Abril abriu com a perspectiva da nova sede e muita, muita chuva. A vila ficou cerca de seis dias sem energia elétrica. Voltamos à era das velas, falta de geladeira, televisão, rádio, comunicações prejudicadas. Ruas enlameadas, acessos para a parte alta da vila forma se desmanchando. Em certo momento começou a preocupação com a possibilidade da falta de água e mesmo de comida, pois, sem refrigeração, ou se consumia rapidamente o alimento ou ele se estragava.
Quando a chuva dava uma trégua nos reuníamos debaixo do jamelão – aliás, carregadíssimo – no terreno do Cantagalo. Mais de uma vez o toró caiu e era criança para todo lado, correndo para casa.
Finalmente, - negócio fechado! – iniciamos a arrumação do novo espaço. O Nitão – grande e já mencionado amigo do Projeto –, a Eliana, o Begara e o Alexandre foram os educadores que se revezaram na pintura de portas, janelas e paredes; cada dia um tanto de meninos e meninas aparecia para fazer suas marcas.
O problema do número de participantes voltou a se manifestar. Muitos meninos e meninas foram chegando de mansinho. Alguns já conhecidos e que, por variados motivos, não compareceram nesta fase de atividades; outros novos – muitos vizinhos da nova sede. É sempre muito difícil mostrar para eles a necessidade de sermos mais firmes na formação de um grupo com um número certo de participantes; difícil mostrar o quanto precisamos cuidar deste solo inicial, embrionário, que ainda precisa ser muito arado, adubado, para que as fases seguintes possam ser melhor desenvolvidas; difícil explicar que vivemos um verdadeiro rito de iniciação, isto é, construímos um processo onde o saber é aprendido – e apreendido – através da vivência cotidiana. Uma vivência do que nunca foi vivido por nenhum de nós, uma vivência insegura, pois não há um método experimentado e consagrado. Existem, é certo, experiências outras que nos alimentam e inspiram, porém não são a nossa experiência. Cada Projeto de Gente a ser desenvolvido em qualquer outro recanto trará sempre um novo rito a ser vivido. Cada grupo de educadores será um novo grupo, cada grupo de crianças também é sempre novidade, assim como cada comunidade educadores-crianças será sempre diferente, particular, singular.
Em 25 de abril foi inaugurada a nova sede do Projeto de Gente em Cumuruxatiba. Na Roda de Combinações um tanto informal que se organizou foi possível, mais uma vez, constatar a necessidade de um imenso e paciente trabalho para que, pouco a pouco, a roda – ainda quadrada – vá ganhando sua forma mais confortável, redondinha. Vimos adultos e crianças desrespeitando a combinação básica de ouvir o que um componente está apresentando (como já disse alguém: “diálogo existe quando um ouve”); percebemos a falta de costume em ocupar um espaço com sua opinião própria; nos demos conta da impaciência com aquele que parece precisar ser o centro das atenções – do roda, portanto –; da irritação; da tendência de se cair logo na “facilidade” da punição, de “passar um sermão”; sentimos também a dificuldade que é saber o tempo que leva para se ter certeza de que uma certa metodologia é inútil.
Enfim, na inauguração, tocamos, todo o tempo, no tema do parágrafo anterior: iniciação, vivência. Uma vivência que é, ao mesmo tempo, uma iniciação, pois é uma aprender fazendo, um acertar errando. Uma vivência que, ao contrário da aplicação de uma “decoreba” apenas racional, se faz em um clima carregado de emoções e sentimentos, histórias de vida e singularidades.
Enfim, um barco navegando sobre uma correnteza – às vezes leve, outras turbulenta – de emoções, tocado por um vento nem sempre suave e muitas vezes inesperado e, ainda por cima, guiados por um mapa cheio de hiatos. Uma aventura, uma bela aventura! O problema é que, no tal mundo moderno, não se abrem muitos espaços para aventuras. Parece que todos preferem o conhecido, o padronizado, o que está na moda.
Participantes do Projeto de Gente - Cumuruxatiba
Educadores em Campo
Eliana, Cristina, Shal e Alexandre.
Educadores de Apoio
Begara, Ângela, Renata e Dolores
Meninas e meninos
Manhã
Ioane, Ismael, Cleiton, Sula, Sol, Flávia, Fabiana, Alan, César, Fernando, Ana Paula e Fabiane.
Tarde
Sabrina, Mávila, Abimael, Stefany, Olívia, Flávio Dinei, Weber, Maciele, Mireli, Flavinho, Jaqueline, Laiara, Luli, Sol, Douglas, Natália, Carol, Alexandra e Mábia.
Lista de Espera (da qual, pelo menos, seis estão sempre por lá)
Naiane, Robson, Graziele, Mariana, Peterson, Daniel, Lucas, Willian, Jonatas, Jaísa, Madson, Ornan, Sara, Luiza e Nina.
sábado, 11 de julho de 2009
domingo, 24 de maio de 2009
MARÇO DE 2009
Fim do verão e a vila retoma seu ritmo mais comum. Esta retomada é súbita, acontece quase que de um dia para o outro. Ontem, carros, muitos carros, buzinas, zoada dos motores, pessoas andando por todos os lados, várias lojas e restaurantes abertos; hoje, o caminhão do lixo, o transporte escolar, pessoas conhecidas se cumprimentando, dois ou três restaurantes abertos todos os dias, o atelier da Renata Homem e a Barraca do Régis também abertos, assim como o lanche do 14 e o da Lucinha, a confecção de D. Belinha e o Arte sobre Arte nos fins de semana, algumas pousadas fecham as portas até o próximo verão.
A vila, suas belezas, seus problemas, será o cenário do cotidiano de um grupo de pessoas que ocupam, se tanto, metade de um quarteirão do Rio de Janeiro, São Paulo ou Belo Horizonte e Salvador.
As crianças do Projeto de Gente iniciaram as atividades com encontros na frente daquele terreno que havíamos limpado, lembram-se? (está no relato de janeiro/fevereiro). Começamos ali, debaixo de uma mangueira, pois havíamos combinado o reinício do Projeto junto com as aulas. Ali tivemos as primeiras Rodas de Combinações; soubemos quem, de fato, havia se mudado para outras cidades; decidimos – importante! - que haveria um pequeno grupo pela manhã, pois alguns meninos e meninas passaram a estudar à tarde e solicitaram esta possibilidade; definimos em 30 o número total (manhã/tarde) de meninos e meninas; o grupo da manhã resolveu, junto com a Cristina Leme – nova colaboradora -, revitalizar o blog do Projeto e fazer um jornal. Ali também comunicamos às crianças sobre o novo terreno no Cantagalo e combinamos um pic-nic lá em 7 ou 8 de março.
O encontro aconteceu com cerca de 15 crianças, 3 educadores e a Lucia da Pousada Cantoria que ofereceu sanduíches de ricota. Conhecemos o terreno, nos defrontamos com suas desvantagens e curtimos as vantagens. Deste dia em diante passamos a nos reunir ali, agora debaixo de um carregadíssimo pé de jamelão, de segunda a quarta-feira, manhã e tarde. Aos poucos o grupo foi tomando forma.
Paralelamente, o grupo de educadores realizou encontros para organizar o jantar dos amigos do Projeto, aperfeiçoar o demonstrativo financeiro e fortalecer a Associação Projeto de Gente – na próxima gestão duas ou três pessoas de Cumuruxatiba farão parte da chapa.
Dois acontecimentos, inesperados talvez, se uniram para apontar novas rotas para o Projeto, pelo menos do ponto de vista mais visível: (1) o sucesso da Campanha do 1% e (2) a possibilidade de aluguel de uma casa muito adequada ao Projeto de Gente.
Vamos por partes: o resultado financeiro da campanha foi acima do esperado (ver o demonstrativo financeiro) e pudemos fazer uma reserva – talvez pela primeira vez. Por outro lado, uma amiga desocupou uma casinha ótima para as demandas do trabalho – dois cômodos independentes com banheiros, cozinha com fogão e geladeira, uma varanda coberta e, na frente, um campo de areia para vôlei e/ou peteca. Praticamente todos os espaços se interrelacionam através de janelas e portas formando, deste modo, uma estrutura, até mesmo fisicamente, comunitária. Além do mais, a casa tem uma bela localização. Com a reserva financeira garantida resolvemos contatar a proprietária. Um aluguel de 280 reais foi combinado a partir de abril de 2009.
