair às 16:30/17:00h – são muitas as crianças que pegam seus irmãos menores na escola e/ou ajudam na arrumação e preparo da janta. De todo modo foi festa com direito a pipoca e o escurinho do cinema – só faltou o drops de aniz. Muito obrigado, Theo, Andrea e Ricardo!
Na Oficina de Culinária da Dolores tivemos, num dia, arroz com legumes em copinhos decorados com folhas de manjericão, noutro, panquecas com açúcar e canela e, na última do mês, sanduíche de manteiga com ervas e ovos mexidos. Já nem tem mais graça agradecer à Dolores – que, na sua linda simplicidade e com seu belo sotaque, sempre está a dizer que não precisa, não precisa.
Assim nos despedimos deste mês extraordinariamente frio nesta Bahia ordinariamente calorosa. Até o mês que vem!
O inverno, a chuva, a trezena e São João eram esperados e não eram, exatamente, novidades. Até ao contrário, pois todos sabemos o que deve acontecer e como é que fica a vila: vento frio no fim do dia, muita poça d’água e lama descendo dos morros, mas, mesmo assim, barraquinhas, bingo, quentão, quadrilha e forró – tudo mais ou menos cheio de gente se menos ou mais chuva.
O João, do Rio, também era esperado com ansiedade e alguma expectativa: será que vai gostar do que vai encontrar? Daqui há pouco vamos ouvir a resposta desta pergunta porque ele mesmo vai responder de própria voz... ou punho.
Com o João, não o santo, chegou também o dia da Festa do Forno do Projeto de Gente. E a Festa do Forno era pura novidade: será que o forno vai esquentar? Afinal choveu muito nos últimos três dias e o forno é descoberto. Na madrugada anterior à festa caiu um pé d’água daqueles de acordar gente de sono pesado. As massas vão crescer? A quantidade de pão e pizzas e biscoitos vai ser suficiente? Os sucos de graviola, maracujá e acerola serão suficientes? E se o forno esquentar demais? Será que vai queimar tudo? Vai tudo virar carvãozinho? A porta do forno, preparada pelo Antônio, vai dar conta do recado? E o teatro de mamulengos? Será que os meninos e meninas vão saber, como juraram de pés juntos, improvisar as falas da história mais ou menos costurada? Será que vai dar o famoso “branco” nos poetas e declamadores? Os atores da peça “Quem ama, cuida” vão lembrar as falas e as marcações? O diretor vai ter um treco?
Pois foi uma beleza! O forno esquentou, crianças e adultos botaram a mão na massa e os os pães cresceram, os biscoitos e pizzas não queimaram e, além disso, estavam realmente deliciosos, o suco não foi suficiente não, mas ninguém ligou, os poetas e declamadores soltaram a voz, os mamulengos fizeram todo mundo rir, os atores foram “o” espetáculo... e o diretor sobreviveu!
Pois foi nesse mesmo dia, como dissemos que o João chegou a Cumuru. Pegou o fim da festa, mas os atores da peça fizeram questão de oferecer uma nova sessão.
O João, com sua tranqüilidade e amabilidade, foi logo se inserindo na pequena comunidade do Projeto de Gente. Nos dias seguintes conversou com muitas crianças, conheceu um pouco de suas vidas, fez anotações, jogou o jogo das palavras cruzadas (aprendeu a grande palavra “minimicoleão” que rendeu muitos pontos ao Dilermano), participou das Rodas – vale o parêntese: as Rodas destes últimos dias têm sido confusas, dispersas; as crianças estão bem agitadas; talvez um dos motivos tenha sido um certo assunto espinhoso: o desaparecimento de um ou dois pacotes de biscoitos do lanche. Procuramos não sair atrás de quem foi quem não foi, se este ou aquele, e sim buscamos trabalhar mais as questões que surgem a partir desta situação, principalmente o tema da confiança e da desconfiança, da geração dos mecanismos de controle (portas trancadas, punições, etc). Falamos também sobre o fato de que a pessoa que pegou os biscoitos não estava bem, não estava legal, pois os biscoitos eram de todos, portanto, eram dela mesma; e, se não estava bem, precisava mesmo é de apoio para se sentir melhor. Apesar disto muitas crianças tentam logo se defender dizendo que não foram elas –“ eu estava no Rio do Peixe, não vim neste dia”, “eu estava com febre, nem fui à escola” –, outras, acostumadas ao sistema que apenas investiga, pune os culpados e dão por resolvido o problema, tentam descobrir quem foi, armam histórias, desconfiam. Ficamos com a forte sensação de que este é mais um dos pontos a se ter paciência,... conversar,... conversar e, mais uma vez,... conversar.
Este é um típico momento que consideramos de grande importância no Projeto de Gente. Ao invés de apenas nos aborrecer, procuramos viver a situação de outra maneira; isto é, aí está a boa hora de aprender algo novo, a hora em que estamos mobilizados, tocados em nossos interesses e sensibilidades, o bom momento para mostrar que existem outros ângulos a se observar e outras vias de resolução, hora de romper velhos e cristalizados padrões e organizar novas possibilidades, de realmente vivenciar o “problema” e transformá-lo em uma questão a ser encarada, aprofundada e resolvida do modo que, de fato, acharmos mais adequado. Uma solução que emerge da sensibilidade e com a responsabilidade de cada um, uma solução que pode demorar mais do que apanhar e punir o culpado – mesmo com o óbvio direito à defesa –, uma solução que pode trazer outras delicadas – e muitas vezes incômodas – questões, mas, certamente, uma solução mais profunda e conseqüente.
De tudo isto o João participou – de 09 a 18 – ativamente, conversou, opinou, sugeriu, votou. Aliás, foi tirado que não teríamos biscoito no lanche seguinte à descoberta do desaparecimento. Os motivos foram: (1) chamar a atenção para a importância do fato de modo contundente e (2) deixar claro que o dinheiro é pouco e se coisas desaparecem vão faltar mesmo lá adiante. No dia seguinte, o Paulinho, o mestre de xadrez, mostrou-se preocupado com a possibilidade de as crianças sentirem como se tivesse havido uma punição coletiva. Mais conversa...
Este aqui parece ser um bom momento para o João dar seu depoimento. Com a palavra nosso amigo:
Visita ao Projeto de Gente (Cumuruxatiba)
09 a 18 de junho de 2008
09/06, segunda-feira: às cinco da tarde, tendo iniciado minha viagem no Rio de Janeiro às 8 e meia da noite da véspera, sou acolhido em Cumuruxatiba pelo carinho do Mujinha e do Alexandre. Subimos a falésia, até a casinha do Projeto de Gente, onde a festa de inauguração do forno está terminando, já ao cair da tarde.
Em atenção a mim, Ioane e Sol reapresentam o esquete teatral que haviam encenado pouco antes, um texto que deve ter sido difícil de decorar.
Em torno do palco, crianças, pais, colaboradores do Projeto. A tarde morrendo, o clarão do forno se destacando em meio ao crepúsculo, a última rodada de pães e pizzas, assados sob a orientação do Juan, tudo configurou uma ótima recepção!
10/06, terça-feira: Depois de passar a manhã tomando conhecimento da vila (caminhada na praia deserta, visita ao pátio da igreja, embandeirado para a trezena de Santo Antonio, conhecimento de novos e antigos moradores), estava eu, à uma da tarde, na casinha do Projeto, junto com o Alexandre. Antes da abertura da casa, a conversa com os “madrugadores”, que subiam em árvores, faziam malabarismo, me ilustraram com lições sobre a vegetação nativa: pés de araçá, manga, aroeira, mangaba e beri-beri.
Depois chegou Paulinho, o mestre de xadrez. Nesse dia, logo que a casa se abriu, foi organizado um mutirão para arrumar a casa, cuja rotina tinha sido afetada pela comemoração da véspera.
Quem já estavam no Projeto foram escolhendo suas atividades: Dejnan, Gladstone, Ana Paula e Paulinho iniciaram uma partida de xadrez, Jonas, Ioane e Flávio optaram por desenho, Ana Paula, Dilermano, Jonas e João escolheram palavras cruzadas, outros foram para o banco imobiliário. Crianças que chegaram depois foram se incorporando aos diversos grupos.
Alexandre era o responsável nesse dia pelas anotações de retirada de material.
Na roda desse dia discutiu-se a mudança de horário do lanche, a festa da véspera, a dificuldade de manter silêncio e disciplina na roda. Não sei se alguém percebeu, mas eu estava muito emocionado ao contemplar, pela primeira vez, o grupo reunido para discutir questões do Projeto.
Após o lanche e arrumação da casa, termina meu primeiro dia inteiro no Projeto de Gente.
11/06, quarta-feira: pela manhã, trabalhamos, Alexandre e eu, no computador, organizando o cadastro de simpatizantes e apoiadores do Projeto em Cumuru, e enviando a todos o informe de maio.
Cheguei à casinha do Projeto somente às duas da tarde, e já encontrei um grupo de crianças ocupadas em cortar legumes e preparar o lanche, na oficina de culinária da Dolores: todos de avental e gorros improvisados, pequenos mestres-cuca.
Algumas crianças que brincavam no quintal enriqueceram meu vocabulário com palavras e expressões da terra: rétar, no sentido de arretar, perseguir; pocar, que que dizer quebrar; enrabar, que, ao contrário do sentido malicioso que tem em outras regiões, em Cumuru quer dizer ir atrás, ir na cola: eu corria e o cachorro tentava me alcançar, me enrabando. Quando eu falei que jogar palavras cruzadas era gostoso, todos estranharam: gostoso? gostoso é coisa de comer...
No lanche, os alunos serviram o produto da oficina, como o Alexandre já contou no Diário.
A roda desse dia foi diferente: fomos assistir a um áudio-visual preparado sobre o Projeto, no aparelho instalado na casa do Alexandre, e conversamos sobre isso.
12/06, quinta-feira: dia em que as crianças não têm atividade no Projeto. Aproveitamos para discutir a construção da democracia na “roda”. Uma saudável divergência, o Alexandre enfatizando a necessidade de deixar as crianças à vontade para participarem ou não das rodas, enquanto minha posição era de que as crianças deveriam, pelo menos no início, estar obrigatoriamente nas rodas e exercitar a participação democrática. Uma discussão que vai longe...
No final da tarde, reunião no ateliê da Renata, com a presença de Dolores, Ângela, Renata, Paulinho, Alexandre e eu. Discutiram-se as tarefas a serem cumpridas no Rio e em Cumuru: blog de divulgação, campanha de ampliação dos apoiadores, contato mais estreito da coordenação do Projeto com os pais e responsáveis.
13/06, sexta-feira: dia de Santo Antônio, alvorada com banda tocando marchinhas alegres. A vila de Cumuru fica muito alegre nos dias da trezena do santo padroeiro. As crianças mais velhas saíam alguns dias mais cedo do Projeto, para participar do ensaio da quadrilha na escola. Assisti na sexta à noite ao início da missa, com os pescadores entrando na igreja em procissão, carregando uma imagem de sua santa protetora.
A cada momento, andando com Alexandre pelas ruas, aparece uma criança ligada ao Projeto. E lá vem a pergunta: “Alexandre, segunda-feira vai ter projeto?”, como para se assegurar de que o Projeto veio mesmo para ficar.
