DEZEMBRO DE 2007
O fim do ano de 2007 se aproxima e, com ele, uma certa euforia parece tomar conta de muita gente. Aqui e ali dá para ouvir alguém comentando que 2006 “não vai ser igual àquele que passou”.
O verso é de uma canção de carnaval e parece denunciar o risco de se vestir uma desajustada fantasia que, como toda fantasia usada fora do carnaval, é ilusória. Ilusória como a máscara cega que colocamos no rosto e que repete como um mantra desatinado que ao ultrapassarmos a meia-noite do dia 31 de dezembro tudo se transformará ao som dos fogos de artifício, do estouro das champanhes, dos iú-rú, dos tin-tins e dos abraços frenéticos: truques que escondem a necessidade de se juntar coragem para rever e rever o caminho percorrido, pois “se muito vale o já feito, mais vale o que será... E o que foi feito é preciso conhecer para melhor prosseguir”, para melhor organizar a nova experiência, um ano novo... mais e mais belo. Devemos “(falar) assim sem tristeza, (falar) por acreditar que é cobrando o que fomos que nós iremos crescer... e (assim) outras manhãs (virão) plenas de sol e de luz”.
De fato, esta é uma boa oportunidade de (re)organizar um novo ano verdadeiramente diferente. Esta revisão pode – e deve – ser feita com alegria e ternura, com respeito pela condição humana que carrega em si, inerente, a condição de errar.
Contudo, infelizmente, não parecemos aceitar esta possibilidade com a devida naturalidade, aparentemente nem mesmo percebemos o alívio que ela proporciona. De fato, a negamos, nos exercitamos, arduamente, para o impossível: não errar. Vamos, neste exercício, tentando construir uma enganosa e, esta sim, frágil impossibilidade de errar. Esquecidos do “errar é humano” buscamos uma espécie de endeusamento, falsa divinização, um poder não humano, desumanizado, egocêntrico que, escondida a pureza original, sufoca e destrói.
Agimos assim pára não expor o que chamamos “fraquezas”: insegurança, falta de confiança, medo de errar, medo do abandono, da solidão... e quantos mais destes tão humanos sentimentos e suscetibilidades partilhados por todos e sentidos por cada um de uma única forma.
Com estes conceitos bem presentes vamos rever os três meses de trabalho do Projeto de Gente em Cumuruxatiba. Três meses de trabalho construídos por dentro da inexperiência, da ingenuidade, do crédito exagerado na simples boa intenção, da necessidade de uma equipe mais coesa em relação aos pilares básicos do projeto, das condutas conflitantes, da dificuldade de realização de encontros entre os voluntários e, por isso, da má costura entre os sonhos pessoais o que resultava num tecido de sustentação esgarçado, da falta de recursos, da falta de comunicação rápida e eficiente com a Associação no Rio de Janeiro, da impaciência dos educadores frente a um trabalho cujos resultados são lentamente organizados, da perplexidade destes mesmos educadores ao perceberem que não são eles que detêm o poder de ditar regras, das crianças confusas entre o exercício da liberdade e o “posso fazer o que quiser”. Três meses nos quais aprendemos, aprendemos e aprendemos dia a dia, nos quais conquistamos a confiança de muitas crianças – e alguns adultos -, cozinhamos, argilamos, pintamos, desenhamos, jogamos bola e capoeira, fizemos yoga, brincamos, rimos, dançamos, estudamos, conversamos sobre namoro, sexo, liberdade, respeito, harmonia, convivência, relações familiares, meses em que também escabreamos e fizemos as pazes; três meses nos quais a casinha do Projeto se encheu de risos, gritos, principalmente nos dias de chuva muito forte quando a escola não abria.
Desde os primeiros encontros, há muito tempo, para a elaboração inicial do Projeto de Gente dizíamos que, antes de qualquer coisa, precisaríamos de gente, gente que acreditasse naquela proposta de trabalho.
Pois bem, hoje dizemos o mesmo e, por isso, mais que nunca, precisamos conseguir recursos para que estas pessoas estejam o mais profundamente possível satisfeitas e felizes em suas atividade no projeto de Gente. Satisfeitas consigo mesmas, com a qualidade da inter-relação entre todos os participantes do projeto e com a possibilidade de entrega ampla e despreocupada ao dia a dia do trabalho.
Precisamos jogar energia para obter estes recursos. Gente temos, aqui em Cumuruxatiba e fora daqui, faltam recursos financeiros para pagar os salários e adquirir material.
Neste mês de dezembro estamos organizando a festa do dia 09 de janeiro de 2008. Esta festa tem a exata finalidade de divulgar o Projeto de Gente num momento em que Cumuruxatiba está repleta de veranistas e, assim, aumentar a chance de alcançar o coração de pessoas com possibilidades e desejo de investir no trabalho. Também vamos tentar levantar fundos para necessidades imediatas (conserto da caixa d’água, por exemplo).
Esta festa surgiu do generoso oferecimento, através do Rico Belúcio – dentista em Cumuru e também músico de 1ª qualidade -, de um show do grupo A fábrica da Arte – do qual ele faz parte -, em favor do Projeto de Gente.
Sobre esta festa falaremos nos “Diários” de janeiro de 2008!
domingo, 16 de março de 2008
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
Novembro de 2007
Embora hoje esteja chovendo, muito, e o vento leste traga um pouco de frio, o verão chegou a Cumuruxatiba,... junto, e por causa de, um feriadão. E verão, aqui, representa uma profunda transformação no ritmo de vida das pessoas e, portanto, alteração na dinâmica da própria vila: todos, quase todos, aumentam a produção em suas atividades mais comuns – pescadores pescam mais, ceramistas queimam mais, pousadeiros hospedam mais, comerciantes vendem mais, artesãos criam mais, cozinheiros e cozinheiras cozinham mais -. Além disto, muitos acumulam atividades – pescadores tornam-se caseiros em casas de veranistas, estudantes trabalham em pousadas, artesãos fazem papel de garçons em restaurantes...
Já mencionamos este fenômeno no último Diário; porém, no mês de novembro, sua influência foi sentida profundamente no Projeto de Gente. Nossa equipe, voluntários que desejavam e podiam vir 3-4 vezes na semana ao Projeto, passaram a estar com as crianças 1-2 vezes, por conta da necessidade de trabalharem em atividades geradoras de recursos financeiros que lhes assegurasse, inclusive, o próximo ano. Com muita freqüência apenas uma pessoa estava disponível para cuidar de 15-17 crianças.
Isto contribuiu para o esgarçamento do cuidado; isto é, este cuidado tornou-se mais superficial. Exatamente neste momento, por conta da confiança conquistada ao longo dos 3 meses de trabalho, situações pessoais de algumas crianças foram ficando mais claras e mesmo trazidas à tona por elas mesmas.
A equação desequilibrou: diminuição do número de pessoas que pudessem dar campo ao aumento de manifestações importantes e delicadas das crianças.
Como quase sempre acontece, este movimento não foi imediatamente percebido. Na verdade, os sintomas deste desequilíbrio é que foram, aos poucos, chamando a atenção: um certo nervosismo no ar, desatenção a regras já combinadas, irritações, confusão entre liberdade e poder fazer qualquer coisa, etc.
O educador, freqüentemente, não podia estar perto de uma situação na qual ele podia atuar como um mediador cuidadoso e elucidativo e, não podendo, esta circunstância significava, então, um afrouxamento na prática da possibilidade de se encontrar uma re-novada forma de, por exemplo, resolver um conflito, de re-organizar uma estrutura de consciência velha e pouco construtiva. De um “lembrar, cuidar” tranqüilo, terno quanto ao cumprimento de uma combinação, passava-se a uma “chamada de atenção”, eventualmente áspera, cansada. O educador passava a exercer, facilmente, uma função policial que, naturalmente, era sentida como repressora da liberdade. A reação se organizava: ou a criança se afastava quieta, mais triste que zangada, magoada – atitude introspectiva - ou contestava, mais zangada que triste, magoada – atitude extrovertida. Ambas esquecidas de que liberdade inclui o outro.
De modo que, o Projeto vive um delicado – belo, trabalhoso e esperado – momento. Por um lado, algumas crianças se sentem confiantes, vale dizer, livres, para manifestar suas preocupações, inquietações, dúvidas. “(Tendo como base) o amor recebido e o amor é o chão da liberdade...”, como ensina Hélio Pellegrino, estas crianças conseguiram ultrapassar velhas barreiras, diminuir defesas e revelaram um pedacinho de seus escondidos corações, deixaram que lêssemos, pegando no livro, uma linha de suas sensibilidades mais profundas. Porém, e por outro lado, a diminuição no número de educadores dificultou a vivência destas possibilidades.
Resultado: das crianças podíamos ouvir o questionamento: “Ôch (baianês!), cadê a liberdade?”, “A gente não pode fazer o que quer?”, “Que chato! Toda hora Roda extraordinária para combinar regras!”, “Toda hora escabreando (escabrear: dar bronca)!”. De alguns educadores: “Chega! Assim não dá!”, “Vocês não respeitam as combinações!”, Também não vou respeitar: vou p’ra casa!”, “Não ganho nada p’ra estar aqui!”. Reatividade de ambas as partes.
De alguns educadores uma pergunta aparecia, com maior ou menor clareza: “Eles (as crianças) estão maduros para a liberdade?”. “As crianças” está escrito entre parêntesis porque, de certa forma, as crianças repetiam, ao seu jeito, a mesma pergunta colocando “os adultos” dentro do parêntesis.
Ora, a liberdade é condição pré-existente à maturidade. Liberdade é – deveria ser – condição natural, sem adjetivos – nem bela nem perfeita, nem pouca nem muita -, apenas deveria existir e ponto. Muita liberdade é, veremos, outra coisa, não liberdade.
Porém, parece que os adultos – a sociedade – se dão o direito de decidir se e quando suas crianças estão ou não maduras para viver a liberdade. Confundem núcleo e citoplasma, essência e circunstância. Freq6entemente, inclusive, atrelam a liberdade a uma simples questão financeira: “Enquanto comer às minhas custas, viver debaixo do meu teto (esquecidos que foram eles que convidaram seus filhos a esta situação) estão sob as minhas leis!”
A maturidade acontece, construída e renovada, na prática da livre vivência com o outro, no encontro de liberdades. Maturidade acontece quando se percebe que sem o outro não há liberdade. Acontece quando se percebe que quando apenas se faz o que se quer colaboramos, ao final, para o afastamento (agressivo ou melancólico) do outro. Liberdade sem o outro é solidão! Maturidade acontece quando livres manifestações podem ocorrer e eventuais – naturais – conflitos são vividos sem violência organizando uma vivência conjunta, uma construtiva convivência.
Mas, porque a confusão acontece? Quem sabe uma possível raiz esteja no medo de ser – ele mesmo, adulto – livre. Outra possibilidade: o medo de viver o medo do que a liberdade pode significar na vida de suas crianças na sociedade em que vivemos, que organizamos (uma sociedade que tantas vezes criticamos mas seguimos mantendo, assustados com a reação dela a uma atitude transformadora de nossa parte). Talvez a comunhão dos dois temores.
Negando viver, simplesmente viver, o medo de ser livre, o medo da liberdade, o medo de era quem somos, negando o fluxo que dita nossa condição essencial, o fluxo que pede, depois exige, a liberdade de ser quem cada um é, vamos, paulatinamente, construindo uma ditatorial e destrutiva forma de vida. Destruindo a nós mesmos, colaboramos na destruição do outro – de todo outro (basta olhar para nosso já bastante destruído planeta), justo porque a liberdade de ser inclui a liberdade do outro.
Talvez possamos aprender algo conhecendo a história de Dédalo e Ícaro: Dédalo, o mítico arquiteto grego, após desviar-se de si mesmo – matou, por inveja, seu mestre – foi acolhido em Creta. Aí ele constrói o Labirinto – símbolo do mergulho em seu inconsciente –, um lugar onde somente ele encontrava o caminho de volta. Adquiriu, assim, sabedoria, auto-conhecimento. Por ter ajudado a mulher e a filha do Rei de Creta a viverem legítimos desejos, embora indesejados pelo rei, foi aprisionado, junto com seu filho Ícaro, no Labirinto. Naturalmente. Dédalo encontrou o caminho de saída e fabricou dois pares de asas as quais prendeu, com cera, aos ombros para que ele e seu filho pudessem fugir da Ilha de Creta. Recomendou, muitas vezes recomendou, a Ícaro que não voasse nem muito alto, pois o sol derreteria a cera, nem baixo demais porque a umidade do mar tornaria as penas muito pesadas. Apesar de tudo, dos conselhos paternos, Ícaro não aceitou seu lugar, “seu centro, entre as ondas do mar e o sol” e voou, desconectado de si mesmo, alto demais. Ao chegar perto do sol a cera derreteu-se e as penas se soltaram. Ícaro caiu no mar e afogou-se. Seu pai nada pôde fazer, a não ser viver a dor e a tristeza da perda.
“Se (...) as asas são o símbolo (...) da liberdade é preciso ter em mente que assas não se colocam apenas, mas se adquirem ao preço de longa e não raro perigosa educação (...)”. O erro de Ícaro foi ultrapassar um limite, descuidar-se de si mesmo, não aceitar-se. A história do menino grego, naturalmente, não fala de um limite físico já que o ser humano não tem asas. Ela nos fala de uma escolha, uma escolha que depende de conhecimento, auto-conhecimento. O auto-conhecimento que Dédalo possuía, mas não podia transferir para seu filho pura e simplesmente; havia de existir a práxis do menino. (Vale dizer que as aspas referem-se às palavras do Prof. Junito Brandão, e, Mitologia Grega)
Aí está a motivação de um educador – de um adulto – que cuida de uma criança: trabalhar para que ela possa conhecer a si mesma, conhecer a real possibilidade – o verdadeiro poder – da liberdade, aquela que inclui ele próprio e o outro em harmônica convivência. Ícaro, o mar, o sol.
