quinta-feira, 23 de setembro de 2010
outubro de 2009
Outubro de 2009
No mês de outubro, realizamos os II Jogos do Projeto de Gente. As modalidades, tabelas e regras foram combinadas em muitas Rodas de Conversação. As medalhas foram confeccionadas na Oficina de arte da Eliana. Foram feitas de argila pelas mãos das próprias crianças, queimadas no forno da artista e, depois, pintadas nas cores do Projeto. Desta vez foi preciso realizar as competições durante os fins de semana, uma vez que, este ano, temos meninos e meninas em dois turnos. Assim, haviam times de jogos coletivos constituídos por gente da manhã e da tarde.
Toda a competição foi marcada pelas chuvas intensas que desabaram sobre a vila. Tivemos que adiar por, pelo menos, dois fins de semana os jogos. Claro que se dependesse da moçada a chuva não atrapalhava nada; porém, todos sabiam que muitos pais e mães iriam certamente nos escabrear. Decisão muxoxenta: adiar.
Como sempre, pudemos observar que, dado que “valiam medalha”, os jogos eram levados muito mais a sério do que no dia a dia de nossas atividades. Jogos que, comumente, duram 10 minutos, chegavam a durar 50, 60. Lances que, comumente, não eram discutidos, geravam dúvidas e muita conversa. Continuamos com a regra dos I Jogos: “nas competições não existe a figura do juiz, pois ninguém pretende trapacear”. A Cristina conversou sobre a diferença entre uma certa malícia inerente aos jogos e a trapaça propriamente dita. Foi mantida também a figura do observador que, quando solicitado, dizia o que havia visto – não era, portanto, um juiz.
Aqui estão as modalidades e os vencedores dos II Jogos do Projeto de Gente:
1.Xadrez – Degenan
2.Gamão – Sulamita
3.Dominó – Sulamita
4.Damas – neste momento ainda estamos conversando sobre o que fazer já que um dos finalistas, o Robson, precisou mudar-se da vila.
5.Soletrando – Ioane
6.Tabuada – Ioane
7.Queimada Brasil – Time C: Douglas Costa, Sol, Ismael, Sulamita, Cleiton, Alexandra e Olívia
8.Queimada Suiça – (faz parte de um projeto de brincadeiras do mundo; neste caso, a Alexandra - filha de um suiço (o Walter) e de uma angolana (a Dolores) – trouxe as regras) Time: Sulamita, Allan, Ismael, Luli, Bruno e Abimael.
9.Bandeirola – Allan, Weber, Bruno, Ricardo, Sulamita
10.Cinco Cortes – Allan e César
11.Vôlei de Praia – Ioane e Sol
12.Vôlei com 4 jogadores – Ioane, Douglas Costa, Ornan, Stefany
13.Vôlei com 01 jogador – Ioane
14.Futebol de dedo (peteleco) – Bruno
15.Futebol de Botão – Cleiton
16.Futebol de Areia – Cleiton, Bruno e Ricardo
17.Cordão – Ricardo
18.Cabo de Guerra – Douglas, Ornan, Sulamita, Mavila, Abimael
19.Peteca – Bruno e Cleiton
20.Corrida Simples – 3 categorias: Abimael, Mavila e Cleiton (vale dizer, três irmãos velocistas)
21.Corrida com Ovo – Cleiton
22.Salto em Distância – 3 categorias: Ricardo, Ana Paula e, empatados, Olívia e Abimael
23.Salto Triplo – 3 categorias: Ricardo, Olívia e Mavila
24.Torneio de Tirar Salto – Xaropinho
Estamos organizando a festa para a entrega das medalhas e que, provavelmente, será também uma comemoração de encerramento das atividades do ano. As escolas entram em férias na primeira semana de dezembro. Adiantando um ponto, estamos, este ano, tentando organizar uma atividade semanal durante as férias (provavelmente em torno do blog e alguns torneios de jogos – gamão, peteca, etc.
Este mês foi concretizada a compra de um computador portátil e um mini-modem (este vai chegar em novembro) que vão dinamizar as comunicações do Projeto com o mundo e também fortalecer a oficina de informática da Cristina. Esta compra foi possível graças a um baita esforço realizado pela Associação Projeto de Gente, lá no Rio de Janeiro. A Cristina, a Fátima, o Jorge e o João fizeram uma espetacular campanha e arrecadaram uma quantia que, além de comprar o lap-top, possibilitou a continuação do processo de qualificação da Associação como uma OSCIP. No demonstrativo financeiro estão – ou estarão proximamente – as planilhas da campanha e, também nos blogs, os nossos agradecimentos – aqui renovados – a todos que trabalharam na campanha e a todos que contribuíram financeiramente. Muito, muito obrigado!
Até novembro!
setembro de 2009
Setembro de 2009
Outro dia, em uma conversa, alguém se referiu a Cumuruxatiba como um grotão - “Aqui neste grotão acontecem coisas que não acontecem em outros lugares...”. Esta pessoa estava se referindo ao nosso distanciamento quilométrico dos grandes centros onde, aparentemente, acontecem as coisas que verdadeiramente movimentam o país. O grotão, portanto, parece ser um lugar onde o que quer que aconteça não é relevante para o país.
Cumuruxatiba: um pequeno distrito de um município de um estado brasileiro, um grotão dentro do país. Entretanto, aqui acontecem, por exemplo, eleições; existem instituições (posto de saúde e escola, outros exemplos) regidas pela constituição do Brasil; e, também aqui, vivem pessoas – crianças, jovens, adultos, idosos – que adoecem, vão às escolas, submetem-se às provas do IDEC, do ENEM, dos vestibulares, trabalham, casam, têm filhos e filhas, são filhos e filhas, sentem medos, carecem de alimentos e água pura; enfim, gente, pura e simplesmente gente. Gente pura e simples, gente impura e muito complicada, gente honesta, gente desonesta. Cumuruxatiba: um lugar como outro qualquer, único e igual a todos no país e no mundo; um corpo social, como qualquer outro, formado por corpos individuais, isto é, por pessoas singulares e iguais a todas as outras.