Durante o dia de sexta-feira, sentamo-nos por várias horas em frente ao computador, discutindo a montagem de um blog e a catalogação de fotos e documentos do projeto.
16/06, segunda-feira: durante a tarde, entrevistei várias crianças do Projeto, atualizando as fichas do cadastro com nome e profissão dos pais, data de nascimento, ano escolar. Também procuramos investigar certos aspectos mais sutis, como, por exemplo, perguntar sobre os “gostares” e “não-gostares” das crianças, expectativas quanto ao futuro e avaliação sobre a vida em Cumuru. Pude colher algumas histórias interessantes, bem como perceber algumas peculiaridades de cada um, que são ingredientes importantes, mas às vezes tristes, para compor a história de suas vidas: separação de casais, perda de um dos pais, questões de violência doméstica, laços de amizade que vão além dos vínculos familiares.
Com a ajuda das crianças, Renata e Ângela pintaram tabuleiros de xadrez sobre as toscas tábuas da mesinha. Outro grupo de crianças trabalhou com Alexandre fixando prateleiras e mudando de lugar alguns dos móveis. O acervo de móveis é pequeno, mas já é um progresso em relação ao que tínhamos há uns meses atrás: hoje existem estantes de tábuas, mesas de madeira tosca apoiadas em cavaletes, banquinhos de plástico. Fiquei pensando que uma boa contribuição para o projeto seriam algumas mesas de plástico, que nos dias de sol poderiam ser arrumadas no quintal, e ao final do dia empilhadas numa das salas da casinha.
É interessante a forma como as crianças se apropriam do espaço do quintal: as árvores parecem personagens importantes, pequenos planetas que desempenham papel importante na vida do Projeto. Lá em cima elas podem ficar conversando, escolher se ocupam os galhos mais baixos ou mais altos, fazer os malabarismos que quiserem.
Também o forno é uma figura importante: há sempre dois ou três sentados ali em cima, como se estivessem pilotando um pequeno barco. Seria curioso pesquisar as fantasias que as crianças têm quando se apropriam desses espaços.
17/06, terça-feira: prosseguiu a tarefa de entrevistar e fotografar as crianças. Nesse dia as crianças estavam bastante inquietas na “roda”, mas foram discutidas questões importantes, como já apresentado pelo Alexandre. Nas conversas que tive com eles sobre o futuro, muitos são atraídos por profissões ligadas ao mar e ao meio ambiente: alguns querem ser biólogos, outros querem mergulhar. Quanto aos pontos que gostariam de mudar em Cumuru, mais de um falou que gostaria de acabar com as brigas.
18/06, quarta-feira: pela manhã, tive oportunidade de visitar a aldeia indígena Caí. Quem nos apresentou a aldeia foram D. Léa e seu filho Romualdo. Numa visita rápida, acho que pude apenas tangenciar a complexidade da questão indígena no Sul da Bahia. Pelo que entendi, os pataxós estavam integrados na sociedade, mas havia um passivo histórico a saldar. O trabalho nas aldeias tenta recuperar os valores e as tradições indígenas, além de lutar pela demarcação das terras das reservas. Esse ponto, particularmente, é um ponto de elevado conflito potencial com a população não-indígena da região.
À tarde, não pude permanecer na casinha até o final no Projeto, pois meu ônibus para Itamaraju partia às 16 horas. Não foi possível assim experimentar os crepes preparados pelas crianças na oficina de culinária. Tirei as últimas fotos do grupo e me despedi de todos, pois precisava buscar minha bagagem na pousada.
No ponto de ônibus, tive a alegria de encontrar o Alexandre e três das crianças do projeto: Maciele, Raíssa e Flávia.
E assim terminou minha primeira visita a Cumuruxatiba. Saí de lá com a sensação de que o Projeto criou raízes nos corações e nas mentes da população local, e que, a despeito da carência de recursos, o Projeto está consolidado.
João Bastos de Mattos
Capivari, 09 de julho de 2008
E agora, depois deste belo relato do João, notícias! Foram pintados os tabuleiros de xadrez na mesa baixa. Assim, temos agora o tabuleiro doado pela Lúcia – com lindas peças de madeira –, o que o Paulinho trouxe – com peças de pedra sabão (um empréstimo muito valioso dado o carinho que o Paulinho tem com estas peças) e os dois novos e coloridos tabuleiros da mesa. Temos ainda um jogo de peças também de pedra sabão – Dolores nos presenteou. Valeu, Lúcia, Paulinho e Dolores!
Outra grande notícia: o Begara, o novo médico do Posto de Saúde, nos doou... uma caixa d’água novinha em folha – ou melhor, em fibra. Uma caixa de 500 litros (por ele seria de 1000) com toda a parafernália de canos, bóias, registros e flange (seja lá o que for isto!) necessários para sua instalação. Os homens e mulheres já estão convocados para o mutirão de colocação da caixa em seus novos esteios – doados pelo Ricardo e Ângela Darc. Obrigado, Begara! Valeu, Ângela e Ricardo!
Paulinho fez uma viagem de uma semana e, mais uma vez, deixou clara a necessidade de aumentar o quadro de educadores. Uma ou mesmo duas pessoas são insuficientes para implementar o que se pretende no Projeto de Gente.
Sexta-feira (27) tivemos a 1ª sessão de cinema no Projeto propiciada pelo Ricardo, Andrea e, claro, o Theo. O nome do Cine será escolhido logo logo. O filme foi o Shrek e aprendemos que não podemos começar tarde a sessão, pois muitas crianças precisam realmente sair às 16:30/17:00h – são muitas as crianças que pegam seus irmãos menores na escola e/ou ajudam na arrumação e preparo da janta. De todo modo foi festa com direito a pipoca e o escurinho do cinema – só faltou o drops de aniz. Muito obrigado, Theo, Andrea e Ricardo!
Na Oficina de Culinária da Dolores tivemos, num dia, arroz com legumes em copinhos decorados com folhas de manjericão, noutro, panquecas com açúcar e canela e, na última do mês, sanduíche de manteiga com ervas e ovos mexidos. Já nem tem mais graça agradecer à Dolores – que, na sua linda simplicidade e com seu belo sotaque, sempre está a dizer que não precisa, não precisa.
Assim nos despedimos deste mês extraordinariamente frio nesta Bahia ordinariamente calorosa. Até o mês que vem!
segunda-feira, 2 de junho de 2008
MAIO 2008
Tradicionalmente o mês das mães; a bem da verdade, não exatamente tradicional, mas sim comercial.
De todo modo, o “mês das mães” fez lembrar o que David Boadella – um importante psicólogo – propôs a seu editor certa vez: uma pequena alteração em todos os seus livros já publicados. A tal alteração foi a substituição das palavras pai e mãe pela expressão mater-paternagem. Foi assim que nos chegou esta informação; e ela faz sentido, pois Boadella nos mostra em suas pesquisas que o campo de sustentação de uma criança não precisa ser necessariamente o pai ou a mãe. Muitas vezes esse papel é exercido por um parente – uma avó, avô, padrinho, madrinha - ou uma instituição – um orfanato, um estabelecimento do estado - ou mesmo uma pessoa, até então, desconhecida.
Naturalmente o campo mais comum é, de fato, a família parental; entretanto, a qualidade de sustentação pode ser melhor ou pior em qualquer hipótese. O que é certo é que todos nós que estamos vivos, de um jeito ou outro, fomos acolhidos. Alguém, mesmo com muita má vontade, cuidou para que não morrêssemos de fome, sede, frio ou calor exagerado, pois sabemos que o ser humano é um dos animais que mais precisam de cuidados na infância, alas, uma longa infância. Nascemos precoces, antes do tempo, incompletos – faltam enzimas para a digestão, nossos ossos ainda não estão todos no lugar, as células nervosas ainda não estão recobertas por sua bainha protetora -, somos seres marsupiais sem bolsa extra-uterina que nos aconchegue. Mas precisamos de muito aconchego.
Outro dia, um educador do Projeto de Gente, conversando com dois irmãos cujo pai morreu há alguns anos, perguntou sobre se o padrasto dos meninos era uma pessoa legal e, antes de receber a resposta à sua pergunta, ouviu um “Todo mundo pergunta isso!”. O educador havia caído na velha armadilha de imaginar que o padrasto – ou, talvez ainda mais, a madrasta – podia não ser um bom campo de sustentabilidade para a vida de uma criança; como se pais e mães sempre fossem o melhor desses campos. Vale dizer que a resposta foi: “Ele é um cara muito legal!” Dias depois, esse educador soube que o pai era, efetivamente, um homem muito carinhoso e cuidadoso com os filhos;... assim como o padrasto.
A isca para a tal armadilha foi – e é – o enraizado sentimento de que é absolutamente necessário um campo de sustentação minimamente propício à organização da vida. Nunca é demais lembrar que esta mínima condição inclui, embora freqüentemente subestimada, as circunstâncias mais sutis, porém também indispensáveis, tais como: carinho, aceitação, amor, enfim. Dizemos que nunca é demais lembrar porque a falta de cuidado físico – alimento, por exemplo – parece ser considerada mais importante do que uma eventual necessidade emocional, como se uma pessoa pudesse sobreviver à falta de amor, mas não à falta de alimento ou de água; entretanto, as marcas desta carência existem e vão se manifestar em campos também sutis da estrutura vital da pessoa. Ela construirá seu corpo, sua saúde, sua doença, sua vida apoiada nesse campo. Claro que também não podemos esquecer que a estrutura relacional – social – que ela irá propor aos que a rodeiam terá a mesma base.
Contudo, existe aqui um importante aspecto: da carência física alguém pode não escapar – se não lhe dão água, a criança morrerá e ponto final; porém, ultrapassada uma circunstância de carência física, isto é, se a criança vinga, ela tem a possibilidade de procurar por seus próprios meios um campo emocionalmente mais adequado ao seu desenvolvimento e se reorganizar em novas e mais férteis bases.
Vamos, porém, retomar o tema da inadequação à vida que os pequenos seres humanos apresentam no início da vida. Também logo no início da vida de todos nós, podemos perceber um aspecto que contradiz tal incompletude. Este aspecto aparece íntegro e poderoso como uma aspiração natural, um desejo - de fato mais que um desejo –, uma necessidade: existir. Todos aspiramos existir, reclamamos, exigimos este direito; e não reclamamos uma existência qualquer, e sim uma existência única, singular, que contenha “a particularidade que você sente que é você”, sem a qual não se pode “entender a vida humana”, uma circunstância especial, natural, portanto legítima, e que “não pode ser omitida”, como diz James Hillmann.
Um ser que possui uma “potência de agir” que constitui sua própria essência e, dessa essência, emerge uma força que lhe permite realizar o esforço para perseverar em ser, ser quem é. Quem diz isso é Marilena Chauí que usa o verbo “perseverar” inspirada em Espinosa: “... nenhum (ser) tem em si algo que possa ser destruído, ou seja, que suprima sua existência, mas, ao contrário, opõe-se a tudo quanto possa suprimir-lhe a existência e por isso esforça-se para perseverar no ser tanto quanto puder e está em si podê-lo”.