Na última semana de março iniciamos a mudança da velha para a nova casinha do Projeto de Gente – a nova sede. Estamos, todos, bastante contentes e com a boa sensação de passos para frente e, em também boa, direção.
A vila, suas belezas, seus problemas, será o cenário do cotidiano de um grupo de pessoas que ocupam, se tanto, metade de um quarteirão do Rio de Janeiro, São Paulo ou Belo Horizonte e Salvador.
As crianças do Projeto de Gente iniciaram as atividades com encontros na frente daquele terreno que havíamos limpado, lembram-se? (está no relato de janeiro/fevereiro). Começamos ali, debaixo de uma mangueira, pois havíamos combinado o reinício do Projeto junto com as aulas. Ali tivemos as primeiras Rodas de Combinações; soubemos quem, de fato, havia se mudado para outras cidades; decidimos – importante! - que haveria um pequeno grupo pela manhã, pois alguns meninos e meninas passaram a estudar à tarde e solicitaram esta possibilidade; definimos em 30 o número total (manhã/tarde) de meninos e meninas; o grupo da manhã resolveu, junto com a Cristina Leme – nova colaboradora -, revitalizar o blog do Projeto e fazer um jornal. Ali também comunicamos às crianças sobre o novo terreno no Cantagalo e combinamos um pic-nic lá em 7 ou 8 de março.
O encontro aconteceu com cerca de 15 crianças, 3 educadores e a Lucia da Pousada Cantoria que ofereceu sanduíches de ricota. Conhecemos o terreno, nos defrontamos com suas desvantagens e curtimos as vantagens. Deste dia em diante passamos a nos reunir ali, agora debaixo de um carregadíssimo pé de jamelão, de segunda a quarta-feira, manhã e tarde. Aos poucos o grupo foi tomando forma.
Paralelamente, o grupo de educadores realizou encontros para organizar o jantar dos amigos do Projeto, aperfeiçoar o demonstrativo financeiro e fortalecer a Associação Projeto de Gente – na próxima gestão duas ou três pessoas de Cumuruxatiba farão parte da chapa.
Dois acontecimentos, inesperados talvez, se uniram para apontar novas rotas para o Projeto, pelo menos do ponto de vista mais visível: (1) o sucesso da Campanha do 1% e (2) a possibilidade de aluguel de uma casa muito adequada ao Projeto de Gente.
Vamos por partes: o resultado financeiro da campanha foi acima do esperado (ver o demonstrativo financeiro) e pudemos fazer uma reserva – talvez pela primeira vez. Por outro lado, uma amiga desocupou uma casinha ótima para as demandas do trabalho – dois cômodos independentes com banheiros, cozinha com fogão e geladeira, uma varanda coberta e, na frente, um campo de areia para vôlei e/ou peteca. Praticamente todos os espaços se interrelacionam através de janelas e portas formando, deste modo, uma estrutura, até mesmo fisicamente, comunitária. Além do mais, a casa tem uma bela localização. Com a reserva financeira garantida resolvemos contatar a proprietária. Um aluguel de 280 reais foi combinado a partir de abril de 2009.
Na última semana de março iniciamos a mudança da velha para a nova casinha do Projeto de Gente – a nova sede. Estamos, todos, bastante contentes e com a boa sensação de passos para frente e, em também boa, direção.
JANEIRO E FEVEREIRO DE 2009
O verão começou com muita chuva e preocupação para os moradores da vila, pois a vida econômica da comunidade gira em torno do turismo nesta época do ano. Chuva muito forte espanta os turistas e, ainda por cima, destrói a estrada de acesso para os fiéis visitantes de Cumuruxatiba.
No Projeto, o movimento foi no sentido de se encontrar a melhor solução para o problema da nova sede. Já havíamos decidido que seria melhor iniciar as atividades de 2009 já em um novo espaço. Entretanto, encontrar uma casa em Cumuruxatiba nesta época do ano é bastante difícil – aluguéis altos, raros e apenas por temporada
Um terreno muito bem localizado, na praia, nos foi oferecido por um ano. Chegamos a realizar a limpeza do local; porém, ficou claro que o custo para deixar aquela área em condições mínimas é muito alto. Outro belo terreno, no Morro do Cantagalo, nos foi oferecido por um casal de amigos. Um terreno, em declive mas muito bonito, com uma casinha pequena. Outros amigos, o Walter e a Dolores, nos deram uma lona redonda – cerca de 8 metros de diâmetro – para ser armada ao lado da casinha. Um problema é que a casinha está ocupada e apenas estará livre em meados de abril. Até lá podemos trabalhar o próprio terreno que precisa ser, em parte, aplainado para receber a tenda. De todo jeito – um pouco por falta de opção – o martelo foi batido: ali será instalado o Projeto de Gente.
Neste meio tempo, o Begara, sempre atento às necessidades objetivas, trouxe a proposta de se organizar um grupo de pessoas amigas do Projeto que se reuniriam mensalmente com o compromisso de, presentes ou não, arrecadar uma quantia. Esta seria uma quantia fixa e certa para as necessidades materiais do trabalho; além disto, este grupo de amigos reunidos em torno de um propósito comum estará alimentando o Projeto de Gente com uma outra qualidade de demanda: subjetiva e identificada com o coração.
Fevereiro terminou com belos dias de sol e uma definição em relação ao local da nova sede do Projeto de Gente que exigirá muito trabalho e determinação.
No Projeto, o movimento foi no sentido de se encontrar a melhor solução para o problema da nova sede. Já havíamos decidido que seria melhor iniciar as atividades de 2009 já em um novo espaço. Entretanto, encontrar uma casa em Cumuruxatiba nesta época do ano é bastante difícil – aluguéis altos, raros e apenas por temporada
Um terreno muito bem localizado, na praia, nos foi oferecido por um ano. Chegamos a realizar a limpeza do local; porém, ficou claro que o custo para deixar aquela área em condições mínimas é muito alto. Outro belo terreno, no Morro do Cantagalo, nos foi oferecido por um casal de amigos. Um terreno, em declive mas muito bonito, com uma casinha pequena. Outros amigos, o Walter e a Dolores, nos deram uma lona redonda – cerca de 8 metros de diâmetro – para ser armada ao lado da casinha. Um problema é que a casinha está ocupada e apenas estará livre em meados de abril. Até lá podemos trabalhar o próprio terreno que precisa ser, em parte, aplainado para receber a tenda. De todo jeito – um pouco por falta de opção – o martelo foi batido: ali será instalado o Projeto de Gente.
Neste meio tempo, o Begara, sempre atento às necessidades objetivas, trouxe a proposta de se organizar um grupo de pessoas amigas do Projeto que se reuniriam mensalmente com o compromisso de, presentes ou não, arrecadar uma quantia. Esta seria uma quantia fixa e certa para as necessidades materiais do trabalho; além disto, este grupo de amigos reunidos em torno de um propósito comum estará alimentando o Projeto de Gente com uma outra qualidade de demanda: subjetiva e identificada com o coração.
Fevereiro terminou com belos dias de sol e uma definição em relação ao local da nova sede do Projeto de Gente que exigirá muito trabalho e determinação.
DEZEMBRO DE 2008
Dezembro de 2008, mês curto, pois as férias escolares estão à vista, no horizonte. A apreensão de muitas crianças quanto à aprovação ou não é palpável. As férias podem começar com tempo fechado, tempestades ou sol aberto.
No Projeto, mês de transformações: pintamos as paredes, portas e janelas; também trocamos duas janelas que estavam corroídas por cupins. Deixamos a casinha bem bonita para entregá-la, com a marca do nosso agradecimento, ao Daniel e Letícia. Ao mesmo tempo iniciamos a busca por um novo espaço. As idéias que predominam a este respeito são: (1) conseguir um lote, em regime de comodato, e ali construir uma estrutura circular, sem divisões internas mas protegida dos ventos. Neste espaço, comunitário e democrático, aconteceriam certas atividades – as internas -, enquanto que, no ao redor, ao ar livre, outras. A segunda idéia é (2) é tentar o aluguel de uma casa. Talvez esta seja a possibilidade mais prática e, até mesmo, mais econômica; porém, sem os encantos da primeira. Vamos a ver!