Em novembro de 2007, todos nós do Projeto de Gente, vivemos, dia a dia, a simples e trabalhosa máxima: a vida se organiza para se desorganizar e re-organizar-se... para desorganizar-se e...
Um importante, delicado e triste, momento aconteceu quando duas crianças reagiram agressivamente ao conflito de se sentirem divididos entre o campo amoroso do Projeto e outro, caseiro, nada amoroso – violento mesmo – ou ambíguo, mas que lhes deu suporte para estarem vivos até hoje. Reagiram agredindo as combinações – como disse uma criança: “Parece que eles não querem mais estar no Projeto!” -, agredindo outras crianças, adultos e a própria casa – rabiscaram as paredes reiteradamente, jogaram pedras, um dia. Na Roda, uma criança propôs que fossem, então, desligados. Um adulto ponderou que esta decisão era tão séria que seria bom que se conversasse maiscom eles para saber o que estava realmente acontecendo, porque eles não estavam, mais como no início das atividades do trabalho. Esta proposta foi vencedora por estreita margem. Entretanto, 3 dias depois os dois meninos – 7,8 anos – voltaram a agir com redobrada agressividade e, naquele dia, a Roda decidiu pelo desligamento. Ficou claro, para a maioria das crianças, que era impossível a convivência mesmo que – alguns compreenderam – o desligamento não ajudasse realmente a resolver a questão que motivava a reação dos meninos. Um dos educadores tem mantido contato, fora do Projeto, com os dois. Naturalmente que o retorno não está impedido e isto também ficou claro para todos.
Também em novembro o Projeto de Gente recebeu uma generosa oferta: um grupo de música – a FÁBRICA DA ARTE – ofereceu um show em prol de nosso trabalho. Este espetáculo acontecerá dia 09 de janeiro de 2008 e tem 3 propósitos principais: 1) divulgação do Projeto de Gente; 2) ampliar a possibilidade de encontrarmos patrocínio – necessidade prioritária para o pagamento de salários para a equipe – e 3) arrecadar recursos financeiros imediatos para necessidades imediatas – conserto da caixa d’água, confecção de mesas, etc.
Foi decidido que nosso trabalho será apresentado ao público através de todos os participantes do dia a dia do Projeto. A idéia é realizar uma primeira parte com uma Roda de Capoeira que se transforma numa roda de samba, de hip-hop e, finalmente, forró. Depois, um esquete de teatro que mostrará os conceitos principais que norteiam o trabalho. Um clip de fotos e música e, então a Fábrica da Arte se apresentará. As crianças estão produzindo objetos – cerâmicas, pinturas, desenhos, para serem vendidos. Além disto, conseguimos a doação de 200 botons, 100 camisetas que também reverterão em recursos financeiros. Neste dia o Projeto de Gente receberá o que for vendido no bar da Barraca Zona Livre, local do apresentação.
Uma decisão importante foi o encerramento das atividades cotidianas e integrais do Projeto por conta da, já dita, diminuição de pessoal da equipe e a necessidade de ensaios para o dia 09, além de inúmeros outros detalhes a serem articulados para a organização e produção do espetáculo.
Deste modo, dezembro chega com muito aprendizado e muitas perspectivas.
Beijos.
Já mencionamos este fenômeno no último Diário; porém, no mês de novembro, sua influência foi sentida profundamente no Projeto de Gente. Nossa equipe, voluntários que desejavam e podiam vir 3-4 vezes na semana ao Projeto, passaram a estar com as crianças 1-2 vezes, por conta da necessidade de trabalharem em atividades geradoras de recursos financeiros que lhes assegurasse, inclusive, o próximo ano. Com muita freqüência apenas uma pessoa estava disponível para cuidar de 15-17 crianças.
Isto contribuiu para o esgarçamento do cuidado; isto é, este cuidado tornou-se mais superficial. Exatamente neste momento, por conta da confiança conquistada ao longo dos 3 meses de trabalho, situações pessoais de algumas crianças foram ficando mais claras e mesmo trazidas à tona por elas mesmas.
A equação desequilibrou: diminuição do número de pessoas que pudessem dar campo ao aumento de manifestações importantes e delicadas das crianças.
Como quase sempre acontece, este movimento não foi imediatamente percebido. Na verdade, os sintomas deste desequilíbrio é que foram, aos poucos, chamando a atenção: um certo nervosismo no ar, desatenção a regras já combinadas, irritações, confusão entre liberdade e poder fazer qualquer coisa, etc.
O educador, freqüentemente, não podia estar perto de uma situação na qual ele podia atuar como um mediador cuidadoso e elucidativo e, não podendo, esta circunstância significava, então, um afrouxamento na prática da possibilidade de se encontrar uma re-novada forma de, por exemplo, resolver um conflito, de re-organizar uma estrutura de consciência velha e pouco construtiva. De um “lembrar, cuidar” tranqüilo, terno quanto ao cumprimento de uma combinação, passava-se a uma “chamada de atenção”, eventualmente áspera, cansada. O educador passava a exercer, facilmente, uma função policial que, naturalmente, era sentida como repressora da liberdade. A reação se organizava: ou a criança se afastava quieta, mais triste que zangada, magoada – atitude introspectiva - ou contestava, mais zangada que triste, magoada – atitude extrovertida. Ambas esquecidas de que liberdade inclui o outro.
De modo que, o Projeto vive um delicado – belo, trabalhoso e esperado – momento. Por um lado, algumas crianças se sentem confiantes, vale dizer, livres, para manifestar suas preocupações, inquietações, dúvidas. “(Tendo como base) o amor recebido e o amor é o chão da liberdade...”, como ensina Hélio Pellegrino, estas crianças conseguiram ultrapassar velhas barreiras, diminuir defesas e revelaram um pedacinho de seus escondidos corações, deixaram que lêssemos, pegando no livro, uma linha de suas sensibilidades mais profundas. Porém, e por outro lado, a diminuição no número de educadores dificultou a vivência destas possibilidades.
Resultado: das crianças podíamos ouvir o questionamento: “Ôch (baianês!), cadê a liberdade?”, “A gente não pode fazer o que quer?”, “Que chato! Toda hora Roda extraordinária para combinar regras!”, “Toda hora escabreando (escabrear: dar bronca)!”. De alguns educadores: “Chega! Assim não dá!”, “Vocês não respeitam as combinações!”, Também não vou respeitar: vou p’ra casa!”, “Não ganho nada p’ra estar aqui!”. Reatividade de ambas as partes.
De alguns educadores uma pergunta aparecia, com maior ou menor clareza: “Eles (as crianças) estão maduros para a liberdade?”. “As crianças” está escrito entre parêntesis porque, de certa forma, as crianças repetiam, ao seu jeito, a mesma pergunta colocando “os adultos” dentro do parêntesis.
Ora, a liberdade é condição pré-existente à maturidade. Liberdade é – deveria ser – condição natural, sem adjetivos – nem bela nem perfeita, nem pouca nem muita -, apenas deveria existir e ponto. Muita liberdade é, veremos, outra coisa, não liberdade.
Porém, parece que os adultos – a sociedade – se dão o direito de decidir se e quando suas crianças estão ou não maduras para viver a liberdade. Confundem núcleo e citoplasma, essência e circunstância. Freq6entemente, inclusive, atrelam a liberdade a uma simples questão financeira: “Enquanto comer às minhas custas, viver debaixo do meu teto (esquecidos que foram eles que convidaram seus filhos a esta situação) estão sob as minhas leis!”
A maturidade acontece, construída e renovada, na prática da livre vivência com o outro, no encontro de liberdades. Maturidade acontece quando se percebe que sem o outro não há liberdade. Acontece quando se percebe que quando apenas se faz o que se quer colaboramos, ao final, para o afastamento (agressivo ou melancólico) do outro. Liberdade sem o outro é solidão! Maturidade acontece quando livres manifestações podem ocorrer e eventuais – naturais – conflitos são vividos sem violência organizando uma vivência conjunta, uma construtiva convivência.
Mas, porque a confusão acontece? Quem sabe uma possível raiz esteja no medo de ser – ele mesmo, adulto – livre. Outra possibilidade: o medo de viver o medo do que a liberdade pode significar na vida de suas crianças na sociedade em que vivemos, que organizamos (uma sociedade que tantas vezes criticamos mas seguimos mantendo, assustados com a reação dela a uma atitude transformadora de nossa parte). Talvez a comunhão dos dois temores.
Negando viver, simplesmente viver, o medo de ser livre, o medo da liberdade, o medo de era quem somos, negando o fluxo que dita nossa condição essencial, o fluxo que pede, depois exige, a liberdade de ser quem cada um é, vamos, paulatinamente, construindo uma ditatorial e destrutiva forma de vida. Destruindo a nós mesmos, colaboramos na destruição do outro – de todo outro (basta olhar para nosso já bastante destruído planeta), justo porque a liberdade de ser inclui a liberdade do outro.
Talvez possamos aprender algo conhecendo a história de Dédalo e Ícaro: Dédalo, o mítico arquiteto grego, após desviar-se de si mesmo – matou, por inveja, seu mestre – foi acolhido em Creta. Aí ele constrói o Labirinto – símbolo do mergulho em seu inconsciente –, um lugar onde somente ele encontrava o caminho de volta. Adquiriu, assim, sabedoria, auto-conhecimento. Por ter ajudado a mulher e a filha do Rei de Creta a viverem legítimos desejos, embora indesejados pelo rei, foi aprisionado, junto com seu filho Ícaro, no Labirinto. Naturalmente. Dédalo encontrou o caminho de saída e fabricou dois pares de asas as quais prendeu, com cera, aos ombros para que ele e seu filho pudessem fugir da Ilha de Creta. Recomendou, muitas vezes recomendou, a Ícaro que não voasse nem muito alto, pois o sol derreteria a cera, nem baixo demais porque a umidade do mar tornaria as penas muito pesadas. Apesar de tudo, dos conselhos paternos, Ícaro não aceitou seu lugar, “seu centro, entre as ondas do mar e o sol” e voou, desconectado de si mesmo, alto demais. Ao chegar perto do sol a cera derreteu-se e as penas se soltaram. Ícaro caiu no mar e afogou-se. Seu pai nada pôde fazer, a não ser viver a dor e a tristeza da perda.
“Se (...) as asas são o símbolo (...) da liberdade é preciso ter em mente que assas não se colocam apenas, mas se adquirem ao preço de longa e não raro perigosa educação (...)”. O erro de Ícaro foi ultrapassar um limite, descuidar-se de si mesmo, não aceitar-se. A história do menino grego, naturalmente, não fala de um limite físico já que o ser humano não tem asas. Ela nos fala de uma escolha, uma escolha que depende de conhecimento, auto-conhecimento. O auto-conhecimento que Dédalo possuía, mas não podia transferir para seu filho pura e simplesmente; havia de existir a práxis do menino. (Vale dizer que as aspas referem-se às palavras do Prof. Junito Brandão, e, Mitologia Grega)
Aí está a motivação de um educador – de um adulto – que cuida de uma criança: trabalhar para que ela possa conhecer a si mesma, conhecer a real possibilidade – o verdadeiro poder – da liberdade, aquela que inclui ele próprio e o outro em harmônica convivência. Ícaro, o mar, o sol.
Em novembro de 2007, todos nós do Projeto de Gente, vivemos, dia a dia, a simples e trabalhosa máxima: a vida se organiza para se desorganizar e re-organizar-se... para desorganizar-se e...
Um importante, delicado e triste, momento aconteceu quando duas crianças reagiram agressivamente ao conflito de se sentirem divididos entre o campo amoroso do Projeto e outro, caseiro, nada amoroso – violento mesmo – ou ambíguo, mas que lhes deu suporte para estarem vivos até hoje. Reagiram agredindo as combinações – como disse uma criança: “Parece que eles não querem mais estar no Projeto!” -, agredindo outras crianças, adultos e a própria casa – rabiscaram as paredes reiteradamente, jogaram pedras, um dia. Na Roda, uma criança propôs que fossem, então, desligados. Um adulto ponderou que esta decisão era tão séria que seria bom que se conversasse maiscom eles para saber o que estava realmente acontecendo, porque eles não estavam, mais como no início das atividades do trabalho. Esta proposta foi vencedora por estreita margem. Entretanto, 3 dias depois os dois meninos – 7,8 anos – voltaram a agir com redobrada agressividade e, naquele dia, a Roda decidiu pelo desligamento. Ficou claro, para a maioria das crianças, que era impossível a convivência mesmo que – alguns compreenderam – o desligamento não ajudasse realmente a resolver a questão que motivava a reação dos meninos. Um dos educadores tem mantido contato, fora do Projeto, com os dois. Naturalmente que o retorno não está impedido e isto também ficou claro para todos.
Também em novembro o Projeto de Gente recebeu uma generosa oferta: um grupo de música – a FÁBRICA DA ARTE – ofereceu um show em prol de nosso trabalho. Este espetáculo acontecerá dia 09 de janeiro de 2008 e tem 3 propósitos principais: 1) divulgação do Projeto de Gente; 2) ampliar a possibilidade de encontrarmos patrocínio – necessidade prioritária para o pagamento de salários para a equipe – e 3) arrecadar recursos financeiros imediatos para necessidades imediatas – conserto da caixa d’água, confecção de mesas, etc.
Foi decidido que nosso trabalho será apresentado ao público através de todos os participantes do dia a dia do Projeto. A idéia é realizar uma primeira parte com uma Roda de Capoeira que se transforma numa roda de samba, de hip-hop e, finalmente, forró. Depois, um esquete de teatro que mostrará os conceitos principais que norteiam o trabalho. Um clip de fotos e música e, então a Fábrica da Arte se apresentará. As crianças estão produzindo objetos – cerâmicas, pinturas, desenhos, para serem vendidos. Além disto, conseguimos a doação de 200 botons, 100 camisetas que também reverterão em recursos financeiros. Neste dia o Projeto de Gente receberá o que for vendido no bar da Barraca Zona Livre, local do apresentação.