Otávio Velho levanta a hipótese, sociológica, de que “por trás da teoria dos grotões (…) oculta-se (…) o receio da autonomia de movimentos e pessoas”. (Carta Capital, 27/12/06, pg.27). E continua: “autonomia que ameaça os pequenos mundos dos condomínios...” e que, por isto, “resistem ferozmente contra as ações afirmativas que permitam uma reparação em favor de grupos (…) desfavorecidos”.
O grupo desfavorecido com o qual trabalhamos são os meninos e meninas. E porque seria este grupo desfavorecido? Será que os adultos estão realmente atentos ao que devem oferecer para que cada criança receba o que de fato ela precisa para ser quem ela é, espontânea e feliz? Será que estão cuidando da alma de cada criança para que ela, como diz Thomas Moore, de fato prospere? Será que, no final das contas, ao oferecer o que tradicionalmente oferecem às crianças, procuram mesmo é se sentirem apaziguados? Porém, apaziguados no sentido de que, assim, elas – as crianças – provavelmente não irão confrontar cada adulto com sua própria fuga de si mesma?
O Projeto de Gente tenta trabalhar estas questões ao buscar, em cada um de nós, a consciência de que cada menino e menina tem sua vocação pessoal e intransferível. Que têm o direito de manifestá-la e, mesmo não a conhecendo completamente, nós adultos, podemos, pelo menos, estar atentos para diminuir os obstáculos à sua manifestação e desenvolvimento. E, claro, aproveitar o mesmo campo para seguir em nossa contínua busca de reencontro com nossa própria vocação vital – isto significa nos ombrear às crianças.
Os trabalhadores do Projeto de Gente não devem se esquecer de que "as crianças tentam viver duas vidas de uma só vez, aquela com a qual nasceram e a do ambiente e das pessoas que as cercam", como escreveu James Hilmann. Pessoas e ambientes por um longo tempo tão importantes para as crianças que significam, para elas, a possibilidade de vida ou de morte – embora, pessoas e ambientes nem sempre atentos ao que elas, crianças, precisam para se sentirem plenamente vivas. Infelizmente, com mais ou menos consciência, com mais ou menos carinho, a maioria destas pessoas e ambientes organizam, não um natural campo de possibilidades (um poder ser) no qual as crianças possam descobrir a si mesmas e, assim, descobrir os caminhos de sua felicidade. Organizam sim um lugar com placas de direções tão estritas, com penalidades tão rigorosas aos que ousarem escolher outros rumos que, sufocantemente, quase determinam a rota a ser seguida.
O Projeto de Gente pretende ser um espaço onde cada criança possa se observar enquanto observa o mundo que cria, o próprio Projeto de Gente – sem medos ou ameaças. Este é o foco do trabalho: que o processo de individuação aconteça naturalmente durante as pequenas vivência cotidianas. Esta é a meta: que o Projeto seja um planeta, um país alternativo onde isto possa acontecer. Um país que não quer mudar qualquer vizinho, que deseja apenas exercer sua autonomia, isto é, o direito de desenvolver sua própria e efetiva legitimidade.
A maior parte do que falei até aqui é intangível aos que apenas se aproximam da casa do Projeto de Gente. Invisível aos que não se aprofundam nos fundamentos de nosso trabalho. Entretanto, não devemos abrir mão destes aspectos mesmo sabendo que eles, muitas vezes, provocam reações mais ou menos conscientes. Ao contrário, com delicadeza e persistência precisamos ter tais aspectos sempre em mente e presentes em todas as atividades do dia a dia. Ao mesmo tempo, precisamos encontrar estratégias para alcançar recursos que vão possibilitar a formação de uma equipe coesa e trabalhando em tempo integral. Profissionais que, junto com os voluntários, estarão oferecendo suas habilidades pessoais e buscando alcançar as metas próprias ao Projeto.
Neste mês de setembro percebemos uma tendência de mudança na composição do grupo de meninos e meninas frequentadores do Projeto de Gente. Primeiro, uma diminuição no número de participantes; segundo, uma diminuição na idade média dos novos meninos e meninas que apareceram perguntando sobre a possibilidade de participar.
Alguns fatores foram também observados para explicar tais tendências. (1) Crianças com mal desempenho nas escolas e que – fim de ano, provas finais à vista – eram, então, proibidas de frequentar o Projeto. Procuramos alguns pais e mães lembrando que estas crianças poderiam estudar no próprio Projeto. Alguns passaram a levar trabalhos e estudo, porém, dependendo da condição econômica, alguns preferem colocar seus filhos nas “bancas”, aulas de reforço que, por conta do grotão em que vivemos, são os próprios professores das escolas. (2) Percebemos que, há dois anos atrás, os meninos e meninas que primeiro nos procuraram tinham, em média, 9, 10, 11 e 12 anos. Segundo o depoimento de um destes meninos, hoje com 13 anos, “agora a gente tem muitos outros interesses!”. Disse isto com um belo e discreto sorriso e um olhar meio de viés. De fato, o formato atual do trabalho privilegia a moçada de idade menor. As oficinas e atividades mais comuns – artes, jogos,etc – tendem a ser mais atraentes para os, vamos chamar assim, pequenos. Os maiores que seguem frequentando a sede do Projeto são exatamente aqueles que, com mais ou menos consciência, percebem as particularidades do Projeto de Gente. É também possível observar um certo ir e vir destes meninos e meninas adolescentes. É como se colocassem o vir ao Projeto junto aos tais outros interesses. (3) A bem vinda organização de outras atividades para a moçada: o teatro do Juan, o vôlei do Jeff, o futsal do Lúcio, a escola de vela do Aldo, Giorgio e Rogério. Além disso, o Curumimbatuque e a dança afro continuam em plena atividade. Claro que nem todos participam de tudo, mas, como nas cidades grandes, a agenda fica cheia, os interesses se organizam e o cansaço bate; além dos pais e mães, novamente, pressionarem para que as crianças tenham tempo para estudar as coisas da escola. Vale dizer que nada do item 3 é problema, pois existem crianças suficientes para até mesmo outros projetos.