Contudo, ao perseverarmos no ser, em ser quem somos, logo nos damos conta de que apenas somos com o outro, precisamos do outro – o outro humano (aquele que faz a mater-paternagem) e também o outro não humano (moléculas de oxigênio, hidrogênio, todos os gases, sódio, potássio, batatas e feijões, porcos e peixes, insetos e vírus, etc e etc). Rapidamente, ainda dentro do útero, descobrimos que não adianta apenas a força essencial e misteriosa que nos move a ser, precisamos também do outro, descobrimos que não temos autonomia absoluta.
E então, um medo toma forma: e se o outro não nos aceita? E apenas o outro humano pode não nos aceitar, pois os não humanos, com grande naturalidade, aceitam aqueles que se organizam ao seu redor. A resposta a tal pergunta é simples: se o outro não nos aceita, morremos, não conseguimos ser.
Na lógica mais imediatista, assustada, tomada pelo pânico de não ser respondido em seu anseio mais primitivo, o ser perde seu centro e tenta acalmar-se negando o medo. Cria uma ilusão, a ilusão de uma possível independência ou de uma dependência absolutas. De um jeito ou outro, separa-se da Natureza, constrói ou uma ilusória autonomia ou uma ilusória simbiose.
Deste modo, nega a Natureza que se organiza exatamente na interrelação, na troca; negando a essência da Natureza, afasta-se da possível – e verdadeira – autonomia que se funda na liberdade de ser e interagir com o outro, por sua vez, também livre para ser. Nega, assim, a liberdade de ser, passa a ser quem não é, passa a não-ser, perde “afetos, idéias, ações” próprias.
Com a liberdade perdida, perde-se o instrumento com o qual nos incluímos na Natureza, perdemos nosso lugar no infinito do qual somos parte, perdemos nossa possibilidade de participação “conforme a necessidade (real) de nossa própria natureza”. Contribuímos com tal qualidade para a organização da rede da vida. Colaboramos, portanto, na construção de um desajuste, de uma desarmonia da ”substância infinitamente complexa cuja atividade livre, necessária, infinita e imanente constitui a Natureza...”.
De todos os seres que conhecemos somos os únicos que podem escolher esse caminho, pois podemos, à medida que vamos nos fazendo adultos, escolher entre as inúmeras formas de agir em um leque de possibilidades que nenhum outro ser no planeta possui.
Entre essas possibilidades existe a mais radical de todas: podemos, efetivamente, negar quem somos. Contudo, feita tal escolha, pagaremos – já estamos pagando – um trágico preço.
Entretanto, se manifestamos nosso verdadeiro valor não vamos pagar preço algum; vamos, de fato, simplesmente trocar, trocar valores, oferecendo e recebendo qualidades próprias. Essas qualidades são o que, de fato, temos a oferecer; e o que temos a oferecer senão quem somos, nossas naturezas essenciais, singulares, pessoais. Essa natureza essencial poderia muito bem ser chamada de amor-próprio; o misterioso aspecto de nosso ser que – vivido, manifesto – nos faz sentir ativos e livres – ativos porque livres, livres porque ativos –, ativos por inteiro.
Esta livre atividade é justamente aquela “conquistada quando somos a causa mais adequada de nossa existência”; isto é, “quando em nós ou fora de nós se produz algo de que somos causa determinante apenas por nossa própria natureza”. Uma atividade conquistada através da liberdade de ser.
E a liberdade, meus amigos, é fruto do amor recebido. Quanto menos amor uma criança receber menos ela se sentirá livre para se expressar de acordo com o que pede sua natureza. Uma relação direta se estabelece: mais amor mais liberdade de ser; menos amor... E a ela se segue: mais liberdade mais amor, menos liberdade... Uma bela roda-viva.
Como disse Hélio Pellegrino, “uma criança, jogada no mundo com o nascimento, (...) é como um náufrago, num mar proceloso, (agitado), se aferrará à sua taboa de salvação na proporção direta do tamanho das ondas que a ameaçam”.
Com medo, insegura, ela esquece-se de si mesma – praticamente não tem alternativa – e adota a postura que lhe parece salvadora: faz o que for preciso para manter o vínculo com o campo que lhe dá sustentação, faz o que for preciso para manter seu anseio vital e existir, simplesmente existir. Com medo de não ter a chance de existir, renega seu amor-próprio, esquece-se de si mesma.
Por isso, podemos ver, a polaridade do medo é o amor. Se oferecermos amor, a criança terá menos medo de se manifestar de acordo com sua natureza; com mais facilidade manifestará seu amor-próprio e o oferecerá ao outro, ao mundo. E menos terá necessidade de buscar campos mais propícios ao seu desabrochar, ao seu desenvolvimento.
E, sempre bom lembrar, dado que o corpo social é construído pelos corpos individuais, assim também será construída uma sociedade não corrompida, não iludida, com menos – quiçá nenhuma – separação entre alma e corpo, centro e periferia, ser e ter, uma sociedade não suicida.
O mês de maio no Projeto de Gente marcou a organização de vários passos no sentido de aproximar o subjetivo e o objetivo, a alma (conceitos, filosofia, etc) e o corpo (móveis, limpeza, planilha de contas, etc).
Desde o início do mês foram implementadas as propostas discutidas em abril: o Nitão, velho amigo do Projeto, passou a fazer a manutenção da casinha, Silvia a limpeza, duas vezes por semana, e a Renata organiza a planilha de custos (ver em http://www.projetodegente.org.br/). Após alguns dias de trabalho o Nitão foi convidado a realizar um trabalho importante e, em seu lugar, entrou o Bernardo, companheiro da Sílvia.
Em 05 de maio, foi sugerido, na Roda, que duas pessoas ficassem responsáveis por uma melhor organização do material utilizado no cotidiano de atividades. Assim, ficou combinado que cada um que pegasse material na estante – caneta, lápis de cor, giz de cera, guache (que, aliás, está acabando), etc – deveria comunicar aos organizadores do dia; do mesmo modo, quando acabassem de utilizar este material guardariam e comunicariam aos dois companheiros. A experiência tem sido muito boa: mais organização, menos perda de material. Aliás, no mês de abril, duas crianças haviam sugerido que alguns se tornassem auxiliares dos educadores. Pois bem, esta foi a maneira, natural, pela qual a proposta se efetivou.
Durante o mês de maio construímos – Nitão e Seu Antônio – cinco banquinhos e três mesas (uma para a sala de oficinas e duas, apoiadas em cavaletes, móveis). Em uma mesa houve a interessante ajuda de um dos meninos do Projeto que deu boas idéias no projeto da mesa. Os banquinhos e uma mesa já foram – e as outras duas mesas serão – pintadas por todas as crianças que quiserem participar desta atividade.
O Seu Antônio merece um parágrafo: ele faz trabalhos de carpintaria para a Renata e, um dia, passando pelo Projeto para falar com ela, ficou um pouco por ali observando o movimento. Depois nos procurou para dizer que gostaria de oferecer algumas horas de trabalho para as crianças. Já fez uma gangorra, vai fazer bancos na parte externa, ajudar na construção da porta do forno e se empolgou com a possibilidade de fazer a casa na árvore. Mais um belo e generoso colaborador.
Agora, vamos falar de festa: o Projeto de Gente foi homenageado na festa de aniversário da Esther, esposa do Hans, proprietários da Pousada É. Nesta comemoração foi realizado um bingo e os recursos advindos da venda de cartelas foram doados a um orfanato no Prado e ao Projeto. Recebemos R$295,00. Nossos agradecimentos à Esther e ao Hans.
Ainda falando em festa: foi organizada uma em benefício do Projeto no dia 16 de maio. Era a festa de aniversário do Herbert e da Nei – parabéns e muito obrigado aos dois -, entusiastas do Projeto de Gente. O Herbert e seus amigos já haviam nos comovido com a doação de R$1000,00, agora o Herbert ofereceu R$500,00 para a preparação desta festa. Para que ela acontecesse toda a equipe se mobilizou, além de outras pessoas: Paulinho e Giorgio trabalharam no cartaz, Dolores preparou os caldos – deliciosos caldos de feijão e de legumes –, Lúcia trabalhou no bar, Renata e Ângela trabalharam em todas as frentes. Espalhamos cartazes como este:
A oficina do Caio Frederico foi um completo sucesso. Nos dias seguintes muita gente comentava sobre os coloridos malabares que as crianças trataram de espalhar pela cidade. Na própria festa, à noite, várias delas – que nunca haviam tido contato com esta arte – participaram de um número com o Caio. Compenetrados e concentrados foram muito aplaudidos. Uma beleza! Todos nós do Projeto de Gente queremos agradecer muitíssimo ao Caio Frederico que, com muito cuidado e atenção, organizou e orientou trinta crianças nas areias em frente à Barraca do Reginaldo (também nosso muito obrigadíssimo a ele!) na tarde do dia 16. Aliás, a festa do verão 2008 iria acontecer na Zona Livre; não foi por pouco, muito pouco; era para ser agora.
O espetáculo de MPB realizado pela Silvana, Rico, Gade e Sérgio teve o brilho a que já estamos acostumados... Mentira! Nunca nos acostumaremos com a arte desses caras, sempre estaremos querendo mais e mais e mais...! Obrigado, queridos artistas!
A Renata Homem e a Silvana – além de trabalharem para a festa – doaram objetos de arte para serem rifados.
E o Forroxatiba? Como sempre atraiu dezenas de forrozeiros que mergulharam pela madrugada à dentro... Muito obrigado a todos os dedicados músicos do Forroxatiba – várias vezes vemos, passando na porta da casinha do Projeto, estes músicos carregando seus instrumentos para os ensaios!
Também queremos agradecer ao Régis, da Barraca Brisa Mar, que cedeu mesas e cadeiras. Régis, obrigado pelas mesas e pelo exemplo de desprendimento e espírito solidário. Galego, obrigado prôcê também, grande amigo!
Depois da festa, o Ioane e o Vinícius se incumbiram de vender as latinhas de cerveja e refrigerantes para reciclagem. Boa iniciativa!
Arrecadamos o total de R$299,00 com a venda de bebidas, caldinhos e rifas (ver planilha em http://www.projetodegente.org.br/).
Ainda em relação às atividades do Projeto. A Ana Paula, professora da Escola Algeziro Moura, iniciou uma oficina de leitura. Foi importante porque estamos exatamente sentindo falta de novas atividades e as crianças têm se interessado – algumas, claro – por leitura. Estas tais estão sempre pedindo livros e revistas para levar para casa ao fim do dia e trazer assim que terminam de ler. Estamos com alguns livros e gibis e a biblioteca está se organizando naturalmente sem regras predeterminadas: ninguém assina nada e nada tem se perdido. Livros infanto-juvenis serão sempre bem vindos, muito bem vindos.
Por falar em uma escola de Cumuru nos lembramos de outra: a Tiradentes. Aqui vai nosso agradecimento à Letícia, diretora da Escola Tiradentes, pelas carinhosas palavras no dia da festa de 16 de maio. Em sua fala a Letícia demonstrou uma bela compreensão dos propósitos do Projeto de gente e sua possibilidade de trabalhar junto à escola. Foi na Tiradentes que, este mês, uma menina que freqüenta o Projeto declamou uma poesia numa apresentação e dedicou ao Projeto de Gente.