Uma decisão importante foi o encerramento das atividades cotidianas e integrais do Projeto por conta da, já dita, diminuição de pessoal da equipe e a necessidade de ensaios para o dia 09, além de inúmeros outros detalhes a serem articulados para a organização e produção do espetáculo.
Deste modo, dezembro chega com muito aprendizado e muitas perspectivas.
Beijos.
Outubro de 2007
Há 19 anos, durante uma reunião de pais e mestres em uma escola do Rio de Janeiro, um pai colocou as mãos em concha e perguntou onde estava a fronteira entre cuidar e, fechando lentamente as mãos, oprimir, obrigar.
Quando este pai usou a palavra “fronteira” estava, talvez sem consciência, tocando em um dos pontos básicos do que se convencionou chamar: educação. Um tema conhecido também por outra denominação: limite.
Limite. Uma palavra que, aparentemente, não se desgasta com o uso. Um conceito do qual muito se fala, muito se ouve – “É preciso que se tenham certos limites!”, “Sem limite a liberdade vira libertinagem!”, “Viu no que deu? Os pais nunca deram limites a este menino!”.
Quase sempre – e os exemplos, de certo modo, mostram – limite traz a idéia de cerceamento, restrição, repressão. Entretanto, também quase todos concordam, em teoria, que limites podem – mesmo devem – ser ultrapassados.
Durante a fase inicial da vida, este último aspecto parece ser empanado pelo anterior – é a fase do “adestramento”, da criança bem educada. Porém, em outra fase, na sociedade competitiva em que vivemos, os ousados, os que desafiam os limites, são os mais admirados. E aí parece haver uma inversão quanto à expectativa em relação ao comportamento frente ao limite: de aceitação para superação.
Pelo menos um motivo pode ser vislumbrado para que assim seja. No início, talvez se organize uma estrutura defensiva reativa ao famoso, e muito compreensível, “medo de crescer”. E crescer, fica aqui entendido, mais que tudo, como o medo de se reconhecer como indivíduo único e capaz de manifestar tal singularidade com todos os riscos que este ato acarreta. Medo porque, afinal, se manifesto exatamente o que sinto-penso muitos podem não gostar e se afastar de mim. E o que fazer se uma destas pessoas for muito, muito importante – vital mesmo – para mim? Talvez, neste caso, seja melhor “respeitar” um certo limite. Como não sabemos qual limite exatamente – teríamos que experimentar, ousar – damos, então, uma margem de segurança e, sobre esta margem, outra para dar mais segurança... e outra... e outra... A defesa está construída e, freqüentemente, tão bem construída que o que quer que a tenha motivado fica completamente esquecido, soterrado sob toneladas de “margens de segurança”. E o esquecido é, justamente, o que não podemos jamais esquecer: o ser que, de fato, somos.
Numa segunda fase, muitos aprofundam este esquecimento através de uma atitude ousada, porém refletindo o que se espera de cada um – não quem é realmente cada um. Desta forma tenta-se garantir “proteção”, “acolhimento”, aceitação. Entretanto, o preço é ser quem não somos – o mesmo, e alto, preço pago na primeira situação.
Um mote inspira o Projeto de Gente: descoberta, desenvolvimento e integração.
Integrar-se é construir fronteiras. Fronteiras que exigem auto-conhecimento, livre manifestação e reconhecimento da manifestação do outro. Portanto, uma mesa de negociações deve ser organizada, bela e natural, entre dois livres manifestantes.
Bela, se livres e respeitados; catastrófica, se dissimulados por intenções ocultas (vale dizer, defensivas) e interesseiras (não a partir do “entre esses”: o interesse), mesmo que, nesta altura, completamente despercebidas pelos negociadores.
Entretanto, a livre manifestação não implica em perda do direito à intimidade – muito ao contrário –; isto é, não temos que subir em um banco na praça pública e nos expor. No mundo que construímos isto seria um descuido. Há que saber fazê-lo; aliás, a superexposição é, mais que tudo, uma defesa, aparentemente contraditória, contra o medo de ser: atrás das luzes esconde-se o verdadeiro ser. Pessoas públicas nos mostram isto com clareza quando a dor escondida eclode das profundezas das luzes, freqüentemente nas páginas sensacionalistas ou policiais dos jornais e revistas.
Talvez tenhamos que trabalhar para construir uma alternativa onde, desde cedo, não precisemos temer não existir se formos quem de fato somos.
Mas, vamos voltar à reunião de 19 anos atrás e lembrar algumas perguntas que surgiram naquela ocasião: será que o mesmo cuidado serve para toda e qualquer criança? Será que o cuidado necessário para uma significa opressão para outra? O cuidar para um pode ser um “sufoco” para outro? Descuido para este? As leis do bem cuidar, então, não podem ser generalizadas? Como criar um bom campo de cuidados se as crianças são tantas, tão variadas, e os educadores poucos? Será necessário um educador para cada criança? Um certo educador para uma certa criança?
Bem, talvez o educador tenha que estar certo de que cada criança é uma, nenhuma certa ou errada e ele é um, nem sempre certo,... todos sensíveis.
Quando uma criança incomoda, molesta especialmente, um educador, ele deve, quem sabe: (1) respirar fundo três vezes; (2) observar em que ponto sensível dela, a criança, ele está tocando e (3) observar em que ponto sensível dele ela está tocando.
Muito bonito tudo isto – alguém vai dizer –, mas, quero ver fazer o tal 1, 2, 3 numa tarde de sol baiano (ou de chuva torrencial que obriga a todos ficar dentro de casa) com 17, 18, 20 crianças de idades diversas, desejos diversos, energias diversas enchendo o espaço, ultrapassando o espaço! Respirar fundo 3 vezes? Como, se estou é sem fôlego?! Observar? Como, se mal compreendo o que está se passando?
Claro que o 1, 2, 3 é uma maneira brincalhona... e chata... de falar sobre uma dinâmica que pode, e deve, ser realizada com simples naturalidade desde que sejamos corajosos e generosos. Generosos para ver nos olhos, nos gestos e atitudes da criança, sem invasividade, sem desrespeito, o que eles nos revelam (não o que, preconceituosos, pensamos que lá existe). Corajosos para nos ver, espelhados, nos olhos, gestos e atitudes da criança.
Se quisermos ser um campo para o desenvolvimento destes meninos e meninas temos que estar seguros de que um campo não interfere na semente. Simplesmente se oferece, oferece o que tem, oferece quem é. O campo não transforma a semente de manga em semente de caju. Não tem, felizmente, este poder! Apenas a acolhe e oferece seus constituintes, aceita o outro e a si mesmo tal como cada um é.
Se desejarmos servir de campo para que estas crianças se organizem como de fato são, temos que nos reconhecer como de fato somos. Se desejarmos oferecer campo para que elas possam reconhecer sua autoridade mais legítima, pessoal e singular temos que, continuamente, buscar contato com nossa própria autoridade interna. Não a autoridade a que estamos (mal)acostumados – aquela que apenas ordena, faz cumprir as leis e pune os que não as seguem – e sim aquela que autoriza, alimenta nossa autonomia, dá legitimidade à nossa conduta, aos nossos desejos. A autoridade de quem conhece, sabe a simples lei que rege a existência humana: apenas serei feliz se for quem sou.
Entretanto, os seres humanos são exatamente os únicos que conhecemos que conseguem “dobrar” seu fluxo vital natural de tal forma que construímos, justo, o que não desejamos. Fazemos isto movidos por interesses secundários, realizando estranhas escolhas que nos levam a trilhar caminhos que, ao final, se mostram mais difíceis e trabalhosos do que aqueles dos quais fugimos, assustados – o medo de ser –, quanto a nossa capacidade de viajar por eles.
Em outubro de 2007, nós, do Projeto de Gente, aprendemos um pouco mais sobre esta construção. O mês começou em clima de festa, aniversários, visitas de pessoas muito queridas ligadas ao pessoal do Projeto – Letícia, mulher do Daniel; Cristina, Letícia e Lucas, da família do Alexandre, vieram trazendo alegria e participação –, Sabine e Felix, jovens alemães da ONG – The Travelling School of Life, também estiveram conosco e, embora o objetivo de seu trabalho não seja, no momento, a prioridade do Projeto de Gente (você pode conhecer o TSOLIFE pela internet: www.tsolife.org) foi muito gratificante a troca de experiências e a inclusão do Projeto em uma rede de contato de pessoas interessadas em pensar e construir educação de um modo democrático e progressista.
Entretanto, ao longo do mês, fomos notando uma diminuição no número de crianças participantes; esvaziamento da Roda; aumento na freqüência e profundidade de conflitos; alguns incômodos em relação a certas atitudes – freqüência irregular, um entra e sai das dependências do Projeto (quando nos dávamos conta uma criança tinha simplesmente ido embora), combinações não respeitadas. Além disto, como já referido nos último diário, a equipe se ressentiu da diminuição do número de trabalhadores no dia a dia.
Os educadores foram trazendo elementos segundo suas percepções pessoais e que se complementavam com as de outros: este observando com mais objetividade o movimento das crianças, aquele atento a uma dinâmica mais psicológica, outro a uma questão social. Algumas crianças também começaram a se referir ao fato de que a Roda tinha menos gente; que alguns vinham apenas para o lanche e não para conversar; que fulano e beltrano estavam vindo pouco ao Projeto e que haviam outras crianças interessadas em se inscrever. A partir destas observações as Rodas ganharam consistência: mais respeito ao horário – passamos a nos reunir na hora combinada, não importando quantos estivessem presentes e não mais buscando as crianças e lembrando sobre o horário –; maior aprofundamento na qualidade das discussões – por exemplo, combinações sobre os critérios para se determinar que uma criança estava, de fato, ligada ao Projeto dado que a regra vigente não obrigava uma determinada freqüência de comparecimento (foi discutido que a qualidade da presença era mais importante que a quantidade de dias que a pessoa vem). Outra discussão foi sobre a entrada de novas crianças interessadas e a dificuldade de atenção e cuidado que o Projeto poderia oferecer com a pequena equipe de trabalho (resolveu-se que uma boa conversa deve acontecer com as crianças que estão comparecendo irregularmente para que se tenha uma melhor idéia sobre suas motivações). Mais uma questão: qual a real importância da Roda, dado que, muitas vezes, os temas não interessavam a todos. Foi decidido que a Roda não é obrigatória, na verdade reafirmado, mas a participação deve ser efetiva, isto é, quem está, está – “A Roda é o coração do Projeto porque é aqui que todo mundo escuta melhor o que cada um sente e pensa.” Chegou a ser incluída na proposta que apenas lancha quem participa da Roda!
Dois pontos estão exigindo muita atenção: (1) a questão financeira do Projeto. A cada dia fica mais clara a necessidade de pessoal dedicado e compromissado em todos os sentidos e isto inclui, naturalmente, remuneração. (2) O verão. Em Cumuru, o verão é um momento único e extraordinário. A maioria dos habitantes se envolve em alguma atividade ligada ao turismo como uma maneira de aumentar seus rendimentos. Como os trabalhadores do Projeto são, basicamente, moradores voluntários temos que lidar com este problema que acarretará numa diminuição ainda mais clara de adultos no Projeto. O que fazer? Fechar durante o verão? Contudo, este é um tempo em que as crianças poderiam, mais que nunca, participar. Outra hipótese: abrir apenas 2 ou 3 vezes na semana.
Decisão do momento: vamos conversar a respeito!
Até novembro!
Quando este pai usou a palavra “fronteira” estava, talvez sem consciência, tocando em um dos pontos básicos do que se convencionou chamar: educação. Um tema conhecido também por outra denominação: limite.
Limite. Uma palavra que, aparentemente, não se desgasta com o uso. Um conceito do qual muito se fala, muito se ouve – “É preciso que se tenham certos limites!”, “Sem limite a liberdade vira libertinagem!”, “Viu no que deu? Os pais nunca deram limites a este menino!”.
Quase sempre – e os exemplos, de certo modo, mostram – limite traz a idéia de cerceamento, restrição, repressão. Entretanto, também quase todos concordam, em teoria, que limites podem – mesmo devem – ser ultrapassados.
Durante a fase inicial da vida, este último aspecto parece ser empanado pelo anterior – é a fase do “adestramento”, da criança bem educada. Porém, em outra fase, na sociedade competitiva em que vivemos, os ousados, os que desafiam os limites, são os mais admirados. E aí parece haver uma inversão quanto à expectativa em relação ao comportamento frente ao limite: de aceitação para superação.
Pelo menos um motivo pode ser vislumbrado para que assim seja. No início, talvez se organize uma estrutura defensiva reativa ao famoso, e muito compreensível, “medo de crescer”. E crescer, fica aqui entendido, mais que tudo, como o medo de se reconhecer como indivíduo único e capaz de manifestar tal singularidade com todos os riscos que este ato acarreta. Medo porque, afinal, se manifesto exatamente o que sinto-penso muitos podem não gostar e se afastar de mim. E o que fazer se uma destas pessoas for muito, muito importante – vital mesmo – para mim? Talvez, neste caso, seja melhor “respeitar” um certo limite. Como não sabemos qual limite exatamente – teríamos que experimentar, ousar – damos, então, uma margem de segurança e, sobre esta margem, outra para dar mais segurança... e outra... e outra... A defesa está construída e, freqüentemente, tão bem construída que o que quer que a tenha motivado fica completamente esquecido, soterrado sob toneladas de “margens de segurança”. E o esquecido é, justamente, o que não podemos jamais esquecer: o ser que, de fato, somos.
Numa segunda fase, muitos aprofundam este esquecimento através de uma atitude ousada, porém refletindo o que se espera de cada um – não quem é realmente cada um. Desta forma tenta-se garantir “proteção”, “acolhimento”, aceitação. Entretanto, o preço é ser quem não somos – o mesmo, e alto, preço pago na primeira situação.
Um mote inspira o Projeto de Gente: descoberta, desenvolvimento e integração.