Fiéis a um dos princípios básicos do trabalho não forçamos nada, apenas nos mantemos como campo receptivo. Achamos que é necessário aceitar este movimento, aproveitá-lo e, ao mesmo tempo, pensar em estratégias que possam envolver mais e mais os mais "velhinhos" e acolher a "2ª geração" do Projeto...
Diretamente de um grotão deste imenso Brasil, um grande abraço e até outubro!
Agosto de 2009
Agosto de 2009
Resolvemos comemorar o 2º ano de trabalho com a realização dos II Jogos do Projeto De Gente. Como ainda acontece, quando se pergunta quem quer participar da organização, todos querem; porém, na hora dos encontros tem sempre uma outra atividade atraente acontecendo – um jogo, uma conversa. Os encontros, portanto, acabam acontecendo com um número menor de pessoas, o que gera questões lá na frente: “Eu não sabia que ia ser assim!”... “É, mas isto aí foi decidido pelo grupo que estava na reunião e todo mundo já tinha concordado que quem estivesse decidia!”... “Ah! Mas eu não 'tava!”... “Och! Cê não entendeu nada então, num devia estar prestando atenção na hora que decidimos assim!”...
E assim, reveladas suas fragilidades, se constrói a democracia! Uma coisa fica clara: mais que o momento do voto, o que deve realmente configurar o espaço democrático é o momento da troca de ideias, o momento do debate, da conversa. Aí sim, garantida a livre manifestação e a escuta atenta, é que se constrói uma sociedade solidária, respeitosa e democrática.
Quanto tempo para que a moçada perceba que suas vozes serão escutadas aqui neste lugar? Que serão ouvidos e levados em conta, cada um, seja grande ou pequeno? Que a gente grande perceba que não tem poderes absolutos, e sim responsabilidades próprias de sua posição? Que, na maioria das vezes, não sabemos o que é melhor para o pequeno, a não ser que ele tenha a chance de manifestar o que lhe é melhor? Que o adulto tem voz e voto equivalentes a cada menina e menino? Equivalente, dissemos, não igual: a criança não é tratada como um adultinho, mas é uma pessoa com sua própria e legítima compreensão do que acontece à sua volta. Uma compreensão que vai se juntar à dos outros para compor o mosaico vital daquele grupo, daquele corpo social e que, por isto, merece toda atenção.
Este mês percebemos um menor fluxo de crianças. É como se houvesse passado a novidade, aquele lugar que tem tintas, lápis de cor, argila e de onde podemos sair e chegar à hora que quiser, já é conhecido. O apelo do mundo, dos modismos, das atitudes que “garantem” o lugar num grupo faz seu trabalho também. Principalmente os meninos sentem este apelo; é como se o Projeto fosse identificado como coisa de criança, um lugar para se brincar.
Naturalmente existem aqueles que vão compreendendo que existe alguma coisa diferente ali. Existem até mesmo os que se afastaram, mas retornaram sem se dar conta, de modo claro, de suas motivações. Ainda outro dia um educador, conversando com um menino (14 anos), percebeu que um certo acontecimento de meses atrás influenciou em sua decisão de frequentar novamente o Projeto de Gente. Há meses este rapaz estava lendo um livro da pequena biblioteca. Num certo capítulo ele encontrou uma situação que o emocionou muito. Esta situação pode ser, embora não integralmente, conversada com o educador. Porém, como frequentemente acontece com quem se depara com temas sutis e sensíveis – frequentemente assustadores –, ele se afastou (a famosa resistência nos movimentos terapêuticos). Alguns meses se passaram e ele, aos poucos, foi retomando contato com o Projeto: avisava que vinha, não vinha... Avisava que vinha, não vinha... Avisava... Uma brincadeira começou a acontecer entre o educador e o menino. “Eu vou lá amanhã!”... “Eu sei que você vai. Só não sei se é amanhã!” Um dia, veio e está vindo, ainda um tanto irregularmente, mas vindo
A equipe de trabalho é pequena. Apenas a oficina de informática – da Cristina – e a de arte – da Eliana – estão efetivamente organizadas. A Ângela também vem uma vez na semana para dar um apoio. O Shal conseguiu um trabalho na escola e o tempo ficou curto para ele em relação ao Projeto. Nos defrontamos com a velha e conhecidíssima questão sobre voluntariado: apenas a vontade e o entusiasmo não sustentam um colaborador no trabalho. Ele precisa “ganhar” a vida e então o emprego se impõe.
No momento em que estamos, do tamanho que somos, na casa em que estamos alojados, seria ótimo se o Projeto de Gente tivesse mais um funcionário em tempo integral. Duas pessoas poderiam criar uma rede de atenção e cuidado cotidiano. Um exemplo disto: em um dia – 3ª feira - da oficina de arte oferecida pela Eliana, a Jaqueline – uma amiga do Projeto – trouxe 4 crianças para passar o dia com a gente. Pois bem, ela ficou durante a tarde e se envolveu nas atividades com outras crianças que não estavam na oficina. Bastou este movimento da Jaqueline para que o outro educador tivesse uma disponibilidade visivelmente maior para cuidar de situações que surgiram. Em um dia comum ele certamente, não teria este tempo e possibilidade.
Além disto, dois trabalhadores poderiam manter mais vivos e ativos os conceitos do trabalho que carecem de atenção a pequenos detalhes que os meninos e meninas revelam, por exemplo, em um jogo de bola ou gamão. Trocas também mais efetivas poderiam ser realizadas entre estes dois observadores do cotidiano. Embora as oficina de arte e informática sejam frequentadas por um bom número de pessoas, existem as que não se interessam por estes temas ou tenham presença ocasional. Nestes casos a atenção possível da Cristina e da Eliana ficam, naturalmente, limitadas.
Outra situação que deixou estas questões bem à vista: o único educador em tempo integral precisou viajar – ou melhor, desejou e seu desejo foi acolhido por todos: gente grande e pequena. Porém, durante a semana desta viagem foi deliberado que seria melhor não abrir as portas do Projeto. Ora, este trabalho não pode depender, nem um dia sequer, de uma única pessoa. Entretanto, também ficou claro que, neste momento, não temos uma equipe em número (não em qualidade) suficiente para cuidar das crianças numa circunstância como esta.