A Renata começou uma oficina de construção (estréia da sala de oficinas) de mamulengos – os tradicionais bonecos a serem manipulados por “mãos molengas” – e, além dessa, fez uma oficina de bijuterias. Todo o material para estas oficinas foi doado pela própria artista.
Estamos preparando uma festa para a inauguração oficial do forno do Juan com apresentação de mamulengos, uma peça de teatro encenada pelo Sol e pelo Ioane e, claro, bolos, biscoitos e pizzas feitos no forno. A festa está programada para o dia 15 de maio, domingo, a partir das 13 h. Aliás, esta festa tem o propósito, além de homenagear o Juan, de criar a possibilidade de aproximar os responsáveis pelas crianças ao pessoal do Projeto de Gente. Este ainda é um aspecto a ser perseverantemente trabalhado.
Também é necessário perseverança na estruturação da Roda. Ainda se alternam momentos confusos com outros em que boas discussões são realizadas. Parece que as crianças ainda não estão acostumadas com um espaço de definições e decisões no qual elas são também protagonistas. Alguns estão se dando conta disso e comentando na própria Roda.
Um momento importante da Roda este mês foi quando discutimos o desaparecimento de uma barra de chocolate da bolsa da Renata. Foi levantado o tema da desconfiança e da confiança; o que, que tipo de sociedade, construímos com uma ou com outra destas qualidades. Conversamos sobre como a desconfiança desconstrói e, ao contrário, como a confiança cria bases construtivas para as relações. Volta e meia o assunto ainda vem à baila; porém, em nenhum momento, há o interesse em saber quem foi a pessoa que fez a triste mágica, pois preferimos discutir o conteúdo da questão do que descobrir culpados para punir.
Ontem, 26 de maio, foi realizada a poda do cajueiro que estava ameaçando o telhado da casinha. O Bernardo fez este trabalho.
Ah! O Projeto de Gente recebeu uma bela doação: um computador. A máquina – semi-nova - foi doada pelo Dr. Ricardo e pela Deleni, médico e enfermeira do Posto de Saúde de Cumuruxatiba.
Também belas e fundamentais foram as doações de R$20,00 feita pela Gili – para todos nós uma alegria –, o frete das estacas pago pela Ângela – do que adiantariam as estacas se não pudéssemos levá-las até a casinha do Projeto – e, por último, mas não menos importantes, as doações do cabideiro e do porta-copos feitas por Renata Homem.
O mês de maio caminha para seu fim e estamos com a possibilidade de trocar as estacas que seguram a caixa d’água no dia 31 (sábado).
Nos encontramos novamente em fins de junho,
Até lá
ABAIXO A PRESTAÇÃO DE CONTAS DO MES DE MAIO DE 2008
De todo modo, o “mês das mães” fez lembrar o que David Boadella – um importante psicólogo – propôs a seu editor certa vez: uma pequena alteração em todos os seus livros já publicados. A tal alteração foi a substituição das palavras pai e mãe pela expressão mater-paternagem. Foi assim que nos chegou esta informação; e ela faz sentido, pois Boadella nos mostra em suas pesquisas que o campo de sustentação de uma criança não precisa ser necessariamente o pai ou a mãe. Muitas vezes esse papel é exercido por um parente – uma avó, avô, padrinho, madrinha - ou uma instituição – um orfanato, um estabelecimento do estado - ou mesmo uma pessoa, até então, desconhecida.
Naturalmente o campo mais comum é, de fato, a família parental; entretanto, a qualidade de sustentação pode ser melhor ou pior em qualquer hipótese. O que é certo é que todos nós que estamos vivos, de um jeito ou outro, fomos acolhidos. Alguém, mesmo com muita má vontade, cuidou para que não morrêssemos de fome, sede, frio ou calor exagerado, pois sabemos que o ser humano é um dos animais que mais precisam de cuidados na infância, alas, uma longa infância. Nascemos precoces, antes do tempo, incompletos – faltam enzimas para a digestão, nossos ossos ainda não estão todos no lugar, as células nervosas ainda não estão recobertas por sua bainha protetora -, somos seres marsupiais sem bolsa extra-uterina que nos aconchegue. Mas precisamos de muito aconchego.
Outro dia, um educador do Projeto de Gente, conversando com dois irmãos cujo pai morreu há alguns anos, perguntou sobre se o padrasto dos meninos era uma pessoa legal e, antes de receber a resposta à sua pergunta, ouviu um “Todo mundo pergunta isso!”. O educador havia caído na velha armadilha de imaginar que o padrasto – ou, talvez ainda mais, a madrasta – podia não ser um bom campo de sustentabilidade para a vida de uma criança; como se pais e mães sempre fossem o melhor desses campos. Vale dizer que a resposta foi: “Ele é um cara muito legal!” Dias depois, esse educador soube que o pai era, efetivamente, um homem muito carinhoso e cuidadoso com os filhos;... assim como o padrasto.
A isca para a tal armadilha foi – e é – o enraizado sentimento de que é absolutamente necessário um campo de sustentação minimamente propício à organização da vida. Nunca é demais lembrar que esta mínima condição inclui, embora freqüentemente subestimada, as circunstâncias mais sutis, porém também indispensáveis, tais como: carinho, aceitação, amor, enfim. Dizemos que nunca é demais lembrar porque a falta de cuidado físico – alimento, por exemplo – parece ser considerada mais importante do que uma eventual necessidade emocional, como se uma pessoa pudesse sobreviver à falta de amor, mas não à falta de alimento ou de água; entretanto, as marcas desta carência existem e vão se manifestar em campos também sutis da estrutura vital da pessoa. Ela construirá seu corpo, sua saúde, sua doença, sua vida apoiada nesse campo. Claro que também não podemos esquecer que a estrutura relacional – social – que ela irá propor aos que a rodeiam terá a mesma base.
Contudo, existe aqui um importante aspecto: da carência física alguém pode não escapar – se não lhe dão água, a criança morrerá e ponto final; porém, ultrapassada uma circunstância de carência física, isto é, se a criança vinga, ela tem a possibilidade de procurar por seus próprios meios um campo emocionalmente mais adequado ao seu desenvolvimento e se reorganizar em novas e mais férteis bases.
Vamos, porém, retomar o tema da inadequação à vida que os pequenos seres humanos apresentam no início da vida. Também logo no início da vida de todos nós, podemos perceber um aspecto que contradiz tal incompletude. Este aspecto aparece íntegro e poderoso como uma aspiração natural, um desejo - de fato mais que um desejo –, uma necessidade: existir. Todos aspiramos existir, reclamamos, exigimos este direito; e não reclamamos uma existência qualquer, e sim uma existência única, singular, que contenha “a particularidade que você sente que é você”, sem a qual não se pode “entender a vida humana”, uma circunstância especial, natural, portanto legítima, e que “não pode ser omitida”, como diz James Hillmann.
Um ser que possui uma “potência de agir” que constitui sua própria essência e, dessa essência, emerge uma força que lhe permite realizar o esforço para perseverar em ser, ser quem é. Quem diz isso é Marilena Chauí que usa o verbo “perseverar” inspirada em Espinosa: “... nenhum (ser) tem em si algo que possa ser destruído, ou seja, que suprima sua existência, mas, ao contrário, opõe-se a tudo quanto possa suprimir-lhe a existência e por isso esforça-se para perseverar no ser tanto quanto puder e está em si podê-lo”.
Contudo, ao perseverarmos no ser, em ser quem somos, logo nos damos conta de que apenas somos com o outro, precisamos do outro – o outro humano (aquele que faz a mater-paternagem) e também o outro não humano (moléculas de oxigênio, hidrogênio, todos os gases, sódio, potássio, batatas e feijões, porcos e peixes, insetos e vírus, etc e etc). Rapidamente, ainda dentro do útero, descobrimos que não adianta apenas a força essencial e misteriosa que nos move a ser, precisamos também do outro, descobrimos que não temos autonomia absoluta.
E então, um medo toma forma: e se o outro não nos aceita? E apenas o outro humano pode não nos aceitar, pois os não humanos, com grande naturalidade, aceitam aqueles que se organizam ao seu redor. A resposta a tal pergunta é simples: se o outro não nos aceita, morremos, não conseguimos ser.
Na lógica mais imediatista, assustada, tomada pelo pânico de não ser respondido em seu anseio mais primitivo, o ser perde seu centro e tenta acalmar-se negando o medo. Cria uma ilusão, a ilusão de uma possível independência ou de uma dependência absolutas. De um jeito ou outro, separa-se da Natureza, constrói ou uma ilusória autonomia ou uma ilusória simbiose.
Deste modo, nega a Natureza que se organiza exatamente na interrelação, na troca; negando a essência da Natureza, afasta-se da possível – e verdadeira – autonomia que se funda na liberdade de ser e interagir com o outro, por sua vez, também livre para ser. Nega, assim, a liberdade de ser, passa a ser quem não é, passa a não-ser, perde “afetos, idéias, ações” próprias.
Com a liberdade perdida, perde-se o instrumento com o qual nos incluímos na Natureza, perdemos nosso lugar no infinito do qual somos parte, perdemos nossa possibilidade de participação “conforme a necessidade (real) de nossa própria natureza”. Contribuímos com tal qualidade para a organização da rede da vida. Colaboramos, portanto, na construção de um desajuste, de uma desarmonia da ”substância infinitamente complexa cuja atividade livre, necessária, infinita e imanente constitui a Natureza...”.
De todos os seres que conhecemos somos os únicos que podem escolher esse caminho, pois podemos, à medida que vamos nos fazendo adultos, escolher entre as inúmeras formas de agir em um leque de possibilidades que nenhum outro ser no planeta possui.
Entre essas possibilidades existe a mais radical de todas: podemos, efetivamente, negar quem somos. Contudo, feita tal escolha, pagaremos – já estamos pagando – um trágico preço.
Entretanto, se manifestamos nosso verdadeiro valor não vamos pagar preço algum; vamos, de fato, simplesmente trocar, trocar valores, oferecendo e recebendo qualidades próprias. Essas qualidades são o que, de fato, temos a oferecer; e o que temos a oferecer senão quem somos, nossas naturezas essenciais, singulares, pessoais. Essa natureza essencial poderia muito bem ser chamada de amor-próprio; o misterioso aspecto de nosso ser que – vivido, manifesto – nos faz sentir ativos e livres – ativos porque livres, livres porque ativos –, ativos por inteiro.
Esta livre atividade é justamente aquela “conquistada quando somos a causa mais adequada de nossa existência”; isto é, “quando em nós ou fora de nós se produz algo de que somos causa determinante apenas por nossa própria natureza”. Uma atividade conquistada através da liberdade de ser.
E a liberdade, meus amigos, é fruto do amor recebido. Quanto menos amor uma criança receber menos ela se sentirá livre para se expressar de acordo com o que pede sua natureza. Uma relação direta se estabelece: mais amor mais liberdade de ser; menos amor... E a ela se segue: mais liberdade mais amor, menos liberdade... Uma bela roda-viva.
Como disse Hélio Pellegrino, “uma criança, jogada no mundo com o nascimento, (...) é como um náufrago, num mar proceloso, (agitado), se aferrará à sua taboa de salvação na proporção direta do tamanho das ondas que a ameaçam”.