Integrar-se é construir fronteiras. Fronteiras que exigem auto-conhecimento, livre manifestação e reconhecimento da manifestação do outro. Portanto, uma mesa de negociações deve ser organizada, bela e natural, entre dois livres manifestantes.
Bela, se livres e respeitados; catastrófica, se dissimulados por intenções ocultas (vale dizer, defensivas) e interesseiras (não a partir do “entre esses”: o interesse), mesmo que, nesta altura, completamente despercebidas pelos negociadores.
Entretanto, a livre manifestação não implica em perda do direito à intimidade – muito ao contrário –; isto é, não temos que subir em um banco na praça pública e nos expor. No mundo que construímos isto seria um descuido. Há que saber fazê-lo; aliás, a superexposição é, mais que tudo, uma defesa, aparentemente contraditória, contra o medo de ser: atrás das luzes esconde-se o verdadeiro ser. Pessoas públicas nos mostram isto com clareza quando a dor escondida eclode das profundezas das luzes, freqüentemente nas páginas sensacionalistas ou policiais dos jornais e revistas.
Talvez tenhamos que trabalhar para construir uma alternativa onde, desde cedo, não precisemos temer não existir se formos quem de fato somos.
Mas, vamos voltar à reunião de 19 anos atrás e lembrar algumas perguntas que surgiram naquela ocasião: será que o mesmo cuidado serve para toda e qualquer criança? Será que o cuidado necessário para uma significa opressão para outra? O cuidar para um pode ser um “sufoco” para outro? Descuido para este? As leis do bem cuidar, então, não podem ser generalizadas? Como criar um bom campo de cuidados se as crianças são tantas, tão variadas, e os educadores poucos? Será necessário um educador para cada criança? Um certo educador para uma certa criança?
Bem, talvez o educador tenha que estar certo de que cada criança é uma, nenhuma certa ou errada e ele é um, nem sempre certo,... todos sensíveis.
Quando uma criança incomoda, molesta especialmente, um educador, ele deve, quem sabe: (1) respirar fundo três vezes; (2) observar em que ponto sensível dela, a criança, ele está tocando e (3) observar em que ponto sensível dele ela está tocando.
Muito bonito tudo isto – alguém vai dizer –, mas, quero ver fazer o tal 1, 2, 3 numa tarde de sol baiano (ou de chuva torrencial que obriga a todos ficar dentro de casa) com 17, 18, 20 crianças de idades diversas, desejos diversos, energias diversas enchendo o espaço, ultrapassando o espaço! Respirar fundo 3 vezes? Como, se estou é sem fôlego?! Observar? Como, se mal compreendo o que está se passando?
Claro que o 1, 2, 3 é uma maneira brincalhona... e chata... de falar sobre uma dinâmica que pode, e deve, ser realizada com simples naturalidade desde que sejamos corajosos e generosos. Generosos para ver nos olhos, nos gestos e atitudes da criança, sem invasividade, sem desrespeito, o que eles nos revelam (não o que, preconceituosos, pensamos que lá existe). Corajosos para nos ver, espelhados, nos olhos, gestos e atitudes da criança.
Se quisermos ser um campo para o desenvolvimento destes meninos e meninas temos que estar seguros de que um campo não interfere na semente. Simplesmente se oferece, oferece o que tem, oferece quem é. O campo não transforma a semente de manga em semente de caju. Não tem, felizmente, este poder! Apenas a acolhe e oferece seus constituintes, aceita o outro e a si mesmo tal como cada um é.
Se desejarmos servir de campo para que estas crianças se organizem como de fato são, temos que nos reconhecer como de fato somos. Se desejarmos oferecer campo para que elas possam reconhecer sua autoridade mais legítima, pessoal e singular temos que, continuamente, buscar contato com nossa própria autoridade interna. Não a autoridade a que estamos (mal)acostumados – aquela que apenas ordena, faz cumprir as leis e pune os que não as seguem – e sim aquela que autoriza, alimenta nossa autonomia, dá legitimidade à nossa conduta, aos nossos desejos. A autoridade de quem conhece, sabe a simples lei que rege a existência humana: apenas serei feliz se for quem sou.
Entretanto, os seres humanos são exatamente os únicos que conhecemos que conseguem “dobrar” seu fluxo vital natural de tal forma que construímos, justo, o que não desejamos. Fazemos isto movidos por interesses secundários, realizando estranhas escolhas que nos levam a trilhar caminhos que, ao final, se mostram mais difíceis e trabalhosos do que aqueles dos quais fugimos, assustados – o medo de ser –, quanto a nossa capacidade de viajar por eles.
Em outubro de 2007, nós, do Projeto de Gente, aprendemos um pouco mais sobre esta construção. O mês começou em clima de festa, aniversários, visitas de pessoas muito queridas ligadas ao pessoal do Projeto – Letícia, mulher do Daniel; Cristina, Letícia e Lucas, da família do Alexandre, vieram trazendo alegria e participação –, Sabine e Felix, jovens alemães da ONG – The Travelling School of Life, também estiveram conosco e, embora o objetivo de seu trabalho não seja, no momento, a prioridade do Projeto de Gente (você pode conhecer o TSOLIFE pela internet: www.tsolife.org) foi muito gratificante a troca de experiências e a inclusão do Projeto em uma rede de contato de pessoas interessadas em pensar e construir educação de um modo democrático e progressista.
Entretanto, ao longo do mês, fomos notando uma diminuição no número de crianças participantes; esvaziamento da Roda; aumento na freqüência e profundidade de conflitos; alguns incômodos em relação a certas atitudes – freqüência irregular, um entra e sai das dependências do Projeto (quando nos dávamos conta uma criança tinha simplesmente ido embora), combinações não respeitadas. Além disto, como já referido nos último diário, a equipe se ressentiu da diminuição do número de trabalhadores no dia a dia.
Os educadores foram trazendo elementos segundo suas percepções pessoais e que se complementavam com as de outros: este observando com mais objetividade o movimento das crianças, aquele atento a uma dinâmica mais psicológica, outro a uma questão social. Algumas crianças também começaram a se referir ao fato de que a Roda tinha menos gente; que alguns vinham apenas para o lanche e não para conversar; que fulano e beltrano estavam vindo pouco ao Projeto e que haviam outras crianças interessadas em se inscrever. A partir destas observações as Rodas ganharam consistência: mais respeito ao horário – passamos a nos reunir na hora combinada, não importando quantos estivessem presentes e não mais buscando as crianças e lembrando sobre o horário –; maior aprofundamento na qualidade das discussões – por exemplo, combinações sobre os critérios para se determinar que uma criança estava, de fato, ligada ao Projeto dado que a regra vigente não obrigava uma determinada freqüência de comparecimento (foi discutido que a qualidade da presença era mais importante que a quantidade de dias que a pessoa vem). Outra discussão foi sobre a entrada de novas crianças interessadas e a dificuldade de atenção e cuidado que o Projeto poderia oferecer com a pequena equipe de trabalho (resolveu-se que uma boa conversa deve acontecer com as crianças que estão comparecendo irregularmente para que se tenha uma melhor idéia sobre suas motivações). Mais uma questão: qual a real importância da Roda, dado que, muitas vezes, os temas não interessavam a todos. Foi decidido que a Roda não é obrigatória, na verdade reafirmado, mas a participação deve ser efetiva, isto é, quem está, está – “A Roda é o coração do Projeto porque é aqui que todo mundo escuta melhor o que cada um sente e pensa.” Chegou a ser incluída na proposta que apenas lancha quem participa da Roda!
Dois pontos estão exigindo muita atenção: (1) a questão financeira do Projeto. A cada dia fica mais clara a necessidade de pessoal dedicado e compromissado em todos os sentidos e isto inclui, naturalmente, remuneração. (2) O verão. Em Cumuru, o verão é um momento único e extraordinário. A maioria dos habitantes se envolve em alguma atividade ligada ao turismo como uma maneira de aumentar seus rendimentos. Como os trabalhadores do Projeto são, basicamente, moradores voluntários temos que lidar com este problema que acarretará numa diminuição ainda mais clara de adultos no Projeto. O que fazer? Fechar durante o verão? Contudo, este é um tempo em que as crianças poderiam, mais que nunca, participar. Outra hipótese: abrir apenas 2 ou 3 vezes na semana.
Decisão do momento: vamos conversar a respeito!
Até novembro!
Setembro de 2007
Prosseguindo na prática destes, segundo o João, peculiares relatórios nos quais se juntam temas sérios e outros menos sérios – mas que, ao fim, não sabemos ao certo qual é qual –, aí está o 4o comunicado sobre o que aconteceu no dia a dia do Projeto de Gente durante o mês de setembro, em Cumuruxatiba.
Desde um tempo muito remoto a humanidade percebeu a existência de quatro elementos primordiais na natureza: a terra, o ar, a água e o fogo. Esta observação está revelada em incontáveis mitos e ritos de diversas culturas sem qualquer possibilidade de contato imediato.
Faz também bastante tempo que Mestre Jung ensinou que temos algumas ferramentas que nos ajudam a conhecer o mundo e a nos reconhecer nele. As sensações do corpo, o pensamento, os sentimentos e a intuição são alguns destes instrumentos.
Uma poética, porém precisa, analogia pode ser feita entre estas funções humanas e os quatro elementos: a terra representa as sensações corporais; o ar, o mundo do devaneio, dos pensamentos; a água que – efetiva e afetivamente – recobre nossa pele está ligada aos sentimentos e o fogo, símbolo, tantas vezes divinizado, do mistério, do transcendente, da intuição.
Seguindo as pegadas de Jung podemos dizer que o ser humano primeiro percebe, com os sentidos ou intuição, que algo existe. A seguir, o bicho humano pensa, reflete, faz perguntas, pesquisa sobre o que é este algo. E então sente, tem sentimentos a respeito deste algo que, neste momento, ganha uma qualidade, uma dimensão mais ampla. Não a qualidade singela dos animais irracionais que dita uma atitude pronta e sem dúvidas, e sim uma qualidade que interage com outras ganhando, portanto, nuances delicadas e, freqüentemente, muito difíceis de lidar. E cada ser humano tem, em sua bagagem de viagem, uma singular distribuição destes elementos; isto é, uns têm mais ar que terra, outros mais água que fogo; outros mais este ou aquele; e até os que têm um mesmo perfil, vamos dizer, qualitativo, dificilmente serão, quantitativamente, iguais. Assim, somos iguais e diferentes ao mesmo tempo.
“Na dura caminhada pela noite escura”, usamos nossos sentidos e intuições, nossos pensamentos, reflexões e, finalmente, nossos sentimentos para construir uma ação, a ação humana. Portanto, é muito importante que conheçamos o conteúdo deste nosso baú para melhor construir o gesto humano, o pessoal gesto.
SENSAÇÕES CORPORAIS/INTUIÇÕES PENSAMENTOS SENTIMENTOS AÇÃO HUMANA
Se – importante condicional – utilizamos, sem dissimulações, sem segundas intenções, íntegros, as simples capacidades de nossas ferramentas o gesto construído refletirá quem, de fato, cada um é essencialmente, o que podemos, o que temos a oferecer ao mundo, ao Outro. Estaremos também revelando como nosso corpo sente, nossa cabeça pensa e, susto maior, nosso coração sente.
Assim, como uma espécie de fruta que, espontânea e amorosamente, oferece seu sabor único, próprio, a humanidade – cada um de nós – pode oferecer suas qualidades, organizadas de modo único em cada um dos homens e mulheres, meninos e meninas. Porém, apenas os humanos podem negar esta possibilidade – a possibilidade natural – espontânea, amorosa e ofertar outro sabor, assustado, programado, dissimulado, pouco amoroso. Escolhendo a negação de nós mesmos fomos nos afastando da natureza, “dobrando” nossa natureza, esquecendo a amorosidade, o amor-próprio, a própria oferta de cada um à vida;... construindo a destruição, a doença.
O pessoal do Projeto de Gente, um dia, viu, ouviu; ou melhor, viu a invisibilidade da criança, ouviu seu grito surdo. Viu, refletiu sobre como estas crianças não tinham campo fértil para descobrirem seus conteúdos. Refletiu sobre o que viu e ouviu e um longo processo, ainda e sempre incompleto, teve início. Um processo vivido por cada um – pelo Projeto – que avançou através de anos de sensações, reflexões que, muitas vezes, assustavam quando apontavam para lugares do mundo esquecido, laboriosamente esquecido, por detrás de regras, quase sempre muito bem fundamentadas, explicadíssimas, porém, desconectadas da essência de nós mesmos.
Pois bem, em setembro, o Projeto de Gente está tocando no... amor. Estamos (re)aprendendo a amar, (re)iniciando esta etapa da caminhada.
Reaprendendo no dia a dia, costumeiramente avassalador, no qual a água falta; onde “não sobra dinheiro não”; um menino briga com outro ou outra – e, pelo menos uma vez, adultos discutiram entre si ante o olhar, assustado e divertido, de algumas crianças –, outra cai da árvore e, justo esta, faz drama enquanto outros gritam dizendo que não foi nenhum deles que empurrou (ninguém estava perguntando!) e a que caiu diz que foi um deles que, por sua vez, jura de pés juntos que não (na verdade nem tão de pés juntos assim porque senão ele próprio vai cair da árvore onde ainda está encarapitado... E só ele está na árvore!); tem também o dia em que a Roda gira numa velocidade estonteante e, exatamente neste dia, quem ia comprar o biscoito esqueceu-se de fazê-lo e então, todas as combinações parecem ser esquecidas. A lista poderia prosseguir, mas vamos passar direto para um certo item: a drástica diminuição do número de colaboradores. Naturalmente que era esperada uma modificação no quadro, pois é comum que o entusiasmo inicial se arrefeça por conta das mais diversas motivações – alguma claras, outras mais ou menos conscientes embora compreensíveis, principalmente se nos lembrarmos dos primeiros parágrafos deste “estranho relatório”. Felizmente todos os que estão juntos são pessoas com sensibilidades, histórias e temperamentos diversos, mas de olhar terno e coração amoroso.