Aí está um de nossos propósitos mais urgentes: ampliar a equipe. Como sempre dizemos, primeiro precisamos de gente; depois, de gente; aí então, mais gente; e, só depois,... gente...
Um grande abraço, gente!
Julho/2009
Diários de Cumuruxatiba
Julho de 2009
Julho traz a sensação de conclusão de um ciclo. O Projeto de Gente está há dias de completar seu 2º ano de existência em Cumuruxatiba. É difícil escapar do impulso de realizar uma retrospectiva, um inventário de perdas e ganhos.
Desde quando o Projeto de Gente tem vida e existência? Resposta: Desde quando alguém teve uma ideia inicial? Desde quando um grupo de pessoas se reuniu para pensar, sentir o Projeto? Desde quando alguém veio para Cumuruxatiba apresentar os conceitos do trabalho? Desde quando a 1ª criança entrou na casa do Morro do Cantagalo? Como se vê, nenhuma afirmação e assim vamos seguindo em frente.
Jung disse que o ser humano, quando se defronta com algo, usa seu aparato sensorial: vê, toca, cheira, sente o gosto, percebe que algo existe; depois, pensa, reflete sobre o que viu, tocou, cheirou e pergunta-se: “o que é este algo?”, “para que ele me serve?”; finalmente, tem um sentimento sobre este algo: “gosto disto?”, “não gosto?”; de posse destes elementos o ser humano age: acolhe, rejeita, ou realiza qualquer outro movimento. Jung também disse que a intuição também faz parte desta equação. Muitas vezes sem tocar, ver, ouvir, etc, misteriosamente, uma pessoa “sente”, intui sobre algo, reflete sobre ele, tem um sentimento e age.
Os trabalhadores do Projeto de Gente, no primeiro momento, não tinham nada para tocar, ver ou cheirar; tinham uma espécie de intuição, uma crença. Porém, acreditaram no que intuíram, creram, apesar de não terem uma casa nem uma metodologia experimentada. Não tinham, enfim, existência aparente. Entretanto, já viviam algo; viviam e buscaram – buscam – existir. De fato, exigem o direito de existir, exigem que sua legitimidade seja reconhecida. Como qualquer menino e menina, que agora dele participam, exige o direito de existir tal como é. Desejam viver sua existência em consonância com suas crenças, querem viver como acreditam, existir como acreditam, querem ser e existir sem esquizoidia.
Tentamos construir este lugar – o Projeto de Gente – em contato estreito (dentro mesmo, fazendo parte) com um outro lugar: uma estrutura social, também chamada de “realidade”. Esta estrutura, por sua vez, é constituída, majoritariamente, por pessoas que não existem como realmente (ironia!) desejam, não vivem como realmente desejam, não fazem em seu cotidiano o que realmente desejam, não são quem realmente são. Compõem, portanto, uma esquizoide e ilusória sociedade. Ilusória, porém legitimada, o que lhe dá contorno de realidade. Tão poderoso é este contorno, tão bem guardada é esta fronteira que qualquer um, esteja onde estiver, é observado de acordo com suas leis e por elas julgado e condenado.
Um exemplo do encontro – choque – entre duas estruturas como as que descrevemos pode ser visto no contato dos brancos europeus e os negros do sul da África. Os europeus, segundo diz Hannah Arendt, mais, muito mais, do que a cor da pele se sentiram chocados ao perceberem, com maior ou menor consciência, como aquele povo se comportava como se fizessem parte da natureza. Para eles, europeus, era realmente “como se”, isto é, uma ilusão. Pare eles, os verdadeiros seres humanos estavam acima, no comando, dominando a natureza. Não se deram conta, pois não poderiam, de que a verdadeira ilusão havia sido construída por eles, os civilizados brancos. Na verdade,é seguro que, em algum ponto – um oculto ponto – perceberam, tanto que, assustados com aquele comportamento, consideraram aqueles negros estranhos à espécie humana, julgaram-nos como subversivos e os condenaram a serem “coisas” que podiam ser usadas de acordo com o mesmo critério que os autorizava a usar a madeira de uma árvore como um mero recurso a ser explorado em prol dos seres, estes sim, superiores. “Superiores” porque separados da natureza, porque “Senhores” da natureza. Seres fragmentados que separaram-se exatamente para, pretensa e ilusoriamente, colocarem-se acima, pois sentiam-se ameaçados, assustados com o apelo da vida dentro de cada um. Separaram-se da Natureza e fragmentaram-se também a si mesmos, um por um, cada um, organizando-se, deste modo, desvinculados da existência plena. Forjaram-se seres sem autonomia, pois não eram mais quem de fato eram, não atendiam mais seu próprio “grito vocacional”, não atendiam mais à sua própria legalidade, criaram, então, padrões, a serem seguidos, padrões externos, visíveis, chamados materiais – parte da unidade vital, agora confundida com a totalidade. Reconhecendo apenas padrões, separam-se: um povo do outro, uma crença da outra, cada um de cada um. Separam-se e constroem altos muros, vigiam brutalmente suas fronteiras.
Tudo que, no parágrafo acima, foi escrito no passado deve ser lido também no presente
Mas, vamos voltar ao inventário: dois anos depois de chegar a Cumuruxatiba o Projeto de Gente é visível, tem existência, pessoas veem sua sede, conhecem as crianças que o frequentam, têm ideias a respeito, têm sentimentos sobre seus conceitos – muitas vezes mesmo sem entendê-los muito bem. Com maior ou menor consciência se perguntam sobre o que o Projeto de Gente traz para seus filhos e filhas. Perguntam-se: por causa do Projeto eles vão ter menos dificuldade na escola?, vão passar de ano mais facilmente?, vão aprender uma nova língua?, vão ter sua entrada no mercado de trabalho facilidada?, vão ter mais disciplina para cumprir suas obrigações?, vão ter ajuda para fazer seus “para casa”?, não vão precisar mais de “banca” (aulas particulares)? Perguntam o que a tal realidade lhes impõe.