Outra circunstância marcante em dezembro foi a definição do grupo de 2009. Como referido no diário de novembro, estamos, desde outubro, discutindo, em roda, a necessidade de equilibrar a balança “número de educadores/número de meninos e meninas” no Projeto de Gente.
Pois bem, uma das meninas, a Sula, apresentou a única e difícil solução – fato também já relatado no diário de novembro. Cada participante do Projeto responderia a duas perguntas: “Quem eu gostaria de ter ao meu lado no Projeto 2009?” e/ou “Quem eu percebo são as pessoas que mais curtem o Projeto? Aquelas que estão mais envolvidas, mais ligadas ao dia a dia do Projeto”. Os critérios que Sula estava propondo eram, portanto, afinidade e interesse – dois muito bons critérios para a organização de um grupo.
Conversamos, conversamos, conversamos e... conversamos. No dia 13 foi feita a definição do grupo. Alguns estavam tensos, outros apenas se deram conta do que realmente significava tudo aquilo ao terem na sua frente a lista de cerca de 60 meninos e meninas. Destes apenas 30 estariam juntos em 2009. Difícil, muito difícil! Seria mesmo este o melhor mecanismo para se lidar com a questão?
Conforme decidido por todos, o voto poderia ser secreto ou não – decisão de cada um. Alguns se retiraram para um cantinho; outros resolveram se apoiar mutuamente e o grupo foi definido. De fato sabemos que ainda será preciso um reajuste, pois, pelo menos, duas crianças que estão na lista não estarão em Cumuruxatiba no ano que vem.
Naquela noite um dos educadores do Projeto conversou com um velho sábio e lhe perguntou o que significava tudo aquilo. Ele respondeu: “É um ponto de transição, uma encruzilhada com o sol levantando-se ao fundo. Trata-se de um movimento renovador, uma energia construtiva que surge, porém ainda em broto. Representa também um movimento de cuidado com a raiz, um movimento de proteção que deve ser paciente e suave, pois esta é a única maneira de garantir seu crescimento, neste momento de fragilidade. Trata-se de uma dinâmica de desenvolvimento interno, sutil, uma pequena faísca que, mesmo tênue, deixa um lastro indelével, o despertar de um embrião luminoso e silencioso. Um aprendizado e desenvolvimento em direção à meta almejada e ainda distante”.
Para fechar: o Luiz e a Milena, da Pousada Rio do Peixe, nos apresentou uma linda idéia. Eles vão propor a seus hóspedes do verão de 2009 que acrescentem 1% ao valor total de suas diárias. Este 1% será destinado ao Projeto de Gente. Eles também sugeriram que procurássemos outros pousadeiros para saber se gostariam de entrar nesta onda. Luiz e Milena são, de fato, grandes amigos do Projeto de Gente. Seis outros aceitaram a sugestão. Obrigado, amigos!
E até 2009!
No Projeto, mês de transformações: pintamos as paredes, portas e janelas; também trocamos duas janelas que estavam corroídas por cupins. Deixamos a casinha bem bonita para entregá-la, com a marca do nosso agradecimento, ao Daniel e Letícia. Ao mesmo tempo iniciamos a busca por um novo espaço. As idéias que predominam a este respeito são: (1) conseguir um lote, em regime de comodato, e ali construir uma estrutura circular, sem divisões internas mas protegida dos ventos. Neste espaço, comunitário e democrático, aconteceriam certas atividades – as internas -, enquanto que, no ao redor, ao ar livre, outras. A segunda idéia é (2) é tentar o aluguel de uma casa. Talvez esta seja a possibilidade mais prática e, até mesmo, mais econômica; porém, sem os encantos da primeira. Vamos a ver!
Outra circunstância marcante em dezembro foi a definição do grupo de 2009. Como referido no diário de novembro, estamos, desde outubro, discutindo, em roda, a necessidade de equilibrar a balança “número de educadores/número de meninos e meninas” no Projeto de Gente.
Pois bem, uma das meninas, a Sula, apresentou a única e difícil solução – fato também já relatado no diário de novembro. Cada participante do Projeto responderia a duas perguntas: “Quem eu gostaria de ter ao meu lado no Projeto 2009?” e/ou “Quem eu percebo são as pessoas que mais curtem o Projeto? Aquelas que estão mais envolvidas, mais ligadas ao dia a dia do Projeto”. Os critérios que Sula estava propondo eram, portanto, afinidade e interesse – dois muito bons critérios para a organização de um grupo.
Conversamos, conversamos, conversamos e... conversamos. No dia 13 foi feita a definição do grupo. Alguns estavam tensos, outros apenas se deram conta do que realmente significava tudo aquilo ao terem na sua frente a lista de cerca de 60 meninos e meninas. Destes apenas 30 estariam juntos em 2009. Difícil, muito difícil! Seria mesmo este o melhor mecanismo para se lidar com a questão?
Conforme decidido por todos, o voto poderia ser secreto ou não – decisão de cada um. Alguns se retiraram para um cantinho; outros resolveram se apoiar mutuamente e o grupo foi definido. De fato sabemos que ainda será preciso um reajuste, pois, pelo menos, duas crianças que estão na lista não estarão em Cumuruxatiba no ano que vem.
Naquela noite um dos educadores do Projeto conversou com um velho sábio e lhe perguntou o que significava tudo aquilo. Ele respondeu: “É um ponto de transição, uma encruzilhada com o sol levantando-se ao fundo. Trata-se de um movimento renovador, uma energia construtiva que surge, porém ainda em broto. Representa também um movimento de cuidado com a raiz, um movimento de proteção que deve ser paciente e suave, pois esta é a única maneira de garantir seu crescimento, neste momento de fragilidade. Trata-se de uma dinâmica de desenvolvimento interno, sutil, uma pequena faísca que, mesmo tênue, deixa um lastro indelével, o despertar de um embrião luminoso e silencioso. Um aprendizado e desenvolvimento em direção à meta almejada e ainda distante”.
Para fechar: o Luiz e a Milena, da Pousada Rio do Peixe, nos apresentou uma linda idéia. Eles vão propor a seus hóspedes do verão de 2009 que acrescentem 1% ao valor total de suas diárias. Este 1% será destinado ao Projeto de Gente. Eles também sugeriram que procurássemos outros pousadeiros para saber se gostariam de entrar nesta onda. Luiz e Milena são, de fato, grandes amigos do Projeto de Gente. Seis outros aceitaram a sugestão. Obrigado, amigos!
E até 2009!
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
NOVEMBRO DE 2008
Mês intenso, carregado de emoções: fim de ano, crianças preocupadas com as provas finais, recuperações, “bombas”, entrega da casinha do Projeto, a possível diminuição no número de crianças para 2009, gente que não conhece o trabalho falando mesmo assim -pessoas que, com maior ou menor consciência, comentam sobre a velha - e sempre importante - questão da liberdade, pessoas que não conseguem - não desejam - ver as crianças exercendo autonomia e escapando de certos controles, pessoas que não desejam ver crianças questionando o que para eles é inquestionável, pessoas que não querem crianças sendo elas mesmas porque não têm coragem para fazer o mesmo. Enfim, reatividade. Esta reação tem, por um lado, nos entristecido muito; porém, por outro, nos faz ver com mais nitidez o valor, a intensidade e a boa direção do trabalho. Estamos percebendo que enquanto o projeto era uma sementinha não eram precisos tantos cuidados, agora que é um brotinho, aflorado, é preciso protegê-lo dos predadores "naturais" e das intempéries - estas sim, naturais - que influenciam seu crescimento.