Entretanto, o resultado deste movimento é que, exatamente, nas situações emergenciais em que um educador precisa estar com sua atenção plena voltada para esta tal circunstância nos vemos frente ao déficit de pessoal. Vale dizer que mesmo nos cotidiano não-emergencial a presença de, pelo menos, mais um educador seria – será – importante para que a dinâmica vital de cada criança seja melhor percebida e acompanhada.
Em vista desta realidade estamos colocando um limite firme na aceitação de novas inscrições. Aliás, fomos procurados por pelo menos um pai para conversar sobre seu filho “com dificuldade na escola”. “Dificuldades” que significam estruturas reativas construídas por pequenos e pequenas assustados e ameaçados em suas sensibilidades profundas e ainda não conhecidas. “Dificuldades” tão grandes quanto às de certas crianças percebidas como “fáceis de lidar” porque obedecem ordens, não fazem “confusão”, mas, na verdade, estão, como os “difíceis”, tentando apaziguar seu medo de ser excluído do grupo que lhes “garante” a sensação de estar vivos.
Nada disto é reclamação, apenas trabalho – e trabalho previsível –, tanto que iniciamos a construção do forno – outra forma de trabalho. As crianças participaram da primeira etapa, a “pisada” no barro que permaneceu, envolto em plástico, fermentando dentro de um buraco. A segunda etapa, erguer a base e construir o piso de concreto, foi mais pesada – serviço de pedreiro -, mesmo assim algumas crianças lá estavam com suas possibilidades. Ontem, 26, começamos a erguer ao iglu do forno propriamente dito. Festa!!! porque os tijolos – oferecidos pelo James e sua mulher Verônica – eram ligados e recobertos exatamente pelo barro fermentado (não queiram saber sobre os elementos, além de terra e capim, que o compunham...). Foi combinado que, quem quisesse, poderia ser “batizado” pelo barro (menos nos olhos, boca e roupa). Todos quiseram!
No sábado, 15, foi feito um mutirão para a construção de prateleiras e estantes necessárias para acondicionar o material doado por Jorge e Fátima, donos da Papelaria Rainha de Fátima, no Rio de Janeiro, Com a madeira doada pela Madecon, uma firma de construção em Cumuruxatiba, construímos: 4 traves de madeira presas ao longo de algumas paredes da casa e que servem de “varal” para pendurar os desenhos e pinturas; uma estante com 6 gavetas, também para guardar desenhos e pequenos objetos de argila – enquanto aguardam o momento de ser queimados no forno da Renata, artesã que vai oferecer uma oficina de cerâmica no Projeto; além de outra estante, bem rústica, com quatro prateleiras onde organizamos o material de estoque e de uso diário. Na Roda foi combinada a regra para o uso deste material para que pudéssemos aproveitá-lo da melhor maneira.
Dia 21 – sexta-feira, fizemos um esperado pic-nic. Quem pode trouxe um alimento ou bebida – juntamos muitas qualidades de biscoitos, frutas, pipoca, bolo e uma torta salgada, sucos e refrigerantes. Fomos à praia – num lugar chamado o Areião por conta de altos montes (como dunas) de areia de onde eles se atiravam como num escorrega ou saltando direto na areia fofa –; depois tiramos o sal e a areia na represa para então seguir até à casa da Gilli , Juan, Sol e Luli para o pic-nic.
Logo depois, Shal – o capoeira do Projeto –, Gilli, Juan e Alexandre fizeram uma excelente reunião que será repetida periodicamente com os outros educadores. Este encontro foi importante porque a equipe, pequena, precisa estar bem coesa, ligada afetivamente entre si, além de familiarizada, sempre mais e mais, com as metas do trabalho.
Está claro que as crianças ainda estão espantadas com este lugar onde nada está pré-determinado, nada está pronto e imposto de antemão. Um lugar onde elas vão, junto com todos, determinar os rumos. Por outro lado, muitos adultos, volta e meia, esquecem que não têm o poder, a força. Têm, com maior ou menor consciência, a autoridade interna que conquistaram na construção de suas vidas e que, com este conhecimento, podem cuidar de uma criança, mas não conduzi-la para este ou aquele lugar.
O Projeto de Gente está sendo trazido à tona com corpo e alma unificados.
Temos agora cerca de 33 crianças, 8 estão comparecendo nas manhãs de terça-feira. Nem todos os outros comparecem todos as tardes (em média, 17).
Esta semana tivemos uma triste notícia: uma igreja evangélica, aparentemente, não concorda com a prática do Projeto de Gente e exortou os pais e mães a não permitirem que seus filhos e filhas participassem do trabalho. Cinco crianças não compareceram esta semana (24 a 28/set). Ainda estamos sentindo a situação para perceber a melhor maneira de vive-la. Por enquanto nada pode ou deve ser feito, afinal o direito de orientação das crianças é de seus pais e mães e, além do mais, o Projeto não pretende orientar ninguém, apenas quer criar um bom campo para as crianças descobrirem a si mesmas em liberdade. Estamos tristes por perceber a forte opressão exercida sobre crianças que, visivelmente, estavam aproveitando os ares do Projeto de Gente. Uma menina de 10 anos chegou, logo nos primeiros dias: tímida, calada, olhava o que acontecia à sua volta. Olhava como quem olha por sobre os óculos, sem encarar; mas não deixava de olhar, curiosa. Dias depois já olhava de frente, olhinhos brilhando, franca e risonha, confiante em si mesma; além do mais, revelou-se uma pessoa muito artística.
Dias se passaram, as cinco crianças, de fato, não estão vindo à casinha do Projeto. Ainda estamos tristes e resolvemos entrar em contato com os pais para reconvidá-los a conhecer mais o trabalho. Por outro lado, estamos sendo procurados, dia a dia, por várias crianças – trazidas pelas que já estão participando – e, nos últimos dias de chuva torrencial em que as escolas não tiveram freqüência, a casinha do Projeto de Gente estava cheiinha de risadas... e algumas confusões.
... Até breve!
Desde um tempo muito remoto a humanidade percebeu a existência de quatro elementos primordiais na natureza: a terra, o ar, a água e o fogo. Esta observação está revelada em incontáveis mitos e ritos de diversas culturas sem qualquer possibilidade de contato imediato.
Faz também bastante tempo que Mestre Jung ensinou que temos algumas ferramentas que nos ajudam a conhecer o mundo e a nos reconhecer nele. As sensações do corpo, o pensamento, os sentimentos e a intuição são alguns destes instrumentos.
Uma poética, porém precisa, analogia pode ser feita entre estas funções humanas e os quatro elementos: a terra representa as sensações corporais; o ar, o mundo do devaneio, dos pensamentos; a água que – efetiva e afetivamente – recobre nossa pele está ligada aos sentimentos e o fogo, símbolo, tantas vezes divinizado, do mistério, do transcendente, da intuição.
Seguindo as pegadas de Jung podemos dizer que o ser humano primeiro percebe, com os sentidos ou intuição, que algo existe. A seguir, o bicho humano pensa, reflete, faz perguntas, pesquisa sobre o que é este algo. E então sente, tem sentimentos a respeito deste algo que, neste momento, ganha uma qualidade, uma dimensão mais ampla. Não a qualidade singela dos animais irracionais que dita uma atitude pronta e sem dúvidas, e sim uma qualidade que interage com outras ganhando, portanto, nuances delicadas e, freqüentemente, muito difíceis de lidar. E cada ser humano tem, em sua bagagem de viagem, uma singular distribuição destes elementos; isto é, uns têm mais ar que terra, outros mais água que fogo; outros mais este ou aquele; e até os que têm um mesmo perfil, vamos dizer, qualitativo, dificilmente serão, quantitativamente, iguais. Assim, somos iguais e diferentes ao mesmo tempo.
“Na dura caminhada pela noite escura”, usamos nossos sentidos e intuições, nossos pensamentos, reflexões e, finalmente, nossos sentimentos para construir uma ação, a ação humana. Portanto, é muito importante que conheçamos o conteúdo deste nosso baú para melhor construir o gesto humano, o pessoal gesto.
SENSAÇÕES CORPORAIS/INTUIÇÕES PENSAMENTOS SENTIMENTOS AÇÃO HUMANA
Se – importante condicional – utilizamos, sem dissimulações, sem segundas intenções, íntegros, as simples capacidades de nossas ferramentas o gesto construído refletirá quem, de fato, cada um é essencialmente, o que podemos, o que temos a oferecer ao mundo, ao Outro. Estaremos também revelando como nosso corpo sente, nossa cabeça pensa e, susto maior, nosso coração sente.
Assim, como uma espécie de fruta que, espontânea e amorosamente, oferece seu sabor único, próprio, a humanidade – cada um de nós – pode oferecer suas qualidades, organizadas de modo único em cada um dos homens e mulheres, meninos e meninas. Porém, apenas os humanos podem negar esta possibilidade – a possibilidade natural – espontânea, amorosa e ofertar outro sabor, assustado, programado, dissimulado, pouco amoroso. Escolhendo a negação de nós mesmos fomos nos afastando da natureza, “dobrando” nossa natureza, esquecendo a amorosidade, o amor-próprio, a própria oferta de cada um à vida;... construindo a destruição, a doença.
O pessoal do Projeto de Gente, um dia, viu, ouviu; ou melhor, viu a invisibilidade da criança, ouviu seu grito surdo. Viu, refletiu sobre como estas crianças não tinham campo fértil para descobrirem seus conteúdos. Refletiu sobre o que viu e ouviu e um longo processo, ainda e sempre incompleto, teve início. Um processo vivido por cada um – pelo Projeto – que avançou através de anos de sensações, reflexões que, muitas vezes, assustavam quando apontavam para lugares do mundo esquecido, laboriosamente esquecido, por detrás de regras, quase sempre muito bem fundamentadas, explicadíssimas, porém, desconectadas da essência de nós mesmos.
Pois bem, em setembro, o Projeto de Gente está tocando no... amor. Estamos (re)aprendendo a amar, (re)iniciando esta etapa da caminhada.
Reaprendendo no dia a dia, costumeiramente avassalador, no qual a água falta; onde “não sobra dinheiro não”; um menino briga com outro ou outra – e, pelo menos uma vez, adultos discutiram entre si ante o olhar, assustado e divertido, de algumas crianças –, outra cai da árvore e, justo esta, faz drama enquanto outros gritam dizendo que não foi nenhum deles que empurrou (ninguém estava perguntando!) e a que caiu diz que foi um deles que, por sua vez, jura de pés juntos que não (na verdade nem tão de pés juntos assim porque senão ele próprio vai cair da árvore onde ainda está encarapitado... E só ele está na árvore!); tem também o dia em que a Roda gira numa velocidade estonteante e, exatamente neste dia, quem ia comprar o biscoito esqueceu-se de fazê-lo e então, todas as combinações parecem ser esquecidas. A lista poderia prosseguir, mas vamos passar direto para um certo item: a drástica diminuição do número de colaboradores. Naturalmente que era esperada uma modificação no quadro, pois é comum que o entusiasmo inicial se arrefeça por conta das mais diversas motivações – alguma claras, outras mais ou menos conscientes embora compreensíveis, principalmente se nos lembrarmos dos primeiros parágrafos deste “estranho relatório”. Felizmente todos os que estão juntos são pessoas com sensibilidades, histórias e temperamentos diversos, mas de olhar terno e coração amoroso.
Entretanto, o resultado deste movimento é que, exatamente, nas situações emergenciais em que um educador precisa estar com sua atenção plena voltada para esta tal circunstância nos vemos frente ao déficit de pessoal. Vale dizer que mesmo nos cotidiano não-emergencial a presença de, pelo menos, mais um educador seria – será – importante para que a dinâmica vital de cada criança seja melhor percebida e acompanhada.
Em vista desta realidade estamos colocando um limite firme na aceitação de novas inscrições. Aliás, fomos procurados por pelo menos um pai para conversar sobre seu filho “com dificuldade na escola”. “Dificuldades” que significam estruturas reativas construídas por pequenos e pequenas assustados e ameaçados em suas sensibilidades profundas e ainda não conhecidas. “Dificuldades” tão grandes quanto às de certas crianças percebidas como “fáceis de lidar” porque obedecem ordens, não fazem “confusão”, mas, na verdade, estão, como os “difíceis”, tentando apaziguar seu medo de ser excluído do grupo que lhes “garante” a sensação de estar vivos.
Nada disto é reclamação, apenas trabalho – e trabalho previsível –, tanto que iniciamos a construção do forno – outra forma de trabalho. As crianças participaram da primeira etapa, a “pisada” no barro que permaneceu, envolto em plástico, fermentando dentro de um buraco. A segunda etapa, erguer a base e construir o piso de concreto, foi mais pesada – serviço de pedreiro -, mesmo assim algumas crianças lá estavam com suas possibilidades. Ontem, 26, começamos a erguer ao iglu do forno propriamente dito. Festa!!! porque os tijolos – oferecidos pelo James e sua mulher Verônica – eram ligados e recobertos exatamente pelo barro fermentado (não queiram saber sobre os elementos, além de terra e capim, que o compunham...). Foi combinado que, quem quisesse, poderia ser “batizado” pelo barro (menos nos olhos, boca e roupa). Todos quiseram!
No sábado, 15, foi feito um mutirão para a construção de prateleiras e estantes necessárias para acondicionar o material doado por Jorge e Fátima, donos da Papelaria Rainha de Fátima, no Rio de Janeiro, Com a madeira doada pela Madecon, uma firma de construção em Cumuruxatiba, construímos: 4 traves de madeira presas ao longo de algumas paredes da casa e que servem de “varal” para pendurar os desenhos e pinturas; uma estante com 6 gavetas, também para guardar desenhos e pequenos objetos de argila – enquanto aguardam o momento de ser queimados no forno da Renata, artesã que vai oferecer uma oficina de cerâmica no Projeto; além de outra estante, bem rústica, com quatro prateleiras onde organizamos o material de estoque e de uso diário. Na Roda foi combinada a regra para o uso deste material para que pudéssemos aproveitá-lo da melhor maneira.