Mas, o que o Projeto de Gente pretende? Ser aceito pelos resultados que o paradigma dominante afirma? Ser reconhecido como um lugar onde os meninos e meninas vão e se tornam os melhores alunos em suas escolas? Os mais comportados? Os que obtêm melhores performances nos vestibulares? Certamente que sim, este é um propósito do Projeto de Gente, porém, se - e só se - estes forem os caminhos que realmente alguns meninos e meninas desejam seguir.
O Projeto de Gente existe e trabalha para que os meninos e meninas percebam que podem, mais que podem, têm o direito de seguir um caminho que junte o ser e o existir de cada um deles; que cada um pode, mais que pode, tem o direito de manifestar-se de acordo com o misterioso ser que vibra – e emana estas vibrações – em sua intimidade; que podem, têm o direito de se ver como parte do mundo natural; que podem, assim, recuperar sua autonomia. Para isto é preciso que não precisem seguir tantos “tenho que...”, “tenho que, senão...”.
Há poucos dias, um educador do Projeto, conversando com algumas crianças concluiu, junto com elas, que estavam agindo, em uma certa situação, exatamente como não desejavam. “A gente quer mesmo que as coisas sejam assim?... Não, claro que não!... E assim?... Claro que não!... Então, porque será que a gente acaba fazendo como não deseja?...” Vários lembraram que todo mundo sabe que fumar faz mal à saúde, que não se deve poluir a água porque ela vai acabar mesmo, que não se deve desmatar ou fazer queimadas de qualquer jeito. Ficaram ali, meio em silêncio, sem ter uma resposta clara sobre o porque agimos tantas vezes como não desejamos.
Uma parte da resposta talvez seja: agimos assim porque não queremos arriscar nossa pretensa superioridade, nossa pretensa segurança. Abrimos mão de nossa autonomia porque ela nos coloca em diálogo íntimo, profundamente íntimo, com a Natureza. E, neste diálogo, descobrimos que não somos superiores, descobrimos que seguimos leis que desconhecemos. Descobrimos que nossa autonomia, isto é, nossa “capacidade de especificar e manifestar nossa própria legalidade, aquilo que nos é próprio” deve, necessariamente, incluir a plena interdependência entre todos os seres que, juntos e igualmente importantes, compõem a natureza. Então, apavorados, não queremos ser íntimos da Natureza, queremos ditar as leis. Assim, só nos resta um caminho: ser sempre e cada vez mais, compulsivamente, superiores, acima, no topo do que não tem topo.
Aí esta, portanto, a crença que os trabalhadores do Projeto de Gente não podem perder de vista: oferecer campo, livre, no qual os meninos e meninas possam observar a si e ao mundo – o que criam e o que está à sua volta –, onde possam perceber sua legalidade, e a forma mais harmônica de vincularem-se, autônomos, ao mundo. No Projeto de Gente eles podem olhar para si mesmos e mostrar o que veem sem receio de não serem aceitos. Para isto usamos o jogo de queimada, o dos 5 cortes, a oficina de argila, de artes e a de informática, também durante a conversa enquanto se joga gamão ou xadrez, na hora do lanche ou num papo debaixo da árvore.
A maioria dos projetos relacionados à criança e ao adolescente têm objetivos visíveis e facilmente apreendidos. Ótimo, embora possamos fazer alguns comentários sobre como, muitas vezes, uma ilusão está sendo criada ao se esperar que dali saia um futuro campeão com sucesso, fama e dinheiro garantidos – embora, nem sempre felizes. O Projeto de Gente, por sua vez, tem também um objetivo – principal e central – que não apenas é invisível, é também, muitas vezes, indesejável por um grande número de pessoas: ser uma usina de autonomia, de liberdade. Liberdade que não implica em fazer simplesmente o que se quer, mas sim fazer o que se quer junto, ao outro, com o outro, às claras. As ferramentas que usamos – oficinas, projetos de saber variados – são importantes por si mesmas, porém são ferramentas cuja função primordial é, como já dito e redito, propiciar contato da criança consigo mesmo e com o mundo que ela ajuda a construir; ferramentas que geram senso crítico e harmonia; percepção de alternativas mais próximas de sua própria legalidade, de seu direito de ser e existir na rede da vida.
O Projeto de Gente precisa de mais gente, de mais paciência, de mais força e mais coragem para não se exigir estar no lugar do qual ainda está longe. Encontrar força para mostrar – muito também para os adultos que dele participam – que um velho vício, tão velho que nem é mais percebido como vício e sim como uma atitude normal (o normal confundido com o mais comum, a ilusão com fôro de verdade porque tantas vezes repetida), que este vício, repetimos, pode ser desconstruído, lentamente desconstruído, que o que o motivou pode ser percebido de outra maneira e que, então, uma outra estrutura pode ser erguida. Não mais uma estrutura destoante e distante do núcleo, da fonte de cada um que a constitui, de cada pessoa tão única, tão semelhante a todos os outros; e sim, uma estrutura que não esconde a sensibilidade, o medo de cada um é (medo que, escondido, apenas aumente e exige mais e mais defesas).
A cada dia nós, trabalhadores do Projeto, somos confrontados com nossos próprios fantasmas, nossos medos, incluindo o de não sermos aceitos pelo que é considerado real e legítimo.
Até o mês que vem!
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Novembro/dezembro de 2009
Encerramento do ano de 2009
Em 05 de dezembro foi realizada a festa de encerramento de atividades no ano de 2009 do Projeto de Gente.
A programação: concurso de desenhos, entrega de medalhas dos II Jogos, apresentação de uma peça teatral, apresentação dos meninos e meninas do Projeto que participam do Curumimbatuque e do SerMovimento (o 1º, um grupo de percussão; o 2º, um grupo de dança afro-indígena; os dois são atividades culturais levadas a efeito pelo esforço voluntariado de algumas pessoas da vila – Walter, Rauã, Cauã, Aldo, Juliana, Lucinha, Nanda... e mais gente que não estão esquecidos, apenas não estão nomeados aqui por culpa exclusiva da estropiada memória de quem escreve!) e festa propriamente dita.