Mas, vamos em frente: trabalhamos muito – quase todos os dias era tema de roda - a questão do grupo de 2009 e a Sulamita deu a idéia que, ajustada com a colaboração de outros, foi considerada a mais justa e democrática para tratar do problema. Foi então combinado que em dezembro será realizada uma assembléia com o maior número possível de crianças e educadores. Cada um vai escolher o grupo que considerar melhor para o Projeto. Este número será definido, combinação entre todos, pelos educadores. Os critérios serão: (1) afinidades, naturalmente, e (2) quem é percebido como uma pessoa que considera o Projeto de Gente importante em sua vida, aqueles que no dia a dia fazem o trabalho se desenvolver, pode ser uma criança bagunceira, é a sua relação com o projeto que conta. É uma proposta que contempla o “sim”, não o “não”. Se houver empate entre alguns, sorteio. Assim que conseguirmos mais gente grande as vagas vão se abrindo.
Difícil solução, mas trabalhada com carinho e atenção por muitas crianças
Resolvemos também nos preparar para a eventualidade da casinha ser mesmo vendida neste verão. Em relação a esta questão - local -, temos duas opções: (1) alugar um espaço - estamos procurando algo para depois do verão (logicamente já estamos procurando desde agora); (2) pensamos - e gosto muito da idéia - em montar uma tenda de circo (idéia baseada na "Tenda dos Milagres", do Jorge Amado). Existem duas possibilidades de terreno que poderiam ser cedidos em comodato, compraríamos uma lona de circo usada e construiríamos uma casinha - talvez de sapé - para guardar objetos (um dos terrenos vem com a possibilidade de a própria proprietária fazer uma casinha de quarto, sala, banheiro e pequena cozinha)... Achamos a idéia do circo muito apropriada: marca bem a alternativa que é o Projeto de Gente; tem a cara das crianças e do próprio projeto; compartilharíamos um espaço coletivo – o que seria muito interessante na socialização e construção do respeito às atividades que se fariam concomitantemente. Está aberta a “Campanha Tá na Lona”: quem souber de uma lona de circo usada ou nova boa para doação ou com bom – ótimo, maravilhosos, o melhor – preço, procure-nos.
Este mês marcou o início das atividades da Silvana, professora de matemática na Escola Algeziro Moura, pasteleira de mão cheia, pousadeira, violeira e dona do abraço mais caloroso da Vila,... da Bahia,... do Brasil... e há quem diga de todo o mundo. No Projeto ela vai nos abraçar, cantar –está preparando um coral -, tocar e ensinar violão. Uma linda contribuição para todos nós! Bem vinda!
O bingo na Pousada Rio do Peixe foi um sucesso. Milena e Luiz demonstraram, mais uma vez, todo seu carinho com o Projeto ao oferecer as pizzas. Arcamos apenas com o custo das bebidas.
O cartaz e o convite ficaram assim:
B I N G O
A POUSADA RIO DO PEIXE convida todos para
Mas, vamos em frente: trabalhamos muito – quase todos os dias era tema de roda - a questão do grupo de 2009 e a Sulamita deu a idéia que, ajustada com a colaboração de outros, foi considerada a mais justa e democrática para tratar do problema. Foi então combinado que em dezembro será realizada uma assembléia com o maior número possível de crianças e educadores. Cada um vai escolher o grupo que considerar melhor para o Projeto. Este número será definido, combinação entre todos, pelos educadores. Os critérios serão: (1) afinidades, naturalmente, e (2) quem é percebido como uma pessoa que considera o Projeto de Gente importante em sua vida, aqueles que no dia a dia fazem o trabalho se desenvolver, pode ser uma criança bagunceira, é a sua relação com o projeto que conta. É uma proposta que contempla o “sim”, não o “não”. Se houver empate entre alguns, sorteio. Assim que conseguirmos mais gente grande as vagas vão se abrindo.
Difícil solução, mas trabalhada com carinho e atenção por muitas crianças
Resolvemos também nos preparar para a eventualidade da casinha ser mesmo vendida neste verão. Em relação a esta questão - local -, temos duas opções: (1) alugar um espaço - estamos procurando algo para depois do verão (logicamente já estamos procurando desde agora); (2) pensamos - e gosto muito da idéia - em montar uma tenda de circo (idéia baseada na "Tenda dos Milagres", do Jorge Amado). Existem duas possibilidades de terreno que poderiam ser cedidos em comodato, compraríamos uma lona de circo usada e construiríamos uma casinha - talvez de sapé - para guardar objetos (um dos terrenos vem com a possibilidade de a própria proprietária fazer uma casinha de quarto, sala, banheiro e pequena cozinha)... Achamos a idéia do circo muito apropriada: marca bem a alternativa que é o Projeto de Gente; tem a cara das crianças e do próprio projeto; compartilharíamos um espaço coletivo – o que seria muito interessante na socialização e construção do respeito às atividades que se fariam concomitantemente. Está aberta a “Campanha Tá na Lona”: quem souber de uma lona de circo usada ou nova boa para doação ou com bom – ótimo, maravilhosos, o melhor – preço, procure-nos.
Este mês marcou o início das atividades da Silvana, professora de matemática na Escola Algeziro Moura, pasteleira de mão cheia, pousadeira, violeira e dona do abraço mais caloroso da Vila,... da Bahia,... do Brasil... e há quem diga de todo o mundo. No Projeto ela vai nos abraçar, cantar –está preparando um coral -, tocar e ensinar violão. Uma linda contribuição para todos nós! Bem vinda!
O bingo na Pousada Rio do Peixe foi um sucesso. Milena e Luiz demonstraram, mais uma vez, todo seu carinho com o Projeto ao oferecer as pizzas. Arcamos apenas com o custo das bebidas.
O cartaz e o convite ficaram assim:
B I N G O
A POUSADA RIO DO PEIXE convida todos para
o bingo em comemoração ao primeiro ano de
atividades do PROJETO DE GENTE em Cumuruxatiba!
22 de novembro de 2008
Às 19:00h
Na Pousada Rio do Peixe
Pizza da Paula, cerveja e refrigerante, além de 03 cartelas para o
Na Pousada Rio do Peixe
Pizza da Paula, cerveja e refrigerante, além de 03 cartelas para o
sorteio das peças oferecidas pelas artistas Renata, Eva e Eliana
Além deste evento a Pousada É – Esther e Hans – nos ofereceram, de surpresa, a arrecadação de um bingo comemorativo do aniversário do Hans. Muito obrigado, amigos!
Vamos arrumar a casinha e fazer uma caixinha para o início do ano.
Até dezembro!
Além deste evento a Pousada É – Esther e Hans – nos ofereceram, de surpresa, a arrecadação de um bingo comemorativo do aniversário do Hans. Muito obrigado, amigos!
Vamos arrumar a casinha e fazer uma caixinha para o início do ano.
Até dezembro!
OUTUBRO DE 2008
Outubro chegou trazendo o aroma dos cajus que, por tradição, as crianças comem ainda verdes... e com sal. Do mesmo modo comem as mangas. É difícil acreditar que vão sobrar frutas para amadurecer nas árvores.
Aliás, os cajueiros e mangueiras foram palco de uma polêmica – que, de fato, acontece desde o ano passado. A maioria das crianças de Cumuruxatiba têm uma imensa habilidade para subir nas árvores, “está no sangue”, é cultural, podemos dizer.
Entretanto, podem cair – “acidentes acontecem” – e alguém levantou o perigo disto acontecer no Projeto de Gente; que, neste caso, pode ser responsabilizado. Naturalmente que já há algum tempo discutimos a questão.
E agora? Duas verdades: as crianças sobem nas árvores muito bem, gostam, sabem o que fazem, e é muito bonito vê-las usando suas habilidades. Seria, até mesmo, uma violência obrigá-las a não se empoleirarem nas árvores. Porém, por outro lado, podem cair e o Projeto é mesmo responsável por elas.
Dias e dias de conversa para que todos compreendam que precisávamos proteger as crianças e o próprio trabalho; que é legítimo o desejo de subir nas árvores; que têm a habilidade necessária para isso; e que algum adulto – fora do Projeto -, esquecido que um dia foi criança, pode não aceitar que este tipo de acidente acontecesse exatamente ali – embora eventualmente pudesse aceitar (mesmo brigando com a criança) se acontecesse na sua própria casa, no terreno baldio ou no quintal, invadido, do vizinho.