Dia 21 – sexta-feira, fizemos um esperado pic-nic. Quem pode trouxe um alimento ou bebida – juntamos muitas qualidades de biscoitos, frutas, pipoca, bolo e uma torta salgada, sucos e refrigerantes. Fomos à praia – num lugar chamado o Areião por conta de altos montes (como dunas) de areia de onde eles se atiravam como num escorrega ou saltando direto na areia fofa –; depois tiramos o sal e a areia na represa para então seguir até à casa da Gilli , Juan, Sol e Luli para o pic-nic.
Logo depois, Shal – o capoeira do Projeto –, Gilli, Juan e Alexandre fizeram uma excelente reunião que será repetida periodicamente com os outros educadores. Este encontro foi importante porque a equipe, pequena, precisa estar bem coesa, ligada afetivamente entre si, além de familiarizada, sempre mais e mais, com as metas do trabalho.
Está claro que as crianças ainda estão espantadas com este lugar onde nada está pré-determinado, nada está pronto e imposto de antemão. Um lugar onde elas vão, junto com todos, determinar os rumos. Por outro lado, muitos adultos, volta e meia, esquecem que não têm o poder, a força. Têm, com maior ou menor consciência, a autoridade interna que conquistaram na construção de suas vidas e que, com este conhecimento, podem cuidar de uma criança, mas não conduzi-la para este ou aquele lugar.
O Projeto de Gente está sendo trazido à tona com corpo e alma unificados.
Temos agora cerca de 33 crianças, 8 estão comparecendo nas manhãs de terça-feira. Nem todos os outros comparecem todos as tardes (em média, 17).
Esta semana tivemos uma triste notícia: uma igreja evangélica, aparentemente, não concorda com a prática do Projeto de Gente e exortou os pais e mães a não permitirem que seus filhos e filhas participassem do trabalho. Cinco crianças não compareceram esta semana (24 a 28/set). Ainda estamos sentindo a situação para perceber a melhor maneira de vive-la. Por enquanto nada pode ou deve ser feito, afinal o direito de orientação das crianças é de seus pais e mães e, além do mais, o Projeto não pretende orientar ninguém, apenas quer criar um bom campo para as crianças descobrirem a si mesmas em liberdade. Estamos tristes por perceber a forte opressão exercida sobre crianças que, visivelmente, estavam aproveitando os ares do Projeto de Gente. Uma menina de 10 anos chegou, logo nos primeiros dias: tímida, calada, olhava o que acontecia à sua volta. Olhava como quem olha por sobre os óculos, sem encarar; mas não deixava de olhar, curiosa. Dias depois já olhava de frente, olhinhos brilhando, franca e risonha, confiante em si mesma; além do mais, revelou-se uma pessoa muito artística.
Dias se passaram, as cinco crianças, de fato, não estão vindo à casinha do Projeto. Ainda estamos tristes e resolvemos entrar em contato com os pais para reconvidá-los a conhecer mais o trabalho. Por outro lado, estamos sendo procurados, dia a dia, por várias crianças – trazidas pelas que já estão participando – e, nos últimos dias de chuva torrencial em que as escolas não tiveram freqüência, a casinha do Projeto de Gente estava cheiinha de risadas... e algumas confusões.
... Até breve!
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
Agosto de 2007
Agosto. Apenas três meses se passaram e nos sentimos, por conta da generosa acolhida, moradores de Cumuru, quase velhos moradores. Neste mês, como já previsto, Daniel precisou ir ao Rio de Janeiro; Marcio, desejando ficar, reuniu forças e retornou.
Do sul, então, soprou um vento frio – quase triste – trazendo chuva por uma semana inteira; depois, dias e dias de vento leste: forte, pesado, mais frio, mais chuva, mar batido, pescadores em casa, sentados na varanda do Mauro, conversando. Para o pessoal do Projeto de Gente, tempo de introspecção, reflexão e contato com uma multidão de sentimentos.
O resultado do balanço foi... ensolarado e encorajador. Ficou claro, para nós, que havíamos sido aceitos pela população da vila: fomos convidados a participar do esforço dos rapazes e moças que fazem o cursinho pré-vestibular organizado pela ACAIC (Associação de Cultura Afro-Indígena de Cumuruxatiba); alguns professores nos procuraram para discutir questões das escolas; para participar de atividades – aulas e eventos – escolares; gente da terra e do mar perguntando, interessados, pelo trabalho; pessoas de fora que adotaram e foram adotados pelos daqui também; o pessoal do NEMA (Núcleo de Estudos do Meio Ambiente); enfim, muita gente “dando força”, buscando maneiras e soluções para as questões que precisavam, minimamente, ser resolvidas para que pudéssemos iniciar o trabalho. Foi assim que se formou uma equipe disposta a doar energia, tempo, saberes e habilidades ao Projeto de Gente. Esta equipe, com todas as dificuldades do movimento voluntariado, foi se consolidando e uma grade de atividades possíveis ganhou forma:
Sérgio – mineiro, professor de Educação Física, vai oferecer atividades corporais;
Gilli – israelense, artista plástica, trabalhos com argila, pintura, artesanato com materiais naturais da região;
Shal – baiano, estudante, vai formar a roda de capoeira;
Hygino, o Ginoca – baiano, estudante, habilidoso com a madeira;
Ângela – mineira, poeta e petequeira, vai organizar o jogo de peteca e atividades diversas;
Luiz Fernando – gaúcho, designer, está preparando um trabalho com as cores;
Juan – argentino, artesão em prata, pedra, etc, vai construir um forno para assar pães, bolos, pizzas, etc;
Dana – argentina, artista plástica, trabalho com desenho, tintas, pinturas;
Gerson, o Mujinha – baiano, pescador, vai montar o time de futebol;
Mônica – paulista, arquiteta, vai contar, criar histórias e fará leituras;
Ana Paula – paulista, professora, atividades variadas;
Aldo – paulista, artesão, fabrica, e fabricará com as crianças,... brinquedos;
Dolores – angolana, cozinheira, dona do restaurante Mama África, vai ensinar a alquimia da cozinha e
Alexandre – mineiro, médico-educador, também com atividades variadas.
Obs: Neste quadro já estão incluídas as pessoas que se ofereceram para trabalhar durante o fim de semana de inscrições.
Resolvemos oferecer opções para as crianças, observar se haveria realmente interesse e, principalmente, ouvir suas idéias, desejos e interesses. Já adiantando, no fim de semana de inscrições crianças pediram crochet, fazer roupa de índio, culinária, eletricidade (surpresa!!!), dança e teatro.
Com este grupo reunido, um plano foi discutido e aprovado, pelos daqui e também pelo Grupo-Rio do Projeto de Gente: divulgação do Projeto através de cartazes espalhados pela cidade – método tradicional da comunidade local e garantia da organização democrática do Projeto. Nestes cartazes fizemos um convite para duas manhãs de apresentação e inscrição de interessados – sábado (25) e domingo (26) –, dois dias para que houvesse alternativa aos que trabalham no sábado.
E o fim de semana de 25 e 26 chegou, antecedido por dias de trabalho e emoções variadas: antecipações de fracasso, de sucesso, medos de várias cores, desejo, insegurança, ansiedade, alegria, risos – às vezes bem nervosos – e crença, muita crença, o coração batendo “juventude e fé”. Foi também durante a semana que recebemos uma mensagem eletrônica do Jorge e da Fátima, donos da Papelaria Nossa Senhora de Fátima, no Rio de Janeiro, fazendo questão (palavras deles) de doar os primeiros materiais para o uso das crianças do Projeto: quadro-negro, giz, apagador, cadernos, etc, etc e etc.
Sábado de manhã, 9 horas – a hora marcada nos cartazes – e... ninguém; 9:30 e... ninguém! 9:45! E, de repente, baianamente:
“Crianças (...),
roupas simples, pés no chão.
Algo novo (estava) nascendo,
discreto, pequeno e leve,
do tamanho que podemos,
torrente de vida em breve...”,
como bem disse o João, nosso – bem dito – poeta (fiquem tranqüilos que vocês conhecerão toda a poesia do engenheiro João Bastos)”.
Foram chegando, algumas com o pai ou a mãe, poucas com pai e mãe, muitas com seus amigos, uma ou duas com uma certidão de nascimento amarrotada e bem firme na mão, aquela arrumadinha, banho recente, esta e esta outra com a roupa cor da terra, uma rindo, uma tímida, outra muito, muito tímida. A casinha do Projeto foi se enchendo com um som há muito esperado: gritinhos excitados, risos, um choro que o gelo no lugar dolorido e a mão no ombro fizeram calar suavemente, aos pouquinhos. Foram chegando, chegando: jogo de damas, dominó, massinha de modelar, desenho e artesanato com folha de coqueiro – que estamos na Bahia de Todos os Santos! Gilli, discreta e ativa, foi reunindo as crianças ao seu redor; melhor, não foi reunindo, foi agregando naturalmente um lindo grupo que dobrando uma, duas, três vezes a fita da folha do coqueiro e, com um gesto mágico final, faziam aparecer um peixinho verde e lindo que ia, então, nadar na atmosfera do Projeto de Gente. Em cima da pia – que a mesa que o Hygino está fazendo ainda não está pronta –, chá, biscoito e... coca-cola – que a manhã é de domingo. Também devagar fomos nos organizando para apresentar o trabalho a quem ainda não o conhecia. Música tranqüila no ar – enquanto teve energia elétrica, é verdade. No fim dos dois dias tínhamos muitos peixinhos nadando no ar, desenhos coloridos num cantinho, esculturas de massinha colorida sobre uma tábua e... a casa limpinha porque, sem que fosse previsto, a primeira Roda de Combinações se formou com o Eraston, a Andréia, o Sol, o Rafael, a Marina, a Jaqueline, a Mariana, a Jociele, o André, a Alexandra, a Ayala, o Gabriel, o Marlon, a Júlia, o Flávio, o Daniel, o Douglas, o Messias, o Joelson, a Valéria, o Mateus, a Dayse, a Agtha, a Neuziane, o David, o Igor, o Arildo, a Ana e a Aline, mais o Alexandre, a Gilli e ficou combinado que todos deviam deixar a casa limpa e bonita para o dia seguinte, para todos os dias seguintes.
Vinte e nove meninos e meninas se inscreveram; destes, 5 estudam à tarde, 3 participarão da carpintaria com o Hygino, 3a feira pela manhã. A idade variou dos 6 (poucos) aos 18 (uma menina); a média ficou em torno dos 10, 11 anos. Nem todos os 24 – que estudam à tarde - estarão todos os dias no Projeto de Gente, pois algumas têm outras atividades também à tarde (uns fazem o futebol do campo do Canta Galo, outros ajudam em casa pelo menos um dia, etc). Grupos se formarão ligados por interesses e afetos. Combinamos, com todos que possam, que venham na terça-feira – dia 28 – para definir como estes grupos estarão organizados. Na segunda-feira estaremos as fichas de inscrição – onde eles já colocaram os dias que não poderão estar conosco e, do que se tem, o que mais interessa a cada um – para ajudar no arranjo dos grupos.
No domingo recebemos a visita da Renata e de seu companheiro, o Glinger. Os dois trabalham com cerâmica e doaram uma bela quantidade de argila; além disso, estão pensando numa maneira de organizar oficinas paneleiras e poteiras – o que pode atrair também os adultos, pais e mães das crianças. Além destes dois, vieram o Aldo, a Ângela e a Dolores que também ofereceram seus talentos – construção de brinquedos, peteca e culinária, respectivamente.
A surpresa deste 3o Diário é que imaginávamos que o primeiro dia de atividade do Projeto de Gente seria, tudo correndo bem, na segunda ou terça, 27/28 de agosto. Porém, a sensação nítida e forte é que o Projeto de Gente nasceu em Cumuruxatiba, distrito do Prado, Bahia, nos dias 25 e 26 de agosto de 2007.
Mas, já que ainda não enviamos o Diário para o Rio de Janeiro, aí vai o que aconteceu no dia 28 de agosto, terça-feira: diferente dos dias do fim de semana, às 12:30h, quando chegamos na casinha já lá estavam 6 crianças conversando à sombra do cajueiro, a Dayse fazendo mágica na frente dos olhos arregalados do Messias. Porta aberta, ajuda daqui, dali, copos e canecos no lugar, suco e biscoitos também. Mais crianças chegando. Três trouxeram amiguinhos novos, além de uma mãe que trouxe o filho para se inscrever. Tivemos que lembrar a todos que mais crianças precisavam de mais gente grande para estar junto, pois o cuidado que o Projeto de Gente se propõe a oferecer pede que os educadores não tenham um grupo de meninos e meninas que os impeça de conhecer cada um em sua singularidade. Estas quatro crianças ficaram conosco neste dia porque ninguém teve coragem de pedir que voltassem para casa, anotamos seus nomes e, assim que for possível, serão chamadas.
Depois de algum tempo de brincadeiras, nos sentamos em roda e fizemos algumas dinâmicas para que todos soubessem o nome de cada um. Aproveitamos este momento para construir mais algumas combinações: sapatos fora da casa para não sujar tanto o chão, arrumar o que bagunçou, na Roda respeitar a fala do outro e esperar a sua vez.
Depois, lanche, bola para alguns – houve, pelo menos, dois meninos que descobriram que quando a bola entra pela janela e acerta um amigo eles também são responsáveis já que estavam no jogo com os outros – mesmo que não tenham chutado a bola –; já o que chutou também percebeu que não precisa achar que é “o” culpado, nem que vai ser castigado, porque errou o chute; e todos descobriram que não é preciso, então, dizer: “Foi ele, foi ele!” –, damas para outros, banco imobiliário, Gilli ajudou a montar um móbile com os peixinhos do fim de semana e outros que nasceram. Dayse e Messias pediram ajuda para fazer o “Para Casa”. Desta atividade surgiu a idéia de trazer um mapa-mundi para que a Luli e o Sol mostrem onde já viveram por este mundão afora.