Bons movimentos se fizeram presentes logo na preparação do cenário da festa. A Nudi chegou, de surpresa, com um bonito cartaz anunciando: Festa do Projeto de Gente. Logo depois, chegou um bolo de chocolate com as letras PDG – que é como as crianças abreviam Projeto De Gente . O bolo foi patrocinado pela D. Lúcia da farmácia e preparado pela Lucinha, a das cocadas. A Gili e a Jaqueline também prepararam um belo bolo em formato de tobogã – um lado era bem mais alto do que o outro, o que provocou muito riso; outro trouxe um refri – aliás, 2, 3, 4... e a geladeira ficou cheiinha. Outro trouxe um saquinho de suco. Chegou a pipoca da Lulu, o delicioso bolo alemão da Claudia. Alguém trouxe uma torta de banana – quem foi que cometeu esta delícia? A Cristina Leme embrulhou num lindo papel – azul e verde – cheio de fiapos, uma por uma, uma montanha de balas de coco. As crianças prepararam cartazes de boas vindas e o cenário do teatro. Fiéis ao convite cada um trouxe o que pode, fez o que pode.
Aliás, o convite:
CONVITE
….............................
Dia da festa: 05 de dezembro de 2009
Hora: 2hs da tarde
Local: na sede do Projeto de Gente
Cada menino e menina colocava seu nome e, de acordo com a combinação feita, convidava duas pessoas. Foi interessante ver alguns combinando entre si para que não fosse desperdiçada nenhuma possibilidade de convidar um alguém já convidado pelo outro.
A festa começou. Concurso de desenhos. À medida que os desenhos estavam prontos a Gili e a Eliana, participantes do júri técnico, perceberam que deveria haver uma categorização por idade. Tinha gente de 07, 08 anos e gente de 15, 16, fazendo desenhos. No blog Maré da Gente já tem algumas fotos dos trabalhos e da festa.
Na hora da entrega das medalhas dos Jogos apareceu uma convidada inesperada e indesejável. Foi um problema, pois não tínhamos como mandá-la embora. E, diga-se de passagem, contrário a todos os conceitos de inclusão do Projeto de Gente, foi completamente unânime o desejo de expulsar este ser. Era a companhia de energia elétrica que sempre que aparece nos eventos da vila, não se sabe porque, não traz consigo a... LUZ!!!!! Logo naquele dia que tínhamos conseguido – o Rico emprestou – uma bela caixa de som com amplificador, microfone e aparelhagem de CD para as apresentações. Foi de lascar!
Daí, tudo que estava arrumadinho se transformou na máxima dita pelo Flávio durante os ensaios: “Luzes... Câmara... Confusão”. Mas, funcionou mesmo assim; a moçada é mesmo criativa e, tirando o estresse de um ou outro adulto, tudo aconteceu!
Mudamos a ordem das coisas na esperança de que, pelo menos na hora do teatro, chegasse a luz que, tínhamos certeza, estava tentando driblar sua opressora, a COELBA – a empresa de desenergia.
As apresentações de dança afro puderam ser realizadas contando com a astúcia da meninada do batuque – mestres na arte do ritmo e do improviso. Menos mal; aliás, para alguns, mais bom, pois a moçada tem mesmo baticumbum no espírito, no coração, pulmões, veias e artérias!
No meio da dança a Luz apareceu, ofegante em sua velocidade, mas apareceu! Palmas para o batuque, para as meninas e meninos... e também para ela – a luz.
A peça de teatro foi inspirada no trabalho do Pedro Paulo Rangel – a Soppa de Letras. Ele teatralizou letras do Chico Buarque de Holanda. No nosso humilde caso – pedindo licença aos mestres Rangel e Buarque – criamos quatro esquetes que se interligavam. No 1º, um casal separado há algum tempo se encontrava por acaso. A moça, engasgada ainda com o jeito com que aconteceu o fim do relacionamento, resolve desabafar e fala “Olhos nos Olhos”. No 2º, outro casal, separação recente, se encontra em sua antiga casa, onde agora ela mora só, para ele pegar alguns objetos que faltavam. Ele, triste, resolve também desabafar e o faz com “Trocando em miúdos”. Depois o 3º esquete, ambos se encontram num bar, em mesas separadas, com amigos. Ela e ele falam, como num jogral “Mentira” - não é este o nome da canção... Quem souber publique nos blogues!. Finalmente, todos vão para um baile de Carnaval e, na porta, os dois separados se veem, arrepiam-se e falam “Quem é você?”. Tudo termina numa festa de carnaval com direito a confete, serpentina, pierrot e colombina. Entre cada esquete um trechinho de Chico “ao vivo” cantando exatamente as tais canções.
Sentiram a importância da energia elétrica? Felizmente, ela chegou a tempo de participar. Por outro lado, os atores estavam inquietos com a possibilidade de não acontecer o espetáculo. Foi lindo o esforço de concentração deles. Nem tudo correu como no ensaio, mas o suficiente para sermos convidados a nos apresentar no verão!
Depois, muito cachorro quente, bolos, pipoca e refris.
Novembro fez lembrar, em vários momentos, uma cena do John Woo. Neste filme ele coloca um civil patrocinando o roubo de um míssil atômico. O executor da ação é um militar que, cansado, do nervosismo do civil dá um “chega p'ra lá” nele dizendo: “Cara! A vida é igual a uma batalha, nunca sai de acordo com o planejado! A gente tem que aceitar o que acontece e agir, improvisando, aceitando o que aconteceu, vivendo!”. Tirando o fato de que, nós do Projeto de Gente, somos basicamente pacifistas e, portanto, não “brigamos” por nossos planos, trabalhamos por eles, a fala do Travolta cabe como perfeito aprendizado.