Com medo, insegura, ela esquece-se de si mesma – praticamente não tem alternativa – e adota a postura que lhe parece salvadora: faz o que for preciso para manter o vínculo com o campo que lhe dá sustentação, faz o que for preciso para manter seu anseio vital e existir, simplesmente existir. Com medo de não ter a chance de existir, renega seu amor-próprio, esquece-se de si mesma.
Por isso, podemos ver, a polaridade do medo é o amor. Se oferecermos amor, a criança terá menos medo de se manifestar de acordo com sua natureza; com mais facilidade manifestará seu amor-próprio e o oferecerá ao outro, ao mundo. E menos terá necessidade de buscar campos mais propícios ao seu desabrochar, ao seu desenvolvimento.
E, sempre bom lembrar, dado que o corpo social é construído pelos corpos individuais, assim também será construída uma sociedade não corrompida, não iludida, com menos – quiçá nenhuma – separação entre alma e corpo, centro e periferia, ser e ter, uma sociedade não suicida.
O mês de maio no Projeto de Gente marcou a organização de vários passos no sentido de aproximar o subjetivo e o objetivo, a alma (conceitos, filosofia, etc) e o corpo (móveis, limpeza, planilha de contas, etc).
Desde o início do mês foram implementadas as propostas discutidas em abril: o Nitão, velho amigo do Projeto, passou a fazer a manutenção da casinha, Silvia a limpeza, duas vezes por semana, e a Renata organiza a planilha de custos (ver em http://www.projetodegente.org.br/). Após alguns dias de trabalho o Nitão foi convidado a realizar um trabalho importante e, em seu lugar, entrou o Bernardo, companheiro da Sílvia.
Em 05 de maio, foi sugerido, na Roda, que duas pessoas ficassem responsáveis por uma melhor organização do material utilizado no cotidiano de atividades. Assim, ficou combinado que cada um que pegasse material na estante – caneta, lápis de cor, giz de cera, guache (que, aliás, está acabando), etc – deveria comunicar aos organizadores do dia; do mesmo modo, quando acabassem de utilizar este material guardariam e comunicariam aos dois companheiros. A experiência tem sido muito boa: mais organização, menos perda de material. Aliás, no mês de abril, duas crianças haviam sugerido que alguns se tornassem auxiliares dos educadores. Pois bem, esta foi a maneira, natural, pela qual a proposta se efetivou.
Durante o mês de maio construímos – Nitão e Seu Antônio – cinco banquinhos e três mesas (uma para a sala de oficinas e duas, apoiadas em cavaletes, móveis). Em uma mesa houve a interessante ajuda de um dos meninos do Projeto que deu boas idéias no projeto da mesa. Os banquinhos e uma mesa já foram – e as outras duas mesas serão – pintadas por todas as crianças que quiserem participar desta atividade.
O Seu Antônio merece um parágrafo: ele faz trabalhos de carpintaria para a Renata e, um dia, passando pelo Projeto para falar com ela, ficou um pouco por ali observando o movimento. Depois nos procurou para dizer que gostaria de oferecer algumas horas de trabalho para as crianças. Já fez uma gangorra, vai fazer bancos na parte externa, ajudar na construção da porta do forno e se empolgou com a possibilidade de fazer a casa na árvore. Mais um belo e generoso colaborador.
Agora, vamos falar de festa: o Projeto de Gente foi homenageado na festa de aniversário da Esther, esposa do Hans, proprietários da Pousada É. Nesta comemoração foi realizado um bingo e os recursos advindos da venda de cartelas foram doados a um orfanato no Prado e ao Projeto. Recebemos R$295,00. Nossos agradecimentos à Esther e ao Hans.
Ainda falando em festa: foi organizada uma em benefício do Projeto no dia 16 de maio. Era a festa de aniversário do Herbert e da Nei – parabéns e muito obrigado aos dois -, entusiastas do Projeto de Gente. O Herbert e seus amigos já haviam nos comovido com a doação de R$1000,00, agora o Herbert ofereceu R$500,00 para a preparação desta festa. Para que ela acontecesse toda a equipe se mobilizou, além de outras pessoas: Paulinho e Giorgio trabalharam no cartaz, Dolores preparou os caldos – deliciosos caldos de feijão e de legumes –, Lúcia trabalhou no bar, Renata e Ângela trabalharam em todas as frentes. Espalhamos cartazes como este:
F E S T A
16 de maio de 2008
Na Barraca Zona Livre
a do Reginaldo
A festa começa cedo e termina tarde...
14:00h Oficina circense com o artista Caio Frederico
14:00h Oficina circense com o artista Caio Frederico
M a l a b a r e s e...
Inscrições no Projeto de Gente (Morro do Canta Galo)
dias 12, 13 e 14 (2ª, 3ª e 4ª), de 13 às 15h
Vagas: 3a Idade: a partir dos 10 anos
20:00h Apresentação circense com o Caio Frederico
22:00h MPB ao vivo com artistas da terra
E depois o Forroxatiba
A renda deste evento será destinada ao Projeto de Gente
A renda deste evento será destinada ao Projeto de Gente
A oficina do Caio Frederico foi um completo sucesso. Nos dias seguintes muita gente comentava sobre os coloridos malabares que as crianças trataram de espalhar pela cidade. Na própria festa, à noite, várias delas – que nunca haviam tido contato com esta arte – participaram de um número com o Caio. Compenetrados e concentrados foram muito aplaudidos. Uma beleza! Todos nós do Projeto de Gente queremos agradecer muitíssimo ao Caio Frederico que, com muito cuidado e atenção, organizou e orientou trinta crianças nas areias em frente à Barraca do Reginaldo (também nosso muito obrigadíssimo a ele!) na tarde do dia 16. Aliás, a festa do verão 2008 iria acontecer na Zona Livre; não foi por pouco, muito pouco; era para ser agora.
O espetáculo de MPB realizado pela Silvana, Rico, Gade e Sérgio teve o brilho a que já estamos acostumados... Mentira! Nunca nos acostumaremos com a arte desses caras, sempre estaremos querendo mais e mais e mais...! Obrigado, queridos artistas!
A Renata Homem e a Silvana – além de trabalharem para a festa – doaram objetos de arte para serem rifados.
E o Forroxatiba? Como sempre atraiu dezenas de forrozeiros que mergulharam pela madrugada à dentro... Muito obrigado a todos os dedicados músicos do Forroxatiba – várias vezes vemos, passando na porta da casinha do Projeto, estes músicos carregando seus instrumentos para os ensaios!
Também queremos agradecer ao Régis, da Barraca Brisa Mar, que cedeu mesas e cadeiras. Régis, obrigado pelas mesas e pelo exemplo de desprendimento e espírito solidário. Galego, obrigado prôcê também, grande amigo!
Depois da festa, o Ioane e o Vinícius se incumbiram de vender as latinhas de cerveja e refrigerantes para reciclagem. Boa iniciativa!
Arrecadamos o total de R$299,00 com a venda de bebidas, caldinhos e rifas (ver planilha em http://www.projetodegente.org.br/).
Ainda em relação às atividades do Projeto. A Ana Paula, professora da Escola Algeziro Moura, iniciou uma oficina de leitura. Foi importante porque estamos exatamente sentindo falta de novas atividades e as crianças têm se interessado – algumas, claro – por leitura. Estas tais estão sempre pedindo livros e revistas para levar para casa ao fim do dia e trazer assim que terminam de ler. Estamos com alguns livros e gibis e a biblioteca está se organizando naturalmente sem regras predeterminadas: ninguém assina nada e nada tem se perdido. Livros infanto-juvenis serão sempre bem vindos, muito bem vindos.
Por falar em uma escola de Cumuru nos lembramos de outra: a Tiradentes. Aqui vai nosso agradecimento à Letícia, diretora da Escola Tiradentes, pelas carinhosas palavras no dia da festa de 16 de maio. Em sua fala a Letícia demonstrou uma bela compreensão dos propósitos do Projeto de gente e sua possibilidade de trabalhar junto à escola. Foi na Tiradentes que, este mês, uma menina que freqüenta o Projeto declamou uma poesia numa apresentação e dedicou ao Projeto de Gente.
A Renata começou uma oficina de construção (estréia da sala de oficinas) de mamulengos – os tradicionais bonecos a serem manipulados por “mãos molengas” – e, além dessa, fez uma oficina de bijuterias. Todo o material para estas oficinas foi doado pela própria artista.
Estamos preparando uma festa para a inauguração oficial do forno do Juan com apresentação de mamulengos, uma peça de teatro encenada pelo Sol e pelo Ioane e, claro, bolos, biscoitos e pizzas feitos no forno. A festa está programada para o dia 15 de maio, domingo, a partir das 13 h. Aliás, esta festa tem o propósito, além de homenagear o Juan, de criar a possibilidade de aproximar os responsáveis pelas crianças ao pessoal do Projeto de Gente. Este ainda é um aspecto a ser perseverantemente trabalhado.
Também é necessário perseverança na estruturação da Roda. Ainda se alternam momentos confusos com outros em que boas discussões são realizadas. Parece que as crianças ainda não estão acostumadas com um espaço de definições e decisões no qual elas são também protagonistas. Alguns estão se dando conta disso e comentando na própria Roda.
Um momento importante da Roda este mês foi quando discutimos o desaparecimento de uma barra de chocolate da bolsa da Renata. Foi levantado o tema da desconfiança e da confiança; o que, que tipo de sociedade, construímos com uma ou com outra destas qualidades. Conversamos sobre como a desconfiança desconstrói e, ao contrário, como a confiança cria bases construtivas para as relações. Volta e meia o assunto ainda vem à baila; porém, em nenhum momento, há o interesse em saber quem foi a pessoa que fez a triste mágica, pois preferimos discutir o conteúdo da questão do que descobrir culpados para punir.
Ontem, 26 de maio, foi realizada a poda do cajueiro que estava ameaçando o telhado da casinha. O Bernardo fez este trabalho.
Ah! O Projeto de Gente recebeu uma bela doação: um computador. A máquina – semi-nova - foi doada pelo Dr. Ricardo e pela Deleni, médico e enfermeira do Posto de Saúde de Cumuruxatiba.
Também belas e fundamentais foram as doações de R$20,00 feita pela Gili – para todos nós uma alegria –, o frete das estacas pago pela Ângela – do que adiantariam as estacas se não pudéssemos levá-las até a casinha do Projeto – e, por último, mas não menos importantes, as doações do cabideiro e do porta-copos feitas por Renata Homem.
O mês de maio caminha para seu fim e estamos com a possibilidade de trocar as estacas que seguram a caixa d’água no dia 31 (sábado).
Nos encontramos novamente em fins de junho,
Até lá
ABAIXO A PRESTAÇÃO DE CONTAS DO MES DE MAIO DE 2008
sábado, 3 de maio de 2008
ABRIL DE 2008
Abril. Mês no qual vivemos intensamente a mais sucinta seqüencia que reflete a vida: organização, desorganização, nova organização,... para que então, já sabemos, aconteça outra desorganização e reorganização e, a seguir... Assim caminha a vida e a humanidade; uma estrutura é organizada e será substituída por outra, se trabalharmos bem, mais complexa e harmoniosa.