Assim, algumas regras foram combinadas e providências tomadas: foi estabelecido que nos galhos mais baixos seria possível subir, nos galhos secos e finos não pode; varas para colher as frutas sem necessidade de subir na árvore foram arranjadas.
Ao lado deste movimento tão natural – o subir nas árvores – outro foi sugerido por algumas meninas. Elas propuseram, em Roda, a realização de um desfile: o concurso Miss Projeto de Gente. A proposta foi imediatamente aceita com entusiasmo e, inclusive, a adesão de alguns meninos – para surpresa das meninas. Foi criado um grupo organizador que estabeleceu que: além da Miss e, agora, do Mr. Projeto de Gente, haveria a Miss e Mr. Simpatia; não haveria desfile de biquíni ou sunga para não haver injustiça ou vantagens já que alguns são tímidos o suficiente para não desfilar se fosse necessário usar estes trajes; foi escolhido um Mestre de Cerimônia; dois juízes – adultos -; uma corda demarcaria a passarela; e familiares seriam convidados.
Foi assim que, numa bela tarde ensolarada, á sombra da grande mangueira, realizou-se o evento. Notem que toda a organização foi coordenada pelos meninos e meninas, os adultos participaram mais efetivamente apenas da construção da passarela e, convidados, do corpo de jurados.
Sucesso, inclusive com a tradicional presença da mãe da Miss Projeto de Gente: a Neuziane; a Miss Simpatia foi a Juliene; o Mr. Projeto de Gente escolhido foi o Ioane e o Mr. Simpatia, o Douglas Costa. Tudo foi vivido com muita alegria, graça, liberdade e seriedade – uma menina chamou um educador nos bastidores para mostrar as mãos tremendo e úmidas. Também foi um bom momento para conversar sobre temas relacionados ao corpo, à sexualidade, à banalização do uso tanto de um quanto de outro; timidez; beleza padronizada e escravocrata; etc. e etc.
Outro grupo também organizou, produziu e apresentou uma “Puxada de Rede”. A Puxada é uma, já tradicional, performance cultural em Cumuruxatiba. Trata-se da adaptação de um trecho do “Mar Morto”, de Jorge Amado: um grupo de pescadores e suas companheiras apresentam cenas da realidade de suas vidas – a pesca, os conflitos conjugais, a bebida, o cotidiano das mulheres esperando seus maridos, a morte no mar.
Foi interessante acompanhar o trabalho dos que tomaram a frente dos ensaios, suas alegrias e reclamações; como lidaram com o descompromisso de um ou outro, o trabalho para arrumar roupas e instrumentos: rede, arpões, machado, os atabaques e berimbaus que pontuam os cantos do candomblé presentes em toda a encenação – aliás, a voz do cantor soou cheia de lamento e vigor nos momentos de maior dor ou alegria.
No dia da apresentação um dos componentes não pode participar e foi muito bonito perceber a solidariedade de todos com a menina que se dispôs a fazer uma substituição. Do mesmo modo houve uma linda colaboração com os atores que, nervosos, esqueciam, aqui e ali, suas falas: vozinhas eram ouvidas sussurrando a voz esquecida.
O palco foi sobre a terra do quintal, o mar levantava poeira e o céu era a copa das mangueiras, mas aqueles meninos e meninas nos levaram para a beira-mar, para dentro das biroscas, para o interior das canoas, para dentro da dor da saudade, para debaixo do céu azul e da luz dourada do sol.
Conforme comentamos no “Diário de setembro”, demos andamento à idéia da Milena e do Luiz da Pousada Rio do Peixe: preparamos cerca de 170 cartões feitos de papel reciclado e desenhados pelas crianças. Durante as conversas surgiu também a possibilidade de realizarmos um bingo em novembro com recursos revertidos para o Projeto. Estamos combinando como será.
Neste outubro aprofundamos a questão da relação entre o número de crianças e o de adultos. Muitas crianças e poucos adultos. Em praticamente todas as rodas era comentado que alguma coisa não estava bem, que havia certo descuido, que os adultos estavam mais exercendo um papel de “policiamento” do que atuando nas oficinas ou estando em contato mais contínuo com as crianças individualmente. Isto é, muitas crianças, muito movimento, muito encontro de energias, muita necessidade de estar atento aos inevitáveis conflitos,... mas poucos educadores para cumprir esta função e as demais que marcam a essência do Projeto.
Questão delicada, pois a melhor solução é, justo, a mais difícil: conseguir mais educadores para adequar a tal relação criança/adulto, profissionalizar o trabalho. Claro que é a solução também ansiada e procurada. A alternativa , compulsória, indesejada, é diminuir o grupo de crianças.
Assim fechamos outubro: refletindo sobre este problema e aproveitando os biscoitos que a Ângela doou.
Aliás, os cajueiros e mangueiras foram palco de uma polêmica – que, de fato, acontece desde o ano passado. A maioria das crianças de Cumuruxatiba têm uma imensa habilidade para subir nas árvores, “está no sangue”, é cultural, podemos dizer.
Entretanto, podem cair – “acidentes acontecem” – e alguém levantou o perigo disto acontecer no Projeto de Gente; que, neste caso, pode ser responsabilizado. Naturalmente que já há algum tempo discutimos a questão.
E agora? Duas verdades: as crianças sobem nas árvores muito bem, gostam, sabem o que fazem, e é muito bonito vê-las usando suas habilidades. Seria, até mesmo, uma violência obrigá-las a não se empoleirarem nas árvores. Porém, por outro lado, podem cair e o Projeto é mesmo responsável por elas.
Dias e dias de conversa para que todos compreendam que precisávamos proteger as crianças e o próprio trabalho; que é legítimo o desejo de subir nas árvores; que têm a habilidade necessária para isso; e que algum adulto – fora do Projeto -, esquecido que um dia foi criança, pode não aceitar que este tipo de acidente acontecesse exatamente ali – embora eventualmente pudesse aceitar (mesmo brigando com a criança) se acontecesse na sua própria casa, no terreno baldio ou no quintal, invadido, do vizinho.
Assim, algumas regras foram combinadas e providências tomadas: foi estabelecido que nos galhos mais baixos seria possível subir, nos galhos secos e finos não pode; varas para colher as frutas sem necessidade de subir na árvore foram arranjadas.
Ao lado deste movimento tão natural – o subir nas árvores – outro foi sugerido por algumas meninas. Elas propuseram, em Roda, a realização de um desfile: o concurso Miss Projeto de Gente. A proposta foi imediatamente aceita com entusiasmo e, inclusive, a adesão de alguns meninos – para surpresa das meninas. Foi criado um grupo organizador que estabeleceu que: além da Miss e, agora, do Mr. Projeto de Gente, haveria a Miss e Mr. Simpatia; não haveria desfile de biquíni ou sunga para não haver injustiça ou vantagens já que alguns são tímidos o suficiente para não desfilar se fosse necessário usar estes trajes; foi escolhido um Mestre de Cerimônia; dois juízes – adultos -; uma corda demarcaria a passarela; e familiares seriam convidados.
Foi assim que, numa bela tarde ensolarada, á sombra da grande mangueira, realizou-se o evento. Notem que toda a organização foi coordenada pelos meninos e meninas, os adultos participaram mais efetivamente apenas da construção da passarela e, convidados, do corpo de jurados.
Sucesso, inclusive com a tradicional presença da mãe da Miss Projeto de Gente: a Neuziane; a Miss Simpatia foi a Juliene; o Mr. Projeto de Gente escolhido foi o Ioane e o Mr. Simpatia, o Douglas Costa. Tudo foi vivido com muita alegria, graça, liberdade e seriedade – uma menina chamou um educador nos bastidores para mostrar as mãos tremendo e úmidas. Também foi um bom momento para conversar sobre temas relacionados ao corpo, à sexualidade, à banalização do uso tanto de um quanto de outro; timidez; beleza padronizada e escravocrata; etc. e etc.