Paulo Freire comenta na “Pedagogia da Autonomia”: “Ao ser produzido, o conhecimento novo supera outro que antes foi novo e se fez velho e se “dispõe” a ser ultrapassado por outro amanhã”. Infelizmente, para muitas pessoas, domesticadas pelos padrões vigentes, assustadas por demais para se arriscarem no que, de fato, sentem e pensam, o agir é predeterminado, amarrado como uma roseira que, se presa por um barbante, vai se entortando, entortando até tomar o rumo pretendido por quem quer que tenha usado o tal barbante. O rumo livre do novo que se faz velho para um novo que se fará velho estará comprometido. A simples equação da vida onde o que se organiza se desorganiza para se reorganizar está violada.
Infelizmente, esta trajetória forçada pode ser, dia a dia, confirmada nas ações dos meninos e meninas que, desde cedo – muito mais cedo do que muitos educadores do próprio Projeto de Gente puderam imaginar – , se veem coagidas, sob a possibilidade de penas severas, a adotar leis e ritmos que não são os seus próprios ritmos e leis. Meninos e meninas com seu crescimento engessado, a coluna quebrada, a vontade e o desejo esquecidos.
Assim, como as crianças, o Projeto vive em seu dia a dia acontecimentos que não eram esperados no planejamento de sua implantação e desenvolvimento. Pessoas, mesmo muito próximas mas desacostumadas ao verso de Leminski: “Nunca erro duas vezes, erro logo 3, 4, 5, 6 vezes, até o erro mostrar que o erro também tem fez” (na verdade, ele, o poeta, é mais radical e diz que apenas o erro tem vez, a gente pede licença a ele e coloca nossa crença), apontam com severidade para circunstâncias que, no mais das vezes, são conhecidas dos trabalhadores do Projeto. São de fato conhecidas, porém, outras circunstâncias – estas muitas vezes invisíveis aos que comentam, apenas conhecidas pelos trabalhadores do cotidiano – impõem uma rota imediata, urgente. E viva o cara que escreveu os diálogos do filme do Woo que nos ensina como agir, como viver estas situações!
É assim que o trabalho vai sendo levado adiante. Ainda outro dia dois educadores conversavam sobre como as qualidades de um deles poderiam estar melhor aproveitada se existisse uma pessoa disponível para fazer alguns trabalhos também essenciais para os meninos, meninas e para o próprio Projeto de Gente. Pelo fato desta tal pessoa ainda não fazer parte da equipe – falta de recursos financeiros impedem sua contratação – certos aspectos são vistos como negligenciados por gente que passa na periferia do Projeto.
Alguns dizem que devíamos fazer assim, outros assado, existem os que reclamam de um ponto, de outro. Quase sempre todos estão certos. Resta o consolo que, de modo geral, a gente sabe disto; apenas, por variados motivos, não damos conta de alcançar tudo. Aliás, não sabemos se estamos lentos, no tempo correto ou mesmo se avançados no cronograma. Cronograma?
Qual o cronograma para a descoberta, desenvolvimento e integração de um serzinho à vida? Responda rápido: você conhece a si mesmo? Está desenvolvido na medida? Integrado à vida como gostaria? Sabe nos dizer qual foi – ou é – seu verdadeiro cronograma de vida? Seu verdadeiro destino? Percebe se aqui ou ali segue um cronograma equivocado?
Desculpe, não responda rápido; responda com vagar. Leve o mês de dezembro para isto. Fim de ano, bom momento para reavaliações.
O Projeto de Gente faz seu tradicional recesso seguindo as férias escolares. Estaremos também, podem acreditar, em processo de reavaliação.
Em 2010, teremos, pelo menos uma novidade: durante as férias, este verão mais longas, teremos atividades uma vez por semana no Projeto. Será uma forma de manter contato mais próximo com a moçada que apenas voltará ao Projeto – e às aulas – em março.
Pelo terceiro ano consecutivo, saudações cumuruxatibenses e projeteanas! Um belo fim de ano repleto de reavaliações e muita coragem!
sábado, 11 de julho de 2009
Maio e Junho/2009
Quando lhes é oferecido um campo no qual suas vozes serão ouvidas é comum, muito comum, ouvirmos o silêncio, ou palavras inteligentes mas sem alma, palavras que serão – já o sabem! – aceitas e aplaudidas, ou um murmúrio seguido de silêncio e olhos baixos, ou a reação agressiva, os sinais do descrédito.
Volta e meia surge, nos educadores, a sensação de que é necessário que se institua a obrigatoriedade de comparecimento ao Projeto e na Roda, isto é a obrigatoriedade do exercício da democracia, a obrigatoriedade do exercício da livre expressão. Obrigar à democracia? Obrigar à espontaneidade? Obrigar à livre expressão? Vara de marmelo, palmatória, joelho no milho até que a naturalidade seja (re)conquistada? Existe um meio-termo ou qualquer meio-termo, neste momento, é jogar brasa (meia-brasa) na fogueira?
“... o que fazer para que o ser humano se veja (...) parte do mundo natural? Para tanto, é preciso que ele observe a si mesmo enquanto observa o mundo”, disse Humberto Mariotti. Este é o propósito, dito utópico por muitos, do Projeto de Gente. E segue Mariotti: “Este passo é fundamental, pois permite compreender que entre o observador e o observado (entre o ser humano e o mundo) não há hierarquia nem separação, mas sim cooperatividade na circularidade”.
E então, as questões acima, obedecendo a tal circularidade voltam-se para nós, adultos. Conseguimos, enquanto observamos, enquanto cuidamos, observar a nós mesmos? Cuidar de nós mesmos? Podemos aceitar que não há hierarquia nem separação, mas sim cooperatividade? Aceitar que não existem melhores ou piores, mas sim possibilidades diferentes? Podemos construir um saber cuidar oriundo, não da opressão, da superioridade, mas sim do simples conhecer, do simples viver? Podemos distinguir a fronteira entre cuidar – mãos que aconchegam – e o impor – mãos que sufocam? Podemos sentir os meninos e meninas como mestres que apontam nosso desconhecimento, nossos erros, nossos medos, que provocam nossa própria reatividade? Podemos reconhecê-los mestres que apontam, eles mesmos, seus caminhos, embora precisem melhor conhecê-los e mais adquirir habilidades para, então, trilhá-los?