Brinquedos nos seus lugares, desenhos nas paredes, uma boa varrida no chão... e fim do primeiro dia – oficial – do Projeto de Gente em Cumuruxatiba.
Noite de Lua Cheia, coração em paz e uma Boa Noite para todos!
Do sul, então, soprou um vento frio – quase triste – trazendo chuva por uma semana inteira; depois, dias e dias de vento leste: forte, pesado, mais frio, mais chuva, mar batido, pescadores em casa, sentados na varanda do Mauro, conversando. Para o pessoal do Projeto de Gente, tempo de introspecção, reflexão e contato com uma multidão de sentimentos.
O resultado do balanço foi... ensolarado e encorajador. Ficou claro, para nós, que havíamos sido aceitos pela população da vila: fomos convidados a participar do esforço dos rapazes e moças que fazem o cursinho pré-vestibular organizado pela ACAIC (Associação de Cultura Afro-Indígena de Cumuruxatiba); alguns professores nos procuraram para discutir questões das escolas; para participar de atividades – aulas e eventos – escolares; gente da terra e do mar perguntando, interessados, pelo trabalho; pessoas de fora que adotaram e foram adotados pelos daqui também; o pessoal do NEMA (Núcleo de Estudos do Meio Ambiente); enfim, muita gente “dando força”, buscando maneiras e soluções para as questões que precisavam, minimamente, ser resolvidas para que pudéssemos iniciar o trabalho. Foi assim que se formou uma equipe disposta a doar energia, tempo, saberes e habilidades ao Projeto de Gente. Esta equipe, com todas as dificuldades do movimento voluntariado, foi se consolidando e uma grade de atividades possíveis ganhou forma:
Sérgio – mineiro, professor de Educação Física, vai oferecer atividades corporais;
Gilli – israelense, artista plástica, trabalhos com argila, pintura, artesanato com materiais naturais da região;
Shal – baiano, estudante, vai formar a roda de capoeira;
Hygino, o Ginoca – baiano, estudante, habilidoso com a madeira;
Ângela – mineira, poeta e petequeira, vai organizar o jogo de peteca e atividades diversas;
Luiz Fernando – gaúcho, designer, está preparando um trabalho com as cores;
Juan – argentino, artesão em prata, pedra, etc, vai construir um forno para assar pães, bolos, pizzas, etc;
Dana – argentina, artista plástica, trabalho com desenho, tintas, pinturas;
Gerson, o Mujinha – baiano, pescador, vai montar o time de futebol;
Mônica – paulista, arquiteta, vai contar, criar histórias e fará leituras;
Ana Paula – paulista, professora, atividades variadas;
Aldo – paulista, artesão, fabrica, e fabricará com as crianças,... brinquedos;
Dolores – angolana, cozinheira, dona do restaurante Mama África, vai ensinar a alquimia da cozinha e
Alexandre – mineiro, médico-educador, também com atividades variadas.
Obs: Neste quadro já estão incluídas as pessoas que se ofereceram para trabalhar durante o fim de semana de inscrições.
Resolvemos oferecer opções para as crianças, observar se haveria realmente interesse e, principalmente, ouvir suas idéias, desejos e interesses. Já adiantando, no fim de semana de inscrições crianças pediram crochet, fazer roupa de índio, culinária, eletricidade (surpresa!!!), dança e teatro.
Com este grupo reunido, um plano foi discutido e aprovado, pelos daqui e também pelo Grupo-Rio do Projeto de Gente: divulgação do Projeto através de cartazes espalhados pela cidade – método tradicional da comunidade local e garantia da organização democrática do Projeto. Nestes cartazes fizemos um convite para duas manhãs de apresentação e inscrição de interessados – sábado (25) e domingo (26) –, dois dias para que houvesse alternativa aos que trabalham no sábado.
E o fim de semana de 25 e 26 chegou, antecedido por dias de trabalho e emoções variadas: antecipações de fracasso, de sucesso, medos de várias cores, desejo, insegurança, ansiedade, alegria, risos – às vezes bem nervosos – e crença, muita crença, o coração batendo “juventude e fé”. Foi também durante a semana que recebemos uma mensagem eletrônica do Jorge e da Fátima, donos da Papelaria Nossa Senhora de Fátima, no Rio de Janeiro, fazendo questão (palavras deles) de doar os primeiros materiais para o uso das crianças do Projeto: quadro-negro, giz, apagador, cadernos, etc, etc e etc.
Sábado de manhã, 9 horas – a hora marcada nos cartazes – e... ninguém; 9:30 e... ninguém! 9:45! E, de repente, baianamente:
“Crianças (...),
roupas simples, pés no chão.
Algo novo (estava) nascendo,
discreto, pequeno e leve,
do tamanho que podemos,
torrente de vida em breve...”,
como bem disse o João, nosso – bem dito – poeta (fiquem tranqüilos que vocês conhecerão toda a poesia do engenheiro João Bastos)”.
Foram chegando, algumas com o pai ou a mãe, poucas com pai e mãe, muitas com seus amigos, uma ou duas com uma certidão de nascimento amarrotada e bem firme na mão, aquela arrumadinha, banho recente, esta e esta outra com a roupa cor da terra, uma rindo, uma tímida, outra muito, muito tímida. A casinha do Projeto foi se enchendo com um som há muito esperado: gritinhos excitados, risos, um choro que o gelo no lugar dolorido e a mão no ombro fizeram calar suavemente, aos pouquinhos. Foram chegando, chegando: jogo de damas, dominó, massinha de modelar, desenho e artesanato com folha de coqueiro – que estamos na Bahia de Todos os Santos! Gilli, discreta e ativa, foi reunindo as crianças ao seu redor; melhor, não foi reunindo, foi agregando naturalmente um lindo grupo que dobrando uma, duas, três vezes a fita da folha do coqueiro e, com um gesto mágico final, faziam aparecer um peixinho verde e lindo que ia, então, nadar na atmosfera do Projeto de Gente. Em cima da pia – que a mesa que o Hygino está fazendo ainda não está pronta –, chá, biscoito e... coca-cola – que a manhã é de domingo. Também devagar fomos nos organizando para apresentar o trabalho a quem ainda não o conhecia. Música tranqüila no ar – enquanto teve energia elétrica, é verdade. No fim dos dois dias tínhamos muitos peixinhos nadando no ar, desenhos coloridos num cantinho, esculturas de massinha colorida sobre uma tábua e... a casa limpinha porque, sem que fosse previsto, a primeira Roda de Combinações se formou com o Eraston, a Andréia, o Sol, o Rafael, a Marina, a Jaqueline, a Mariana, a Jociele, o André, a Alexandra, a Ayala, o Gabriel, o Marlon, a Júlia, o Flávio, o Daniel, o Douglas, o Messias, o Joelson, a Valéria, o Mateus, a Dayse, a Agtha, a Neuziane, o David, o Igor, o Arildo, a Ana e a Aline, mais o Alexandre, a Gilli e ficou combinado que todos deviam deixar a casa limpa e bonita para o dia seguinte, para todos os dias seguintes.
Vinte e nove meninos e meninas se inscreveram; destes, 5 estudam à tarde, 3 participarão da carpintaria com o Hygino, 3a feira pela manhã. A idade variou dos 6 (poucos) aos 18 (uma menina); a média ficou em torno dos 10, 11 anos. Nem todos os 24 – que estudam à tarde - estarão todos os dias no Projeto de Gente, pois algumas têm outras atividades também à tarde (uns fazem o futebol do campo do Canta Galo, outros ajudam em casa pelo menos um dia, etc). Grupos se formarão ligados por interesses e afetos. Combinamos, com todos que possam, que venham na terça-feira – dia 28 – para definir como estes grupos estarão organizados. Na segunda-feira estaremos as fichas de inscrição – onde eles já colocaram os dias que não poderão estar conosco e, do que se tem, o que mais interessa a cada um – para ajudar no arranjo dos grupos.
No domingo recebemos a visita da Renata e de seu companheiro, o Glinger. Os dois trabalham com cerâmica e doaram uma bela quantidade de argila; além disso, estão pensando numa maneira de organizar oficinas paneleiras e poteiras – o que pode atrair também os adultos, pais e mães das crianças. Além destes dois, vieram o Aldo, a Ângela e a Dolores que também ofereceram seus talentos – construção de brinquedos, peteca e culinária, respectivamente.
A surpresa deste 3o Diário é que imaginávamos que o primeiro dia de atividade do Projeto de Gente seria, tudo correndo bem, na segunda ou terça, 27/28 de agosto. Porém, a sensação nítida e forte é que o Projeto de Gente nasceu em Cumuruxatiba, distrito do Prado, Bahia, nos dias 25 e 26 de agosto de 2007.
Mas, já que ainda não enviamos o Diário para o Rio de Janeiro, aí vai o que aconteceu no dia 28 de agosto, terça-feira: diferente dos dias do fim de semana, às 12:30h, quando chegamos na casinha já lá estavam 6 crianças conversando à sombra do cajueiro, a Dayse fazendo mágica na frente dos olhos arregalados do Messias. Porta aberta, ajuda daqui, dali, copos e canecos no lugar, suco e biscoitos também. Mais crianças chegando. Três trouxeram amiguinhos novos, além de uma mãe que trouxe o filho para se inscrever. Tivemos que lembrar a todos que mais crianças precisavam de mais gente grande para estar junto, pois o cuidado que o Projeto de Gente se propõe a oferecer pede que os educadores não tenham um grupo de meninos e meninas que os impeça de conhecer cada um em sua singularidade. Estas quatro crianças ficaram conosco neste dia porque ninguém teve coragem de pedir que voltassem para casa, anotamos seus nomes e, assim que for possível, serão chamadas.
Depois de algum tempo de brincadeiras, nos sentamos em roda e fizemos algumas dinâmicas para que todos soubessem o nome de cada um. Aproveitamos este momento para construir mais algumas combinações: sapatos fora da casa para não sujar tanto o chão, arrumar o que bagunçou, na Roda respeitar a fala do outro e esperar a sua vez.
Depois, lanche, bola para alguns – houve, pelo menos, dois meninos que descobriram que quando a bola entra pela janela e acerta um amigo eles também são responsáveis já que estavam no jogo com os outros – mesmo que não tenham chutado a bola –; já o que chutou também percebeu que não precisa achar que é “o” culpado, nem que vai ser castigado, porque errou o chute; e todos descobriram que não é preciso, então, dizer: “Foi ele, foi ele!” –, damas para outros, banco imobiliário, Gilli ajudou a montar um móbile com os peixinhos do fim de semana e outros que nasceram. Dayse e Messias pediram ajuda para fazer o “Para Casa”. Desta atividade surgiu a idéia de trazer um mapa-mundi para que a Luli e o Sol mostrem onde já viveram por este mundão afora.
Brinquedos nos seus lugares, desenhos nas paredes, uma boa varrida no chão... e fim do primeiro dia – oficial – do Projeto de Gente em Cumuruxatiba.
Noite de Lua Cheia, coração em paz e uma Boa Noite para todos!
segunda-feira, 30 de julho de 2007
julho de 2007
Julho chegou e, com ele, férias escolares, turistas e... baleias. Começou a temporada de avistamento das baleias que passam por Cumuruxatiba em direção a Abrolhos – distante cerca de 125 km, a sudeste -, onde elas encontram uma boa maternidade com um ótimo berçário.
Porém, para o pessoal do Projeto de Gente, mais importante que baleias e todos os turistas foi a chegada do Lucas, filho do Alexandre, do Pedro, grande amigo de Lucas e também, dias depois, e a do Márcio, Coordenador da Associação Projeto de Gente, no Rio de Janeiro. Sobre a estada do Márcio falaremos mais adiante. Lucas e Pedro ficaram por uma semana (8 a 14 de julho). Neste período, passeamos, fomos à barra do Rio Cahy (local mais provável do primeiro encontro entre os navegantes portugueses com os habitantes da terra a que seria dado o nome de Brasil e a 15 quilômetros de Cumuruxatiba), aproveitamos o sol, o mar, conversamos e rimos muito. Uma semana de férias, podemos dizer.
Entretanto, nela, tivemos um encontro importante: com a Gilli e o Juan, ela, israelense, artista plástica, ele, argentino, artesão; ambos com experiência em trabalho com crianças na Ilha de San Andréas, Colômbia. Um casal com idéias e coragem incomuns: seus filhos têm a opção de freqüentar ou não a escola, uma vez que eles, pais, não concordam com o sistema vigente. Foram, portanto, ouvintes e “falantes” atentos à proposta do Projeto de Gente.
Nesta semana também se consolidou um planejamento estratégico para o início das atividades do Projeto de Gente. Este planejamento foi, principalmente, fruto de uma evidência que, embora já compreendida racionalmente, tornou-se cristalinamente sentida e palpável nos últimos dias.
Podemos desenhar o cenário que desejarmos para o Projeto de Gente: 20, 30, 40, 50 crianças; 3, 5, 7, 8 educadores; 15, 20 mestres e seus Projetos de Saber; horário integral; refeições desde o café da manhã até o jantar; etc. Podemos fazer isto porque a energia primordial, arquetípica, que dá vida ao Projeto está claramente definida. Porém, a forma, o protótipo, o verdadeiro e real cenário que esta energia irá organizar está diretamente relacionada com o número de pessoas que são tocadas por ela. Pessoas afinadas com a proposta do trabalho e com alguma disponibilidade de tempo para dedicar às crianças; pessoas que são nosso capital mais precioso. Pessoas que serão o campo onde, mais do que bolas, redes de jogos ou tênis de marca, as crianças poderão se manifestar e se organizar com liberdade, atenção e cuidados podendo, assim, construir autonomia, responsabilidade e reconhecer o amor-próprio.
A perspectiva de criar o cenário que mais desejamos fez com que buscássemos o real, isto é, o possível. Portanto, o plano é muito simples: iniciar as atividades do Projeto de Gente com o pessoal que ofereceu saberes, habilidades e disponibilidade de tempo.