No Projeto de Gente: novas crianças, novas combinações; vivência de 2007, aprendizado, reformulações.
Os primeiros dias de atividade foram ocupados com um levantamento do material ainda disponível – o material doado pelos donos da Papelaria Rainha de Fátima, do Rio de Janeiro. Também nestes dias fizemos Rodas para reafirmar e criar combinações. Percebemos grande agitação entre as crianças: muito “foi ele”, “foi ela”, “foi ele-ela que começou”, “não tava fazendo nada e ele-ela me atentou”... Por um lado, parecia que as crianças estavam, através de muita correria, gritaria e brincadeiras, cheias de energia, manifestando grande contentamento; por outro, eventualmente, essa energia expandia-se para além de um certo limite e o que era brincadeira transformava-se em atrito – por exemplo, o alegre “peguei” do pega-pega virava um empurrão, queda, choro e acusação.
Novamente sentimos a importância da presença de educadores em número suficiente para dar campo para que as crianças pudessem viver estes acontecimentos de modo diferente. Criar campo significa aproveitar a oportunidade e dar suporte para que as crianças percebam uma possibilidade que escape da tradicional reclamação/acusação/e espera da punição. Uma situação freqüentemente confusa também para o educador que já a encontra confusamente “organizada”.
Criar campo implica em ajudá-los a esclarecer - vale dizer, a viver - o que realmente aconteceu; assim, ao invés de se descambar para a tal confusão, as crianças terão a chance de agir de uma maneira mais verdadeira e não apenas reagir, mecanicamente, do modo ao qual estão (mal) acostumadas a sentir que se vai “resolver” a questão: acusando, vitimizando-se, irritando-se, enraivecendo-se, brigando, fugindo e etc e etc e etc... (Bom lembrar que adultos, muitas e muitas vezes, atuam da mesmíssima maneira!)
Por falar em organizações, logo na primeira semana, foi sugerido – na própria Roda - que a Roda fosse realizada em um ambiente mais propício á concentração. Até então ela acontecia no maior espaço da casinha (a cozinha), que é também a passagem natural do quintal para os ambientes interiores. O motivo desta proposta foi, exatamente, valorizar a Roda cotidiana da qual emanam as combinações estruturadoras do convívio. Ainda estamos em fase de concretizar a proposta; o que, mais uma vez, revela a imensa paciência que todos devem ter para que as transformações de fato aconteçam.
Entretanto, este ano pode-se perceber, em algumas crianças, uma postura mais firme em relação à importância da Roda, do valor das decisões tomadas de maneira democrática, à necessidade de se aceitar o combinado, a possibilidade de propor, em algum momento, a reformulação de uma regra, etc.
Dois meninos propuseram a formação de duplas de crianças que ajudariam os educadores no dia a dia do Projeto. Estamos conversando sobre a melhor maneira de se fazer isso para que não se corra o risco de se criar a figura de “fiscais”, crianças com “poderes” sobre outras.
Uma circunstância foi especialmente sentida: a sensibilidade das crianças em relação ao que eles chamam de “a vaia”. Essa denominação abrange as manifestações, quase sempre coletivas, que acontecem quando uma criança – mais raramente um adulto – fala algo considerado bobagem, errado, inadequado ou quando, mesmo num tom de brincadeira, sem agressividade, alguns acham que o outro foi escabreado – isto é, chamado a atenção. Nestes momentos costuma-se ouvir, não exatamente uma vaia: uh! uh! uh!, mas um comprido: “iiiiiiiiiiih!”, com as mãos colocadas sobre a boca como que para esconder quem está falando. A tradução do iiiiih é: “olha a bobagem!”, “olha o bobão!”, “vacilão!”; o fato é que todos que levam a vaia, mesmo os aparentemente mais seguros de si, se sentem sem graça, envergonhados, humilhados. Entretanto, parece ser muito difícil conter o impulso de vaiar o outro em algum momento; é como se fosse um vício, uma reação automática.
Uma reação parecida também pode ser percebida quando uma criança faz uma escolha, que, mais tarde quando conversamos, ela percebe que, de verdade, não a acha correta;... mas já fez, já apenas reagiu. De modo geral, parece ser uma prova de força, uma espécie de não querer “bancar o bobo” se agir diferente do esperado.
Outro dia, num pequeno grupo, conversávamos sobre como talvez seja preciso ter mais coragem para fazer o que realmente desejamos fazer do que fazer o que, de fato, não queremos para “não perder a reputação”, como disse um menino.
Este assunto nos levou a trazer, mais uma vez, para a Roda a importante questão sobre o que fazer quando uma combinação é sistemática e claramente descumprida. Uma situação que toca em dois pontos simultaneamente: um que diz respeito às conseqüências mais imediatas daquele ato, o segundo que nos leva a refletir sobre as motivações que levam a criança – ou o adulto – a descumprir o combinado.
A 1ª circunstância, com freqüência, toma uma dimensão aparentemente maior uma vez que a identificamos, imediata e facilmente, com os aspectos práticos e objetivos da vida. Parece que eles nos “tocam” com mais vigor; entretanto, a essência deste movimento, seu motor, está invisível, está no sentimento e na emoção que está por trás da construção do gesto humano; isto é, fazemos o que fazemos, escolhemos os caminhos que escolhemos movidos por uma sensibilidade interior e pessoal, porém, freqüentemente, esquecida e oculta – o 2º ponto.
Como lidar com esses aspectos simultaneamente? Como dar o limite que o corpo, o cotidiano, pede e como, ao mesmo tempo, contemplar o que está oculto para, então, ter a chance de mostrar a essa criança que ela pode, tem o direito, de ser respeitada nessa exata sensibilidade e que, por isso, pode fazer uma escolha diferente da que ela, um dia, aprendeu e lhe parece “garantir” a vida, a “reputação”? Uma atitude que ela tornou sistemática, repetitiva, mecânica, viciada.
Da Roda, das conversas, das trocas, dos afetos partilhados, certamente, vai surgir a resposta a essas perguntas.
A criança – e, que dirá, o adulto – que encontramos no Projeto de Gente já teve, infelizmente, tempo e motivações suficientes para esconder sua mais verdadeira sensibilidade, sua verdadeira identidade, em algum obscuro recanto.
Obviamente que nós, adultos, se desejamos oferecer um campo renovador para as crianças precisamos constantemente renovar o contato com nossa própria sensibilidade, não repetir os velhos padrões que construímos para, exatamente, esconder questões e medos, precisamos desconstruir estruturas do dia a dia com as quais já não concordamos, mas cuja demolição vai nos custar muito trabalho e sensações ameaçadoras.

Também em abril iniciou-se, no Projeto de Gente, o Projeto Xadrez – felizmente ligado à libertação e não à prisão. Paulo Mattos, o Paulinho, nosso novo educador, ofereceu duas tardes de aprendizado do velho jogo do xeque-mate – ou do “shrek-mate”, como disse um pequeno; também tem o espaço para o jogo de damas – neste caso, o Paulinho diz que está aqui para aprender. Boas palavras!
Nas tardes em volta dos tabuleiros muitas observações têm sido feitas: aquele ansioso, outro cauteloso ao extremo, aquele que quer sempre ganhar e, dissimulado, inventa desculpas, não arrisca jogar com outros que lhe perecem melhores, tem também o outro que conheceu o prazer de ensinar e não apenas ganhar. E, pelo menos uma vez, um menino se sentiu envolvido e encantado com a música que colocamos no ambiente do xadrez – o disco de uma saxofonista mineira, a Maria Bragança, - a ponto de pedir para ler o encarte do disco e uma cópia daquela música tão diferente da que ele está acostumado a ouvir.
Nas reuniões entre os educadores – que têm acontecido às quintas-feiras – foi levantada a necessidade de melhor organizar um demonstrativo financeiro do Projeto de Gente. Após a realização da festa de 09 de janeiro que, entre outros propósitos, também visava a obtenção de recursos financeiros percebemos a necessidade e tomamos as seguintes decisões: (1) criar a função de administrador financeiro que será responsável pela organização de uma planilha de custos mensal a ser publicada no blog do Projeto; (2) definir um pró-labore para o coordenador do Projeto.
Nos Diários de jan/fev foi mencionado o valor arrecadado na festa, porém, por falta de agilidade, não foram publicados em tempo hábil. Assim, reafirmamos que, na festa do verão de 2008, (1) foram arrecadados R$ 550,00 com a venda de camisetas e botons, (2) não foi auferido nenhum ganho sobre a venda de comida e bebida na Barraca Portobelo e (3) houve a doação de R$1000,00 pelo Herbert e amigos.
Após a festa um contato foi estabelecido e, a partir daí, sinalizada uma possibilidade de apoio financeiro de maior monta ao Projeto de Gente. Duas reuniões – em 11 e 13 de janeiro - foram realizadas com este possível investidor que solicitou a elaboração de um documento oficial da Associação Projeto de Gente para dar seguimento à esta possibilidade.
No dia 11 de janeiro reunimos, na casinha do Projeto, um grupo de crianças para a avaliação da festa. Compareceu, principalmente, o grupo mais envolvido em sua realização. Neste dia foi apresentada, ainda com a letra das crianças que haviam realizado este trabalho – com supervisão de um educador –, a prestação de contas da venda dos objetos durante a festa.
Muitas possibilidades eram aventadas para o destino desses recursos: pintura da casinha, construção de mesas e de uma placa a ser colocada na frente da casa, reforma da caixa d’água, como também há meses vinha se afirmando a necessidade de ida ao Rio de Janeiro do coordenador do Projeto – motivado tanto por necessidades ligadas ao Projeto de Gente quanto outras, pessoais. Esta última necessidade ganhou força, principalmente por conta do tal contato com o empresário de Brasília.
A ida do coordenador se deu em 16 de janeiro e lá foram realizadas várias e importantes (inclusive com reformulações operacionais) reuniões com a Associação Projeto de Gente, foi elaborado o documento já referido, foi também organizada uma reunião mais ampla com o objetivo de aumentar o número de associados e foram realizados encontros com o grupo de São Paulo ligado à Educação Democrática. Cabe esclarecer que foram duas idas a São Paulo; uma para encontros com Helena Singer, das Escolas Democráticas e com Luiz Claudio Barreto, diretor da Escola Lumiar (referidas nos Diários de jan/fev); outra viagem a São Paulo, de caráter pessoal, não foi custeada por recursos da Associação ou oriundos da festa do verão e, mesmo nessa segunda viagem, existiram reuniões de trabalho com educadores democráticos.
Infelizmente, por problemas de saúde o coordenador precisou ficar cerca de 15 dias a mais do que o pretendido; o retorno a Cumuruxatiba se deu em 15 de março.
Muita coisa se falou e se ouviu nos últimos dias e a equipe do Projeto de Gente agradece, profundamente, aqueles que, apontando falhas e sugerindo alternativas, contribuem para o desenvolvimento do trabalho e também deseja deixar claro que tem consciência da precariedade de suas condições e está trabalhando diariamente no sentido de, passo a passo, ultrapassar tais circunstâncias. Enquanto isso, usa essa mesma precariedade para gerar nas crianças a possibilidade de perceberem a força e a necessidade da união das diferentes habilidades – vale dizer, individuações – para que a vida se organize de modo sempre mais criativo e harmônico.