Maio e junho de 2009 foram meses tranqüilos no Projeto de Gente. Tranqüilos com todas estas perguntas. O dia a dia transcorreu em paz, casa nova, muitas brincadeiras e jogos no novo espaço. Começamos a colecionar brincadeiras de várias partes do mundo: a estréia foi com a “queimada suíça” que a Alexandra e o Flavinho ensinaram. Um sucesso! O Marcelo ensinou gamão e ganhou aficionados. A Eliana, esperta e experta, argilou. A Gili também – ocarinas com carinha e corpo de pássaros piaram, mágicas. A Renata vai queimá-las por estes dias. A quadrilha não se organizou – aprendizado de autonomia. Algumas pessoinhas já conhecidas retornaram; outras, novas, firmaram.
Ah! É preciso estar atento – e forte, como diz a canção – para, pacientemente, muito pacientemente, perceber aquele menino ou aquela menina que falou uma palavra nova, ainda não dita – bendita! – na Roda; naquele outro, naquela outra que levantou a voz e disse o que nunca havia dito; no outro que ouviu o que, até então, não ouvia; escutar o que observou: “ué, suas palavras foram de escabrear, mas você não `tava escabreando” (obs: escabrear = brigar, reclamar); valorizar a construção, a cooperação; aceitar a forma de reagir de qualquer um, sabendo, de antemão, que algo motiva esta reação, algo que dói, uma dor que ele mesmo não percebe a origem.
Você é capaz de estar atento assim em relação a você mesmo e não apenas em relação aos meninos e meninas? Você é capaz de tentar perceber onde aquela reação LHE atinge? Você é capaz de tentar encontrar a dor tão antiga, tão menina que você ainda – talvez desde sempre e para sempre – carrega sem saber qual a melhor maneira de lidar com ela, de vivê-la?
Até julho.
Abril/2009
Quando a chuva dava uma trégua nos reuníamos debaixo do jamelão – aliás, carregadíssimo – no terreno do Cantagalo. Mais de uma vez o toró caiu e era criança para todo lado, correndo para casa.
Finalmente, - negócio fechado! – iniciamos a arrumação do novo espaço. O Nitão – grande e já mencionado amigo do Projeto –, a Eliana, o Begara e o Alexandre foram os educadores que se revezaram na pintura de portas, janelas e paredes; cada dia um tanto de meninos e meninas aparecia para fazer suas marcas.
O problema do número de participantes voltou a se manifestar. Muitos meninos e meninas foram chegando de mansinho. Alguns já conhecidos e que, por variados motivos, não compareceram nesta fase de atividades; outros novos – muitos vizinhos da nova sede. É sempre muito difícil mostrar para eles a necessidade de sermos mais firmes na formação de um grupo com um número certo de participantes; difícil mostrar o quanto precisamos cuidar deste solo inicial, embrionário, que ainda precisa ser muito arado, adubado, para que as fases seguintes possam ser melhor desenvolvidas; difícil explicar que vivemos um verdadeiro rito de iniciação, isto é, construímos um processo onde o saber é aprendido – e apreendido – através da vivência cotidiana. Uma vivência do que nunca foi vivido por nenhum de nós, uma vivência insegura, pois não há um método experimentado e consagrado. Existem, é certo, experiências outras que nos alimentam e inspiram, porém não são a nossa experiência. Cada Projeto de Gente a ser desenvolvido em qualquer outro recanto trará sempre um novo rito a ser vivido. Cada grupo de educadores será um novo grupo, cada grupo de crianças também é sempre novidade, assim como cada comunidade educadores-crianças será sempre diferente, particular, singular.
Em 25 de abril foi inaugurada a nova sede do Projeto de Gente em Cumuruxatiba. Na Roda de Combinações um tanto informal que se organizou foi possível, mais uma vez, constatar a necessidade de um imenso e paciente trabalho para que, pouco a pouco, a roda – ainda quadrada – vá ganhando sua forma mais confortável, redondinha. Vimos adultos e crianças desrespeitando a combinação básica de ouvir o que um componente está apresentando (como já disse alguém: “diálogo existe quando um ouve”); percebemos a falta de costume em ocupar um espaço com sua opinião própria; nos demos conta da impaciência com aquele que parece precisar ser o centro das atenções – do roda, portanto –; da irritação; da tendência de se cair logo na “facilidade” da punição, de “passar um sermão”; sentimos também a dificuldade que é saber o tempo que leva para se ter certeza de que uma certa metodologia é inútil.
Enfim, na inauguração, tocamos, todo o tempo, no tema do parágrafo anterior: iniciação, vivência. Uma vivência que é, ao mesmo tempo, uma iniciação, pois é uma aprender fazendo, um acertar errando. Uma vivência que, ao contrário da aplicação de uma “decoreba” apenas racional, se faz em um clima carregado de emoções e sentimentos, histórias de vida e singularidades.
Enfim, um barco navegando sobre uma correnteza – às vezes leve, outras turbulenta – de emoções, tocado por um vento nem sempre suave e muitas vezes inesperado e, ainda por cima, guiados por um mapa cheio de hiatos. Uma aventura, uma bela aventura! O problema é que, no tal mundo moderno, não se abrem muitos espaços para aventuras. Parece que todos preferem o conhecido, o padronizado, o que está na moda.
Participantes do Projeto de Gente - Cumuruxatiba
Educadores em Campo
Eliana, Cristina, Shal e Alexandre.
Educadores de Apoio
Begara, Ângela, Renata e Dolores
Meninas e meninos
Manhã
Ioane, Ismael, Cleiton, Sula, Sol, Flávia, Fabiana, Alan, César, Fernando, Ana Paula e Fabiane.
Tarde
Sabrina, Mávila, Abimael, Stefany, Olívia, Flávio Dinei, Weber, Maciele, Mireli, Flavinho, Jaqueline, Laiara, Luli, Sol, Douglas, Natália, Carol, Alexandra e Mábia.
Lista de Espera (da qual, pelo menos, seis estão sempre por lá)
Naiane, Robson, Graziele, Mariana, Peterson, Daniel, Lucas, Willian, Jonatas, Jaísa, Madson, Ornan, Sara, Luiza e Nina.