Outro grupo também organizou, produziu e apresentou uma “Puxada de Rede”. A Puxada é uma, já tradicional, performance cultural em Cumuruxatiba. Trata-se da adaptação de um trecho do “Mar Morto”, de Jorge Amado: um grupo de pescadores e suas companheiras apresentam cenas da realidade de suas vidas – a pesca, os conflitos conjugais, a bebida, o cotidiano das mulheres esperando seus maridos, a morte no mar.
Foi interessante acompanhar o trabalho dos que tomaram a frente dos ensaios, suas alegrias e reclamações; como lidaram com o descompromisso de um ou outro, o trabalho para arrumar roupas e instrumentos: rede, arpões, machado, os atabaques e berimbaus que pontuam os cantos do candomblé presentes em toda a encenação – aliás, a voz do cantor soou cheia de lamento e vigor nos momentos de maior dor ou alegria.
No dia da apresentação um dos componentes não pode participar e foi muito bonito perceber a solidariedade de todos com a menina que se dispôs a fazer uma substituição. Do mesmo modo houve uma linda colaboração com os atores que, nervosos, esqueciam, aqui e ali, suas falas: vozinhas eram ouvidas sussurrando a voz esquecida.
O palco foi sobre a terra do quintal, o mar levantava poeira e o céu era a copa das mangueiras, mas aqueles meninos e meninas nos levaram para a beira-mar, para dentro das biroscas, para o interior das canoas, para dentro da dor da saudade, para debaixo do céu azul e da luz dourada do sol.
Conforme comentamos no “Diário de setembro”, demos andamento à idéia da Milena e do Luiz da Pousada Rio do Peixe: preparamos cerca de 170 cartões feitos de papel reciclado e desenhados pelas crianças. Durante as conversas surgiu também a possibilidade de realizarmos um bingo em novembro com recursos revertidos para o Projeto. Estamos combinando como será.
Neste outubro aprofundamos a questão da relação entre o número de crianças e o de adultos. Muitas crianças e poucos adultos. Em praticamente todas as rodas era comentado que alguma coisa não estava bem, que havia certo descuido, que os adultos estavam mais exercendo um papel de “policiamento” do que atuando nas oficinas ou estando em contato mais contínuo com as crianças individualmente. Isto é, muitas crianças, muito movimento, muito encontro de energias, muita necessidade de estar atento aos inevitáveis conflitos,... mas poucos educadores para cumprir esta função e as demais que marcam a essência do Projeto.
Questão delicada, pois a melhor solução é, justo, a mais difícil: conseguir mais educadores para adequar a tal relação criança/adulto, profissionalizar o trabalho. Claro que é a solução também ansiada e procurada. A alternativa , compulsória, indesejada, é diminuir o grupo de crianças.
Assim fechamos outubro: refletindo sobre este problema e aproveitando os biscoitos que a Ângela doou.
sábado, 18 de outubro de 2008
SETEMBRO DE 2008
Setembro de 2008 foi marcado pela organização e realização das “Olimpíadas” do Projeto; oficialmente os “I Jogos do Projeto de Gente”.
Essa idéia já havia sido lançada desde antes do início das outras olimpíadas – as de Beijing 2008 - mas resolvemos esperar o término daquelas para esperar a possível inscrição de atletas que, naquele momento, estavam na capital da China.
Nossas modalidades esportivas foram: bandeirola, queimada, corrida com ovo, corrida com saco, corrida de mão (plantando bananeira), carrinho de mão, cordão (passar, andando para frente, por baixo de um barbante que vai se abaixando), embaixadinha, peteca, vôlei em dupla, xadrez, damas, dominó, tabuada, soletração, corrida de velocidade (alguns... bons... metros rasos) e salto em distância. Tal número de modalidades exigiu um esforço de logística impressionante por parte dos projetistas destes jogos.
O fato é que o pessoal de Beijing não compareceu. Concluímos que ou estavam desgastados por aquelas competições, mais o fuso horário, se porventura viessem, ou “amarelaram” mesmo. As opiniões se dividiram. Razoável!
Agora, falando sério: primeiro, nos atentamos para as regras que seriam seguidas nas provas. Uma proposta foi que não existisse a figura tradicional do juiz. Esta proposta aconteceu por conta da observação de um dos educadores sobre a ética com que as crianças jogavam queimada – um jogo em que, muitas vezes, a bola “pega” de raspão – trisca – um jogador que pode ou não acusar o lance. Ficou decidido que os próprios competidores seriam os juízes de si mesmos; que um observador estaria atento para resolver eventuais dúvidas; que o observador apenas interferiria se convocado pelos jogadores; que a decisão deste observador, nestes casos, seria plenamente aceita. Foi também decidido, em roda, que haveria, sempre que necessário, uma divisão por categoria de idade, peso, tamanho ou qualquer outra condição que implicasse em forte vantagem para certo competidor. Os times foram, então, formados buscando um equilíbrio de forças entre seus componentes. Assim, nas práticas coletivas, havia criança muito pequena jogando ao lado de outra grande. Foi interessante perceber táticas sendo elaboradas para que o jogo fluísse nessas condições (era divertido ver um pequenino escondido atrás do grandalhão que o protegia no jogo de queimada, por exemplo; ou um grupinho de pequeninos correndo juntos daqui p’racolá na bandeirola).
Por outro lado, também foi possível perceber como que, quando o jogo “vale ponto”, a ética fica ameaçada. Por mais de um momento aconteceram discussões que nas queimadas fora dos Jogos não aconteceriam. Belos temas para discussão e comentário depois dos jogos, tanto em conversas informais quanto nas rodas daqueles dias... e assunto para muitos dias. Essa circunstância também propiciou bons momentos de lealdade e integridade.
Os Jogos também puseram em evidência nosso problema em relação à reduzida equipe adulta de trabalho. Os poucos educadores precisaram se desdobrar para dar conta do recado. Também a questão da flutuação das crianças (comentado no diário de agosto), por vezes, dificultava a realização das provas nos tempos previamente combinados. Volta e meia recebíamos um recado dizendo que o menino ou a menina não poderiam vir naquele dia porque a mãe teve que ir trabalhar e a criança tinha que ficar tomando conta de outra criança – um exemplo. Nestes momentos ficou combinado (um aprendizado da prática) que os jogadores se reuniriam e decidiriam como fazer: a preferência era, sempre que possível, adiar a prova para que aquela criança pudesse participar; quando de todo impossível, ela era substituída por um companheiro ou companheira. Naturalmente que nas provas individuais tentamos sempre o bom momento em que todos os competidores estivessem presentes. Isto fez com que o cronograma das competições fosse ajustado a cada dia. Um bom exercício de tolerância, camaradagem e flexibilidade. Claro que, em alguns momentos, foi necessário viver a frustração de não ter todos os competidores reunidos para uma prova que não podia ser mais adiada. De toda maneira, bons exercícios.
Para registro:
Na bandeirola, competiram os seguintes times:
Vermelho – Allan, Flávio, Jaqueline, Mireli e Juliene
Laranja – Tássio, Flávia, Lidimara, Laiara e Tales
Amarelo – Rafael, Sula, Maciele, Iasmine e Sabrina
Verde – Douglas, Ana Paula, Eviton, Mávila e Vanderson
Azul – Renato, Letícia, Neuziane, Andrieli e Messias
Branco – Paraíba, Weber, Marina, Clayton e Abimael
O time Vermelho ganhou o torneio.
Na queimada:
Vermelho – Allan, Flávio (Sula), Jaqueline, Robson (Andrieli), Mireli e Juliene (Luli)
Laranja – Tássio, Douglas, Flávia (Sol), Jonas, Lidimara (Luli) e Juliele (Laiara)
Amarelo – Rafael, Ioane, Sula, Carlos Germano, Maciele e Ingrid
Verde – Douglas (Rafael), Ana Paula (Ismael), Eviton (Aurélio), Maiara (Flávia e Gistavo), Mávila e Iasmine
Azul – Renato (Andréia), Igor (Gustavo), Sabrina, Carlos André (Daniel), Letícia e Vanderson
Branco – Paraíba, Weber, Ramon, Marina (Sol), Clayton e Abimael
O time Vermelho ganhou o torneio.