Um grande abraço e até maio...
No Projeto de Gente: novas crianças, novas combinações; vivência de 2007, aprendizado, reformulações.
Os primeiros dias de atividade foram ocupados com um levantamento do material ainda disponível – o material doado pelos donos da Papelaria Rainha de Fátima, do Rio de Janeiro. Também nestes dias fizemos Rodas para reafirmar e criar combinações. Percebemos grande agitação entre as crianças: muito “foi ele”, “foi ela”, “foi ele-ela que começou”, “não tava fazendo nada e ele-ela me atentou”... Por um lado, parecia que as crianças estavam, através de muita correria, gritaria e brincadeiras, cheias de energia, manifestando grande contentamento; por outro, eventualmente, essa energia expandia-se para além de um certo limite e o que era brincadeira transformava-se em atrito – por exemplo, o alegre “peguei” do pega-pega virava um empurrão, queda, choro e acusação.
Novamente sentimos a importância da presença de educadores em número suficiente para dar campo para que as crianças pudessem viver estes acontecimentos de modo diferente. Criar campo significa aproveitar a oportunidade e dar suporte para que as crianças percebam uma possibilidade que escape da tradicional reclamação/acusação/e espera da punição. Uma situação freqüentemente confusa também para o educador que já a encontra confusamente “organizada”.
Criar campo implica em ajudá-los a esclarecer - vale dizer, a viver - o que realmente aconteceu; assim, ao invés de se descambar para a tal confusão, as crianças terão a chance de agir de uma maneira mais verdadeira e não apenas reagir, mecanicamente, do modo ao qual estão (mal) acostumadas a sentir que se vai “resolver” a questão: acusando, vitimizando-se, irritando-se, enraivecendo-se, brigando, fugindo e etc e etc e etc... (Bom lembrar que adultos, muitas e muitas vezes, atuam da mesmíssima maneira!)
Por falar em organizações, logo na primeira semana, foi sugerido – na própria Roda - que a Roda fosse realizada em um ambiente mais propício á concentração. Até então ela acontecia no maior espaço da casinha (a cozinha), que é também a passagem natural do quintal para os ambientes interiores. O motivo desta proposta foi, exatamente, valorizar a Roda cotidiana da qual emanam as combinações estruturadoras do convívio. Ainda estamos em fase de concretizar a proposta; o que, mais uma vez, revela a imensa paciência que todos devem ter para que as transformações de fato aconteçam.
Entretanto, este ano pode-se perceber, em algumas crianças, uma postura mais firme em relação à importância da Roda, do valor das decisões tomadas de maneira democrática, à necessidade de se aceitar o combinado, a possibilidade de propor, em algum momento, a reformulação de uma regra, etc.
Dois meninos propuseram a formação de duplas de crianças que ajudariam os educadores no dia a dia do Projeto. Estamos conversando sobre a melhor maneira de se fazer isso para que não se corra o risco de se criar a figura de “fiscais”, crianças com “poderes” sobre outras.
Uma circunstância foi especialmente sentida: a sensibilidade das crianças em relação ao que eles chamam de “a vaia”. Essa denominação abrange as manifestações, quase sempre coletivas, que acontecem quando uma criança – mais raramente um adulto – fala algo considerado bobagem, errado, inadequado ou quando, mesmo num tom de brincadeira, sem agressividade, alguns acham que o outro foi escabreado – isto é, chamado a atenção. Nestes momentos costuma-se ouvir, não exatamente uma vaia: uh! uh! uh!, mas um comprido: “iiiiiiiiiiih!”, com as mãos colocadas sobre a boca como que para esconder quem está falando. A tradução do iiiiih é: “olha a bobagem!”, “olha o bobão!”, “vacilão!”; o fato é que todos que levam a vaia, mesmo os aparentemente mais seguros de si, se sentem sem graça, envergonhados, humilhados. Entretanto, parece ser muito difícil conter o impulso de vaiar o outro em algum momento; é como se fosse um vício, uma reação automática.
Uma reação parecida também pode ser percebida quando uma criança faz uma escolha, que, mais tarde quando conversamos, ela percebe que, de verdade, não a acha correta;... mas já fez, já apenas reagiu. De modo geral, parece ser uma prova de força, uma espécie de não querer “bancar o bobo” se agir diferente do esperado.
Outro dia, num pequeno grupo, conversávamos sobre como talvez seja preciso ter mais coragem para fazer o que realmente desejamos fazer do que fazer o que, de fato, não queremos para “não perder a reputação”, como disse um menino.
Este assunto nos levou a trazer, mais uma vez, para a Roda a importante questão sobre o que fazer quando uma combinação é sistemática e claramente descumprida. Uma situação que toca em dois pontos simultaneamente: um que diz respeito às conseqüências mais imediatas daquele ato, o segundo que nos leva a refletir sobre as motivações que levam a criança – ou o adulto – a descumprir o combinado.
A 1ª circunstância, com freqüência, toma uma dimensão aparentemente maior uma vez que a identificamos, imediata e facilmente, com os aspectos práticos e objetivos da vida. Parece que eles nos “tocam” com mais vigor; entretanto, a essência deste movimento, seu motor, está invisível, está no sentimento e na emoção que está por trás da construção do gesto humano; isto é, fazemos o que fazemos, escolhemos os caminhos que escolhemos movidos por uma sensibilidade interior e pessoal, porém, freqüentemente, esquecida e oculta – o 2º ponto.
Como lidar com esses aspectos simultaneamente? Como dar o limite que o corpo, o cotidiano, pede e como, ao mesmo tempo, contemplar o que está oculto para, então, ter a chance de mostrar a essa criança que ela pode, tem o direito, de ser respeitada nessa exata sensibilidade e que, por isso, pode fazer uma escolha diferente da que ela, um dia, aprendeu e lhe parece “garantir” a vida, a “reputação”? Uma atitude que ela tornou sistemática, repetitiva, mecânica, viciada.
Da Roda, das conversas, das trocas, dos afetos partilhados, certamente, vai surgir a resposta a essas perguntas.
A criança – e, que dirá, o adulto – que encontramos no Projeto de Gente já teve, infelizmente, tempo e motivações suficientes para esconder sua mais verdadeira sensibilidade, sua verdadeira identidade, em algum obscuro recanto.
Obviamente que nós, adultos, se desejamos oferecer um campo renovador para as crianças precisamos constantemente renovar o contato com nossa própria sensibilidade, não repetir os velhos padrões que construímos para, exatamente, esconder questões e medos, precisamos desconstruir estruturas do dia a dia com as quais já não concordamos, mas cuja demolição vai nos custar muito trabalho e sensações ameaçadoras.

Também em abril iniciou-se, no Projeto de Gente, o Projeto Xadrez – felizmente ligado à libertação e não à prisão. Paulo Mattos, o Paulinho, nosso novo educador, ofereceu duas tardes de aprendizado do velho jogo do xeque-mate – ou do “shrek-mate”, como disse um pequeno; também tem o espaço para o jogo de damas – neste caso, o Paulinho diz que está aqui para aprender. Boas palavras!
Nas tardes em volta dos tabuleiros muitas observações têm sido feitas: aquele ansioso, outro cauteloso ao extremo, aquele que quer sempre ganhar e, dissimulado, inventa desculpas, não arrisca jogar com outros que lhe perecem melhores, tem também o outro que conheceu o prazer de ensinar e não apenas ganhar. E, pelo menos uma vez, um menino se sentiu envolvido e encantado com a música que colocamos no ambiente do xadrez – o disco de uma saxofonista mineira, a Maria Bragança, - a ponto de pedir para ler o encarte do disco e uma cópia daquela música tão diferente da que ele está acostumado a ouvir.
Nas reuniões entre os educadores – que têm acontecido às quintas-feiras – foi levantada a necessidade de melhor organizar um demonstrativo financeiro do Projeto de Gente. Após a realização da festa de 09 de janeiro que, entre outros propósitos, também visava a obtenção de recursos financeiros percebemos a necessidade e tomamos as seguintes decisões: (1) criar a função de administrador financeiro que será responsável pela organização de uma planilha de custos mensal a ser publicada no blog do Projeto; (2) definir um pró-labore para o coordenador do Projeto.
Nos Diários de jan/fev foi mencionado o valor arrecadado na festa, porém, por falta de agilidade, não foram publicados em tempo hábil. Assim, reafirmamos que, na festa do verão de 2008, (1) foram arrecadados R$ 550,00 com a venda de camisetas e botons, (2) não foi auferido nenhum ganho sobre a venda de comida e bebida na Barraca Portobelo e (3) houve a doação de R$1000,00 pelo Herbert e amigos.
Após a festa um contato foi estabelecido e, a partir daí, sinalizada uma possibilidade de apoio financeiro de maior monta ao Projeto de Gente. Duas reuniões – em 11 e 13 de janeiro - foram realizadas com este possível investidor que solicitou a elaboração de um documento oficial da Associação Projeto de Gente para dar seguimento à esta possibilidade.
No dia 11 de janeiro reunimos, na casinha do Projeto, um grupo de crianças para a avaliação da festa. Compareceu, principalmente, o grupo mais envolvido em sua realização. Neste dia foi apresentada, ainda com a letra das crianças que haviam realizado este trabalho – com supervisão de um educador –, a prestação de contas da venda dos objetos durante a festa.
Muitas possibilidades eram aventadas para o destino desses recursos: pintura da casinha, construção de mesas e de uma placa a ser colocada na frente da casa, reforma da caixa d’água, como também há meses vinha se afirmando a necessidade de ida ao Rio de Janeiro do coordenador do Projeto – motivado tanto por necessidades ligadas ao Projeto de Gente quanto outras, pessoais. Esta última necessidade ganhou força, principalmente por conta do tal contato com o empresário de Brasília.
A ida do coordenador se deu em 16 de janeiro e lá foram realizadas várias e importantes (inclusive com reformulações operacionais) reuniões com a Associação Projeto de Gente, foi elaborado o documento já referido, foi também organizada uma reunião mais ampla com o objetivo de aumentar o número de associados e foram realizados encontros com o grupo de São Paulo ligado à Educação Democrática. Cabe esclarecer que foram duas idas a São Paulo; uma para encontros com Helena Singer, das Escolas Democráticas e com Luiz Claudio Barreto, diretor da Escola Lumiar (referidas nos Diários de jan/fev); outra viagem a São Paulo, de caráter pessoal, não foi custeada por recursos da Associação ou oriundos da festa do verão e, mesmo nessa segunda viagem, existiram reuniões de trabalho com educadores democráticos.
Infelizmente, por problemas de saúde o coordenador precisou ficar cerca de 15 dias a mais do que o pretendido; o retorno a Cumuruxatiba se deu em 15 de março.
Muita coisa se falou e se ouviu nos últimos dias e a equipe do Projeto de Gente agradece, profundamente, aqueles que, apontando falhas e sugerindo alternativas, contribuem para o desenvolvimento do trabalho e também deseja deixar claro que tem consciência da precariedade de suas condições e está trabalhando diariamente no sentido de, passo a passo, ultrapassar tais circunstâncias. Enquanto isso, usa essa mesma precariedade para gerar nas crianças a possibilidade de perceberem a força e a necessidade da união das diferentes habilidades – vale dizer, individuações – para que a vida se organize de modo sempre mais criativo e harmônico.
Um grande abraço e até maio...
MARÇO DE 2008
Finalmente, de volta à Cumuruxatiba, depois de uma temporada maior do que a prevista no Rio de Janeiro.
Logo na manhã seguinte à chegada, 06 de março, à medida que encontrávamos as crianças, e mesmo os adultos, ouvíamos a mesma pergunta: “E aí, quando é que o Projeto começa de novo?”
Nos primeiros dias fizemos um trabalho de recontato com a equipe de educadores de 2007 e as crianças – que estavam recomeçando suas aulas nas escolas num clima político um tanto conturbado.
Logo percebemos que mudanças, naturalmente, aconteceriam também no Projeto de Gente: alguns educadores não poderiam estar novamente conosco; algumas crianças haviam mudado de cidade.
Combinamos, para 10 de março, um encontro debaixo da mangueira no quintal da casinha do Projeto. Neste dia compareceram 10 crianças do grupo de 2007 e 12 novos candidatos a 2008. Conversamos sobre as férias, Rio de Janeiro, Cumuruxatiba, o reinício das aulas nas escolas, as confusões políticas, o reinício do Projeto, o Projeto em 2007. Rimos muito com muitas histórias, relembramos do que mais cada um gostou e menos também, reclamamos de brigas, provocações e vaias, dos projetos idealizados mas não concluídos, lembramos da festa de 09 de janeiro e dos desenhos e cerâmicas produzidos por todos...
Combinamos fazer novos encontros ao pé da mangueira durante os próximos dias para reorganizar o Projeto. Em 14 de março, uma sexta-feira, fizemos um passeio ao Areião.
Enquanto isso, os encontros com os educadores também iam acontecendo. Foi ficando claro que seria interessante começar o trabalho em 2008 com a seguinte estrutura: 2ª, 3ª e 4ª, atividades na casinha do Projeto; 5ª, encontro entre os educadores (desde o ano passado vínhamos percebendo a necessidade desse tipo de acontecimento no Projeto para troca de idéias sobre os conceitos do Projeto de Gente, para uma organização mais harmoniosa entre os ideais de cada educador que, por ser voluntário, traz para o trabalho o seu próprio sonho, sua própria perspectiva e método. Os encontros também vão servir para uma troca mais organizada e freqüente das observações a respeito das crianças realizada por cada um de nós); e a 6ª será reservada para atividades fora da casinha: passeios, filmes em DVD na casa de participantes do Projeto, lanches também nas casas das crianças e dos educadores, etc.
Nas semana de 16 a 22 de março, realizamos novos encontros. Este movimento foi importante porque as crianças que participaram em 2007 iam tomando conhecimento – e espalhando para todo lado – do retorno do Projeto.
Em 25, 26 e 27 foi realizada uma limpeza geral da casinha e do quintal. Cerca de 15 crianças compareceram. A faxina foi um sucesso! Rastelamos, separamos folhas já tendo em vista um projeto de horta, muita água e sabão, risos e escorregões...
Em 26, discutimos também os termos de um cartaz a ser espalhado por toda a vila: “O Projeto de Gente convida todas as crianças que participaram de suas atividades em 2007 a comparecer na casinha do Projeto nos seguintes dias: 31 de março, 01 e 02 de abril, sempre às 13h. ATENÇÃO: Compareçam todos que desejem continuar no Projeto, pois, nesses dias, será organizado o grupo de 2008. O Projeto de Gente convida também as mães, pais ou responsáveis a nos visitarem.”
Em 29 de março, uma trupe de 12 crianças e educadores colou os cartazes nos pontos já conhecidos por toda a população.
Em 31 tínhamos 25 crianças na casinha. Em 01 e 02 de abril, 29. Como no ano passado, as 25 do primeiro dia não foram, necessariamente, as mesmas dos outros dias. Fizemos rodas no início das atividades e o grupo ficou fechado com 45 crianças: 15 meninas e 30 meninos.
A equipe atual é composta por: Renata Homem, artes; Dolores, culinária e horta; Ângela, vôlei e peteca; Paulinho, xadrez e damas e Alexandre. O Giorgio vai ajudar na criação de um viveiro de mudas – o Projeto de gente está associado ao NEMA (Núcleo de Estudos do Meio Ambiente de Cumuruxatiba) num trabalho de replantio da mata ciliar do Rio barrinha que corta a vila. Juliana, bióloga, também está se organizando para participar. Nitão vai oferecer tempo para ensinar a construção das mesas que são uma necessidade premente.
Deste modo, o Projeto de Gente reiniciou suas atividades em 31 de março de 2008 – 44 anos após o duro golpe contra a democracia em nossas terras, o Projeto segue com seu movimento a favor da democracia e da liberdade. Nossas metas, este ano, incluem, entre outras: concluir com mais atenção e cuidado os projetos propostos, organizar mais adequadamente o demonstrativo financeiro da Associação Projeto de Gente, melhorar as comunicações com o Rio de Janeiro, agilizar a página na internet e... sempre trabalhar mais e melhor.
Como vocês perceberam entramos um pouquinho em abril... Então, até o fim do mês!
Nossas crianças:
Alexandra, Andrieli, Anna Paula, Aurélio, Allan, Carlos André, Dagnam, Dilermando, David, Daniel, Douglas, Douglas, Eviton, Flávio, Fabiane, Flávia, Guilherme, Gladston, Gabriel, Igor, Ingrid, Jonas, Ioane, Josinéia, Laiara, Luli, Leílson, Leidiane, Maciele, Mirele, Marcelo, Marta, Messias, Marlon, Mateus, Neuziane, Rafael, Robson, Ramon, Sol, Talita, Tássio, Vanderson e Weber.
Logo na manhã seguinte à chegada, 06 de março, à medida que encontrávamos as crianças, e mesmo os adultos, ouvíamos a mesma pergunta: “E aí, quando é que o Projeto começa de novo?”
Nos primeiros dias fizemos um trabalho de recontato com a equipe de educadores de 2007 e as crianças – que estavam recomeçando suas aulas nas escolas num clima político um tanto conturbado.
Logo percebemos que mudanças, naturalmente, aconteceriam também no Projeto de Gente: alguns educadores não poderiam estar novamente conosco; algumas crianças haviam mudado de cidade.
Combinamos, para 10 de março, um encontro debaixo da mangueira no quintal da casinha do Projeto. Neste dia compareceram 10 crianças do grupo de 2007 e 12 novos candidatos a 2008. Conversamos sobre as férias, Rio de Janeiro, Cumuruxatiba, o reinício das aulas nas escolas, as confusões políticas, o reinício do Projeto, o Projeto em 2007. Rimos muito com muitas histórias, relembramos do que mais cada um gostou e menos também, reclamamos de brigas, provocações e vaias, dos projetos idealizados mas não concluídos, lembramos da festa de 09 de janeiro e dos desenhos e cerâmicas produzidos por todos...
Combinamos fazer novos encontros ao pé da mangueira durante os próximos dias para reorganizar o Projeto. Em 14 de março, uma sexta-feira, fizemos um passeio ao Areião.
Enquanto isso, os encontros com os educadores também iam acontecendo. Foi ficando claro que seria interessante começar o trabalho em 2008 com a seguinte estrutura: 2ª, 3ª e 4ª, atividades na casinha do Projeto; 5ª, encontro entre os educadores (desde o ano passado vínhamos percebendo a necessidade desse tipo de acontecimento no Projeto para troca de idéias sobre os conceitos do Projeto de Gente, para uma organização mais harmoniosa entre os ideais de cada educador que, por ser voluntário, traz para o trabalho o seu próprio sonho, sua própria perspectiva e método. Os encontros também vão servir para uma troca mais organizada e freqüente das observações a respeito das crianças realizada por cada um de nós); e a 6ª será reservada para atividades fora da casinha: passeios, filmes em DVD na casa de participantes do Projeto, lanches também nas casas das crianças e dos educadores, etc.
Nas semana de 16 a 22 de março, realizamos novos encontros. Este movimento foi importante porque as crianças que participaram em 2007 iam tomando conhecimento – e espalhando para todo lado – do retorno do Projeto.
Em 25, 26 e 27 foi realizada uma limpeza geral da casinha e do quintal. Cerca de 15 crianças compareceram. A faxina foi um sucesso! Rastelamos, separamos folhas já tendo em vista um projeto de horta, muita água e sabão, risos e escorregões...
Em 26, discutimos também os termos de um cartaz a ser espalhado por toda a vila: “O Projeto de Gente convida todas as crianças que participaram de suas atividades em 2007 a comparecer na casinha do Projeto nos seguintes dias: 31 de março, 01 e 02 de abril, sempre às 13h. ATENÇÃO: Compareçam todos que desejem continuar no Projeto, pois, nesses dias, será organizado o grupo de 2008. O Projeto de Gente convida também as mães, pais ou responsáveis a nos visitarem.”
Em 29 de março, uma trupe de 12 crianças e educadores colou os cartazes nos pontos já conhecidos por toda a população.
Em 31 tínhamos 25 crianças na casinha. Em 01 e 02 de abril, 29. Como no ano passado, as 25 do primeiro dia não foram, necessariamente, as mesmas dos outros dias. Fizemos rodas no início das atividades e o grupo ficou fechado com 45 crianças: 15 meninas e 30 meninos.
A equipe atual é composta por: Renata Homem, artes; Dolores, culinária e horta; Ângela, vôlei e peteca; Paulinho, xadrez e damas e Alexandre. O Giorgio vai ajudar na criação de um viveiro de mudas – o Projeto de gente está associado ao NEMA (Núcleo de Estudos do Meio Ambiente de Cumuruxatiba) num trabalho de replantio da mata ciliar do Rio barrinha que corta a vila. Juliana, bióloga, também está se organizando para participar. Nitão vai oferecer tempo para ensinar a construção das mesas que são uma necessidade premente.
Deste modo, o Projeto de Gente reiniciou suas atividades em 31 de março de 2008 – 44 anos após o duro golpe contra a democracia em nossas terras, o Projeto segue com seu movimento a favor da democracia e da liberdade. Nossas metas, este ano, incluem, entre outras: concluir com mais atenção e cuidado os projetos propostos, organizar mais adequadamente o demonstrativo financeiro da Associação Projeto de Gente, melhorar as comunicações com o Rio de Janeiro, agilizar a página na internet e... sempre trabalhar mais e melhor.
Como vocês perceberam entramos um pouquinho em abril... Então, até o fim do mês!
Nossas crianças:
Alexandra, Andrieli, Anna Paula, Aurélio, Allan, Carlos André, Dagnam, Dilermando, David, Daniel, Douglas, Douglas, Eviton, Flávio, Fabiane, Flávia, Guilherme, Gladston, Gabriel, Igor, Ingrid, Jonas, Ioane, Josinéia, Laiara, Luli, Leílson, Leidiane, Maciele, Mirele, Marcelo, Marta, Messias, Marlon, Mateus, Neuziane, Rafael, Robson, Ramon, Sol, Talita, Tássio, Vanderson e Weber.
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