Na soletração ganhou a Letícia, seguida pelo Flávio; e na competição de tabuada, ganhou o Aurélio, seguido pelo Ioane.
Dominó: Eviton, seguido pelo Aurélio e o Vanderson. No Cordão, ganhou a Maciele.
Na corrida de carrinho de mão: Talita e Juliele, entre os pequenos e Allan e Tássio entre os grandes.
As provas de velocidade foram divididas em três categorias:
A – Flávio ganhou; Aurélio, Ioane e Douglas seguiram.
B – Jonas venceu; Carlos André e Rafael logo depois.
C – Flávia ganhou; seguiram Maciele, Juliene e Juliele (essas duas, gêmeas, empataram!)
Na corrida de mão, ganhou o Carlos André; Douglas, Jonas e Guilherme também competiram.
O Ramon fez 21 embaixadinhas, ganhou; Renato, Douglas, o outro Douglas, Aurélio, Gustavo, Flávio, Rafael e Clayton também jogaram.
No torneio de vôlei, jogaram as seguintes duplas: Ioane e Rafael, Sol e Marlon, Neuziane e Sula, Tássio e Allan, Flávio e Igor, Eviton e Gustavo. Fizeram a final: Ioane e Rafael contra Tássio e Allan. Vencedores, depois de um jogo emocionante: Tássio e Allan
O salto em distância também foi dividido em três categorias:
A – Igor pulou 3,44m; Renato, 3,14; Douglas, 3,17 e Ioane, 3,14
B – Douglas, 3,70; Aurélio, 2,93; Rafael, 2,70; Flávio, 3,15 e Douglas, 3,21
C – Eviton, 2,82; Carlos André, 2,50, Lucas, 2,65 e Jonas, 2,65
Corrida com ovo; 2 categorias: Letícia correu mais do que a Talita e o Ioane; Carlos André mais do que a Sula e o Sol.
Na corrida com saco a Sabrina foi mais rapidinha do que a Maciele e o Ioane; e o Douglas mais do que o Sol e a Iasmine.
No torneio de peteca venceram o Allan e o Rafael; a Flávia e o Gustavo.
Xadrez: Allan, Ioane, Degenan e Sol chegaram ao quadrangular final. Infelizmente, o Degenan não pode fazer os jogos finais; ganhou o Ioane.
Neste ponto, lamentamos, muito lamentamos, a impossibilidade da continuação do trabalho do Paulinho Matos que trouxe o xadrez para o Projeto de Gente. Infelizmente, ele não pode continuar com a gente; porém, deixou uma fantástica semente – que, de verdade verdade, já deu até broto. Paulinho, nosso mestre de xadrez, não ensinou apenas que a dama anda para todo lado ou que o cavalo pula outra peça que estiver no caminho de seu ”L”, ensinou a linguagem e o valor dos combinados, das regras que organizam harmonia, bem-estar e alegria, convivência e vivência – quantas vezes não ouvimos, em pequenas vozes, o famoso: “peça tocada é peça jogada”. Apresentou o jogo para muitas crianças, descobriu apaixonados - feito ele -, e deixa saudades! Porta aberta, companheiro! Os tabuleiros pintados na tábua estão aqui e a criançada segue jogando (sempre de olho na porta aberta!). Aliás, Ioane, Allan, Sol, Degenan, Robson e Rafael resolveram criar o Grupo de Xadrez do Projeto de Gente – grupo sempre aberto e com a função de ensinar o que aprenderam para os novos que quiserem chegar.
No fim houve a premiação. As medalhas forma confeccionadas em plaquinhas de fórmica que a Monica, arquiteta, havia oferecido, há muito tempo, junto com muitos outros materiais. Ficaram lá esperando o momento preciso para ressurgirem do fundo do baú. Todos receberam suas medalhas, seja pela participação seja por terem conseguido, com seu melhor esforço, um resultado melhor do que os outros competidores que também deram tudo que podiam. Durante toda a competição conversávamos muito sobre a supervalorização do 1º lugar.
Além disso, foram criadas medalhas que premiaram pessoas que atuaram de forma justa. Por exemplo, o Sol recebeu uma medalha por ter vibrado de alegria quando os dois times propuseram refazer um jogo em que ele, Sol, havia se equivocado em uma decisão quando era o observador do jogo. Ele já havia decidido, percebeu, depois, o erro, comentou com todos e, no dia seguinte, foi surpreendido com a decisão dos jogadores. Foi muito bonito vê-lo vibrar por saber que seu erro, afinal, não iria prejudicar claramente um dos times. Louve-se também a atitude dos times, principalmente a do beneficiado pela decisão errada. Ioane e Rafael receberam medalha pelo belo exemplo de companheirismo quando, jogando contra um time claramente superior, não perderam a elegância, elogiando o parceiro a cada jogada e jogando com raça até o resultado final. Houve uma premiação especial para as pessoas que torceram muito por seus escolhidos e, elegantemente, não mangaram dos adversários.
Assim terminou setembro. Neste fim de mês recebemos a notícia que será necessário entregar a casinha do Projeto até junho de 2009. Já iniciamos a busca por um novo espaço. Também neste fim de mês fomos procurados pela Milena e o Luiz – donos da Pousada Rio do Peixe – que deram a idéia e se ofereceram para comprar cartões de fim de ano confeccionados, em papel reciclado, pela moçada do Projeto de Gente. Estamos, junto com o pessoal da Patrulha Ecológica, iniciando os preparativos para esta atividade.
Gente, seguimos em busca de patrocínio e adesões à Associação Projeto de Gente.
Até o mês que vem!
Essa idéia já havia sido lançada desde antes do início das outras olimpíadas – as de Beijing 2008 - mas resolvemos esperar o término daquelas para esperar a possível inscrição de atletas que, naquele momento, estavam na capital da China.
Nossas modalidades esportivas foram: bandeirola, queimada, corrida com ovo, corrida com saco, corrida de mão (plantando bananeira), carrinho de mão, cordão (passar, andando para frente, por baixo de um barbante que vai se abaixando), embaixadinha, peteca, vôlei em dupla, xadrez, damas, dominó, tabuada, soletração, corrida de velocidade (alguns... bons... metros rasos) e salto em distância. Tal número de modalidades exigiu um esforço de logística impressionante por parte dos projetistas destes jogos.
O fato é que o pessoal de Beijing não compareceu. Concluímos que ou estavam desgastados por aquelas competições, mais o fuso horário, se porventura viessem, ou “amarelaram” mesmo. As opiniões se dividiram. Razoável!
Agora, falando sério: primeiro, nos atentamos para as regras que seriam seguidas nas provas. Uma proposta foi que não existisse a figura tradicional do juiz. Esta proposta aconteceu por conta da observação de um dos educadores sobre a ética com que as crianças jogavam queimada – um jogo em que, muitas vezes, a bola “pega” de raspão – trisca – um jogador que pode ou não acusar o lance. Ficou decidido que os próprios competidores seriam os juízes de si mesmos; que um observador estaria atento para resolver eventuais dúvidas; que o observador apenas interferiria se convocado pelos jogadores; que a decisão deste observador, nestes casos, seria plenamente aceita. Foi também decidido, em roda, que haveria, sempre que necessário, uma divisão por categoria de idade, peso, tamanho ou qualquer outra condição que implicasse em forte vantagem para certo competidor. Os times foram, então, formados buscando um equilíbrio de forças entre seus componentes. Assim, nas práticas coletivas, havia criança muito pequena jogando ao lado de outra grande. Foi interessante perceber táticas sendo elaboradas para que o jogo fluísse nessas condições (era divertido ver um pequenino escondido atrás do grandalhão que o protegia no jogo de queimada, por exemplo; ou um grupinho de pequeninos correndo juntos daqui p’racolá na bandeirola).
Por outro lado, também foi possível perceber como que, quando o jogo “vale ponto”, a ética fica ameaçada. Por mais de um momento aconteceram discussões que nas queimadas fora dos Jogos não aconteceriam. Belos temas para discussão e comentário depois dos jogos, tanto em conversas informais quanto nas rodas daqueles dias... e assunto para muitos dias. Essa circunstância também propiciou bons momentos de lealdade e integridade.
Os Jogos também puseram em evidência nosso problema em relação à reduzida equipe adulta de trabalho. Os poucos educadores precisaram se desdobrar para dar conta do recado. Também a questão da flutuação das crianças (comentado no diário de agosto), por vezes, dificultava a realização das provas nos tempos previamente combinados. Volta e meia recebíamos um recado dizendo que o menino ou a menina não poderiam vir naquele dia porque a mãe teve que ir trabalhar e a criança tinha que ficar tomando conta de outra criança – um exemplo. Nestes momentos ficou combinado (um aprendizado da prática) que os jogadores se reuniriam e decidiriam como fazer: a preferência era, sempre que possível, adiar a prova para que aquela criança pudesse participar; quando de todo impossível, ela era substituída por um companheiro ou companheira. Naturalmente que nas provas individuais tentamos sempre o bom momento em que todos os competidores estivessem presentes. Isto fez com que o cronograma das competições fosse ajustado a cada dia. Um bom exercício de tolerância, camaradagem e flexibilidade. Claro que, em alguns momentos, foi necessário viver a frustração de não ter todos os competidores reunidos para uma prova que não podia ser mais adiada. De toda maneira, bons exercícios.
Para registro:
Na bandeirola, competiram os seguintes times:
Vermelho – Allan, Flávio, Jaqueline, Mireli e Juliene
Laranja – Tássio, Flávia, Lidimara, Laiara e Tales
Amarelo – Rafael, Sula, Maciele, Iasmine e Sabrina
Verde – Douglas, Ana Paula, Eviton, Mávila e Vanderson
Azul – Renato, Letícia, Neuziane, Andrieli e Messias
Branco – Paraíba, Weber, Marina, Clayton e Abimael
O time Vermelho ganhou o torneio.
Na queimada:
Vermelho – Allan, Flávio (Sula), Jaqueline, Robson (Andrieli), Mireli e Juliene (Luli)
Laranja – Tássio, Douglas, Flávia (Sol), Jonas, Lidimara (Luli) e Juliele (Laiara)
Amarelo – Rafael, Ioane, Sula, Carlos Germano, Maciele e Ingrid
Verde – Douglas (Rafael), Ana Paula (Ismael), Eviton (Aurélio), Maiara (Flávia e Gistavo), Mávila e Iasmine
Azul – Renato (Andréia), Igor (Gustavo), Sabrina, Carlos André (Daniel), Letícia e Vanderson
Branco – Paraíba, Weber, Ramon, Marina (Sol), Clayton e Abimael
O time Vermelho ganhou o torneio.
Na soletração ganhou a Letícia, seguida pelo Flávio; e na competição de tabuada, ganhou o Aurélio, seguido pelo Ioane.
Dominó: Eviton, seguido pelo Aurélio e o Vanderson. No Cordão, ganhou a Maciele.
Na corrida de carrinho de mão: Talita e Juliele, entre os pequenos e Allan e Tássio entre os grandes.
As provas de velocidade foram divididas em três categorias:
A – Flávio ganhou; Aurélio, Ioane e Douglas seguiram.
B – Jonas venceu; Carlos André e Rafael logo depois.
C – Flávia ganhou; seguiram Maciele, Juliene e Juliele (essas duas, gêmeas, empataram!)
Na corrida de mão, ganhou o Carlos André; Douglas, Jonas e Guilherme também competiram.
O Ramon fez 21 embaixadinhas, ganhou; Renato, Douglas, o outro Douglas, Aurélio, Gustavo, Flávio, Rafael e Clayton também jogaram.
No torneio de vôlei, jogaram as seguintes duplas: Ioane e Rafael, Sol e Marlon, Neuziane e Sula, Tássio e Allan, Flávio e Igor, Eviton e Gustavo. Fizeram a final: Ioane e Rafael contra Tássio e Allan. Vencedores, depois de um jogo emocionante: Tássio e Allan
O salto em distância também foi dividido em três categorias:
A – Igor pulou 3,44m; Renato, 3,14; Douglas, 3,17 e Ioane, 3,14
B – Douglas, 3,70; Aurélio, 2,93; Rafael, 2,70; Flávio, 3,15 e Douglas, 3,21
C – Eviton, 2,82; Carlos André, 2,50, Lucas, 2,65 e Jonas, 2,65
Corrida com ovo; 2 categorias: Letícia correu mais do que a Talita e o Ioane; Carlos André mais do que a Sula e o Sol.
Na corrida com saco a Sabrina foi mais rapidinha do que a Maciele e o Ioane; e o Douglas mais do que o Sol e a Iasmine.
No torneio de peteca venceram o Allan e o Rafael; a Flávia e o Gustavo.
Xadrez: Allan, Ioane, Degenan e Sol chegaram ao quadrangular final. Infelizmente, o Degenan não pode fazer os jogos finais; ganhou o Ioane.
Neste ponto, lamentamos, muito lamentamos, a impossibilidade da continuação do trabalho do Paulinho Matos que trouxe o xadrez para o Projeto de Gente. Infelizmente, ele não pode continuar com a gente; porém, deixou uma fantástica semente – que, de verdade verdade, já deu até broto. Paulinho, nosso mestre de xadrez, não ensinou apenas que a dama anda para todo lado ou que o cavalo pula outra peça que estiver no caminho de seu ”L”, ensinou a linguagem e o valor dos combinados, das regras que organizam harmonia, bem-estar e alegria, convivência e vivência – quantas vezes não ouvimos, em pequenas vozes, o famoso: “peça tocada é peça jogada”. Apresentou o jogo para muitas crianças, descobriu apaixonados - feito ele -, e deixa saudades! Porta aberta, companheiro! Os tabuleiros pintados na tábua estão aqui e a criançada segue jogando (sempre de olho na porta aberta!). Aliás, Ioane, Allan, Sol, Degenan, Robson e Rafael resolveram criar o Grupo de Xadrez do Projeto de Gente – grupo sempre aberto e com a função de ensinar o que aprenderam para os novos que quiserem chegar.
No fim houve a premiação. As medalhas forma confeccionadas em plaquinhas de fórmica que a Monica, arquiteta, havia oferecido, há muito tempo, junto com muitos outros materiais. Ficaram lá esperando o momento preciso para ressurgirem do fundo do baú. Todos receberam suas medalhas, seja pela participação seja por terem conseguido, com seu melhor esforço, um resultado melhor do que os outros competidores que também deram tudo que podiam. Durante toda a competição conversávamos muito sobre a supervalorização do 1º lugar.
Além disso, foram criadas medalhas que premiaram pessoas que atuaram de forma justa. Por exemplo, o Sol recebeu uma medalha por ter vibrado de alegria quando os dois times propuseram refazer um jogo em que ele, Sol, havia se equivocado em uma decisão quando era o observador do jogo. Ele já havia decidido, percebeu, depois, o erro, comentou com todos e, no dia seguinte, foi surpreendido com a decisão dos jogadores. Foi muito bonito vê-lo vibrar por saber que seu erro, afinal, não iria prejudicar claramente um dos times. Louve-se também a atitude dos times, principalmente a do beneficiado pela decisão errada. Ioane e Rafael receberam medalha pelo belo exemplo de companheirismo quando, jogando contra um time claramente superior, não perderam a elegância, elogiando o parceiro a cada jogada e jogando com raça até o resultado final. Houve uma premiação especial para as pessoas que torceram muito por seus escolhidos e, elegantemente, não mangaram dos adversários.
Assim terminou setembro. Neste fim de mês recebemos a notícia que será necessário entregar a casinha do Projeto até junho de 2009. Já iniciamos a busca por um novo espaço. Também neste fim de mês fomos procurados pela Milena e o Luiz – donos da Pousada Rio do Peixe – que deram a idéia e se ofereceram para comprar cartões de fim de ano confeccionados, em papel reciclado, pela moçada do Projeto de Gente. Estamos, junto com o pessoal da Patrulha Ecológica, iniciando os preparativos para esta atividade.
Gente, seguimos em busca de patrocínio e adesões à Associação Projeto de Gente.
Até o mês que vem!
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