Neste ponto, é bom lembrar que estamos, aqui em Cumuruxatiba, exatamente construindo um piloto que tem, entre outros, o importante objetivo de sensibilizar possíveis patrocinadores para que possamos pagar os trabalhadores do Projeto, adquirir material de trabalho, alimentos, etc. Neste momento, estamos organizando um movimento voluntariado – belo, generoso, mas que não deve ser responsável pela sustentabilidade do Projeto. Aliás, tampouco o patrocínio, privado ou público, será indefinidamente responsável.
Mas, vamos ao plano em linhas gerais: (1) começar as atividades em meio horário – à tarde; (2) com um educador presente integralmente neste período; (3) a princípio, enquanto ainda não tivermos percebido interesses pessoais, serão oferecidos alguns Projetos de Saber (contação de histórias, movimento corporal e jogos, construção dos móveis e pintura da casa, construção de uma oca – com a participação dos índios pataxó – e de uma casa na árvore, trabalho com cores, “para casa” comunitário, etc – já temos mestres para estas opções); (4) realização da primeira assembléia; (5) realização de rodas; (6) oferecer lanches (não almoço e jantar, a princípio) – pão, manteiga, bolo, leite (foi feito um contato com o pessoal da padaria no sentido de comprarmos estes alimentos por um preço negociado) e frutas; (7) além disto, e também fazendo parte do plano, estamos organizando encontros entre os mestres e os educadores para conversarmos sobre os conceitos mais importantes do Projeto de Gente no sentido de harmonizar mais e mais a compreensão do trabalho. (8) Nestes encontros poderemos também perceber melhor muitas questões, como, por exemplo, quantas crianças (número diretamente dependente da quantidade de pessoal trabalhador) e quais (Delicada questão. Divulgação generalizada? Iniciar com as famílias que já se interessaram?). Outro ponto do plano: (9) começar o trabalho, efetivamente, ao longo de agosto – provavelmente na segunda quinzena. Consideramos que antes não seria o mais adequado, uma vez que alguns professores das escolas de Cumuruxatiba, engajados no Projeto, estão de férias, viajando e é importante saber os horários de suas aulas no segundo semestre de 2007.
Agora, um parêntese com a cara do Projeto de Gente: em 23 de julho, fomos convidados – Daniel, Márcio e Alexandre – por um amigo pescador, o Neilton, para pescar em seu barco. Pois bem, durante esta viagem tivemos um emocionante encontro... com as baleias. Num certo momento avistamos, ao longe – quase no horizonte -, os esguichos característicos que se erguiam no ar como se fossem os mastros de um veleiro (foi esta a impressão do Marcio, o primeiro a vê-los). Depois de alguma movimentação na qual elas pareciam fugir de nós, vimos uma imensa baleia, marrom, que parecia ter um manto de limo sobre as costas, quieta na superfície do mar e, de quando em quando, soltando a grande coluna de água. Nos aproximamos lentamente. Neilton parecia pilotar com a ponta dos dedos, sensível e respeitoso. De repente, dois imensos corpos negros surgiram do fundo do mar e passaram a rodear a baleia marrom; parecia uma escolta protetora. A impressão que tínhamos, a princípio, era a de que a baleia estivesse doente; mas, com o movimento das outras, passamos a achar (desejar) que ela estava grávida. De fato, era uma baleia muito larga – lembrava um submarino à tona -, muito mais larga do que as outras. Neilton desligou o motor e, agora no silêncio, as duas e depois outra, passaram a evoluir, mergulhando, levantando a cauda, as nadadeiras laterais – imensas, brancas, muito brancas de um lado -, esguichando, levantando as cabeças e nos olhando. Um espetáculo maravilhoso, emocionante, um casamento de força e doçura, poder e mansidão. Mais tarde, conversando, soubemos que tivemos, todos, o mesmo desejo: nadar ao lado daqueles lindos animais. Um maravilhoso momento está, para sempre, gravado em nossas almas.
Não vamos fechar o parêntese para que a bela energia deste encontro se esparrame pelos outros parágrafos... e chegue até você.
Em 24 de julho, aproveitando a estada do Márcio, o coordenador da Associação e nosso arquiteto-mor, fizemos a medição e as plantas do terreno e da casinha do Projeto. Luiz Fernando fotografando e Mônica, nossa outra arquiteta, desenhando, participaram ativamente deste processo. Com isto feito vamos poder planejar alguma possível intervenção: local de uma horta, da construção da oca, por exemplo. Neste mesmo dia, Daniel podou árvores, fez lenha e rastelou o quintal. Enquanto isso, Alexandre e Luiz Fernando iniciaram a criação do http://oprojetodegente.blogspot.com (linda novidade!)
Na quinta-feira, 26, reunimos um grupo de pessoas para discutir o plano para a implementação das atividades do Projeto de Gente....; mas agora vamos, novamente, aproveitar a presença do Márcio e passar a caneta, ou melhor, o teclado para que ele nos fale sobre este encontro e suas sensações-impressões-intuições-reflexões a respeito de Cumuru e do Projeto de Gente em Cumuru:
“Encontro. Esta palavra tem feito parte dos meus dias, há algum tempo, por variadas razões. E, tendo em vista, a perspectiva de estar no local próximo ao primeiro encontro dos que chegaram de fora com essa terra e seus habitantes, há mais de 500 anos – e talvez não só por isso -, penso que ela ganhou novos significados, trouxe fortes emoções e profundas reflexões. Tudo no delicioso ritmo Cumuruxatiba de ser, fluindo num fortíssimo contato com a natureza e suas manifestações.
Fiquei impressionado com a vasta rede de pessoas que já tinham tido contato com as idéias do Projeto de Gente, fruto do trabalho de 2 meses do Alexandre (completados hoje), obviamente construído sob a generosa oferta desta rede pelo Daniel. Pessoas de variadas origens, da terra ou de fora, com mais ou menos grana, mais ou menos integrados à comunidade que já estabeleciam algum ponto de encontro com o Projeto.
Senti-me muito bem recebido aqui, por todos. Senti-me um observador muito atendo, buscando captar tudo, dentro e fora de mim, que pudesse ampliar minha compreensão sobre essa rápida passagem por aqui e quais são as minhas reais ofertas para o Projeto em Cumuruxatiba e pra mim mesmo aqui.
Assim como as belezas de Cumuruxatiba foram se mostrando aos poucos pra mim, com os movimentos de marés, do sol e do vento, foram também se construindo os vínculos com pessoas e com o local. Aqui experimentei uma sensação de pertencimento muito forte. E foi assim que já me vi pensando no retorno ao Rio e na importância de estar lá batalhando mais por recursos pra fortalecer o Projeto aqui, e em quando voltarei e com que freqüência.
E isso só me reforça a crença de que o Projeto de Gente encontrou um campo fértil para se desenvolver saudável e feliz, sendo nutritivo e nutrindo-se dessa Cumuruxatiba que acabei de conhecer. E como parte do Projeto assim encontro-me também.
Por tudo isso agradeço profundamente a todos que pude conhecer, de quem levo um pouco da luz comigo amanhã e especialmente ao meu irmão de caminhada Alexandre, fonte de luz e força permanente.”
Depois deste belo depoimento, vamos retomar o encontro do dia 26: para um grupo de pessoas, de variadas atividades, possíveis colaboradores do Projeto: artistas plásticos, dentistas, biólogas, arquitetas e arquitetos, fotógrafos, professoras, sociólogas, apresentamos o planejamento proposto para agosto. Surgiram idéias; reafirmou-se a necessária atenção a certas questões (item 8 do plano); sugestões enriquecedoras (convite às esquecidas avós – um comum campo de mater-paternagem para muitas crianças de Cumuru; muitas delas artesãs, além de costureiras e cozinheiras. Lembrou-se do Seu Cosme, carpinteiro habilidoso e aposentado para o projeto de construção dos móveis); Helena falou sobre a importância de não perdermos a oportunidade de elaborar estes saberes do ponto de vista conceitual; combinamos um novo encontro, provavelmente em 7 dias, já com uma possível grade de mestres organizada.
Daniel e Márcio seguem para o Rio de Janeiro dia 28/07... e vida que segue... Até breve!
Porém, para o pessoal do Projeto de Gente, mais importante que baleias e todos os turistas foi a chegada do Lucas, filho do Alexandre, do Pedro, grande amigo de Lucas e também, dias depois, e a do Márcio, Coordenador da Associação Projeto de Gente, no Rio de Janeiro. Sobre a estada do Márcio falaremos mais adiante. Lucas e Pedro ficaram por uma semana (8 a 14 de julho). Neste período, passeamos, fomos à barra do Rio Cahy (local mais provável do primeiro encontro entre os navegantes portugueses com os habitantes da terra a que seria dado o nome de Brasil e a 15 quilômetros de Cumuruxatiba), aproveitamos o sol, o mar, conversamos e rimos muito. Uma semana de férias, podemos dizer.
Entretanto, nela, tivemos um encontro importante: com a Gilli e o Juan, ela, israelense, artista plástica, ele, argentino, artesão; ambos com experiência em trabalho com crianças na Ilha de San Andréas, Colômbia. Um casal com idéias e coragem incomuns: seus filhos têm a opção de freqüentar ou não a escola, uma vez que eles, pais, não concordam com o sistema vigente. Foram, portanto, ouvintes e “falantes” atentos à proposta do Projeto de Gente.
Nesta semana também se consolidou um planejamento estratégico para o início das atividades do Projeto de Gente. Este planejamento foi, principalmente, fruto de uma evidência que, embora já compreendida racionalmente, tornou-se cristalinamente sentida e palpável nos últimos dias.
Podemos desenhar o cenário que desejarmos para o Projeto de Gente: 20, 30, 40, 50 crianças; 3, 5, 7, 8 educadores; 15, 20 mestres e seus Projetos de Saber; horário integral; refeições desde o café da manhã até o jantar; etc. Podemos fazer isto porque a energia primordial, arquetípica, que dá vida ao Projeto está claramente definida. Porém, a forma, o protótipo, o verdadeiro e real cenário que esta energia irá organizar está diretamente relacionada com o número de pessoas que são tocadas por ela. Pessoas afinadas com a proposta do trabalho e com alguma disponibilidade de tempo para dedicar às crianças; pessoas que são nosso capital mais precioso. Pessoas que serão o campo onde, mais do que bolas, redes de jogos ou tênis de marca, as crianças poderão se manifestar e se organizar com liberdade, atenção e cuidados podendo, assim, construir autonomia, responsabilidade e reconhecer o amor-próprio.
A perspectiva de criar o cenário que mais desejamos fez com que buscássemos o real, isto é, o possível. Portanto, o plano é muito simples: iniciar as atividades do Projeto de Gente com o pessoal que ofereceu saberes, habilidades e disponibilidade de tempo.
Neste ponto, é bom lembrar que estamos, aqui em Cumuruxatiba, exatamente construindo um piloto que tem, entre outros, o importante objetivo de sensibilizar possíveis patrocinadores para que possamos pagar os trabalhadores do Projeto, adquirir material de trabalho, alimentos, etc. Neste momento, estamos organizando um movimento voluntariado – belo, generoso, mas que não deve ser responsável pela sustentabilidade do Projeto. Aliás, tampouco o patrocínio, privado ou público, será indefinidamente responsável.
Mas, vamos ao plano em linhas gerais: (1) começar as atividades em meio horário – à tarde; (2) com um educador presente integralmente neste período; (3) a princípio, enquanto ainda não tivermos percebido interesses pessoais, serão oferecidos alguns Projetos de Saber (contação de histórias, movimento corporal e jogos, construção dos móveis e pintura da casa, construção de uma oca – com a participação dos índios pataxó – e de uma casa na árvore, trabalho com cores, “para casa” comunitário, etc – já temos mestres para estas opções); (4) realização da primeira assembléia; (5) realização de rodas; (6) oferecer lanches (não almoço e jantar, a princípio) – pão, manteiga, bolo, leite (foi feito um contato com o pessoal da padaria no sentido de comprarmos estes alimentos por um preço negociado) e frutas; (7) além disto, e também fazendo parte do plano, estamos organizando encontros entre os mestres e os educadores para conversarmos sobre os conceitos mais importantes do Projeto de Gente no sentido de harmonizar mais e mais a compreensão do trabalho. (8) Nestes encontros poderemos também perceber melhor muitas questões, como, por exemplo, quantas crianças (número diretamente dependente da quantidade de pessoal trabalhador) e quais (Delicada questão. Divulgação generalizada? Iniciar com as famílias que já se interessaram?). Outro ponto do plano: (9) começar o trabalho, efetivamente, ao longo de agosto – provavelmente na segunda quinzena. Consideramos que antes não seria o mais adequado, uma vez que alguns professores das escolas de Cumuruxatiba, engajados no Projeto, estão de férias, viajando e é importante saber os horários de suas aulas no segundo semestre de 2007.
Agora, um parêntese com a cara do Projeto de Gente: em 23 de julho, fomos convidados – Daniel, Márcio e Alexandre – por um amigo pescador, o Neilton, para pescar em seu barco. Pois bem, durante esta viagem tivemos um emocionante encontro... com as baleias. Num certo momento avistamos, ao longe – quase no horizonte -, os esguichos característicos que se erguiam no ar como se fossem os mastros de um veleiro (foi esta a impressão do Marcio, o primeiro a vê-los). Depois de alguma movimentação na qual elas pareciam fugir de nós, vimos uma imensa baleia, marrom, que parecia ter um manto de limo sobre as costas, quieta na superfície do mar e, de quando em quando, soltando a grande coluna de água. Nos aproximamos lentamente. Neilton parecia pilotar com a ponta dos dedos, sensível e respeitoso. De repente, dois imensos corpos negros surgiram do fundo do mar e passaram a rodear a baleia marrom; parecia uma escolta protetora. A impressão que tínhamos, a princípio, era a de que a baleia estivesse doente; mas, com o movimento das outras, passamos a achar (desejar) que ela estava grávida. De fato, era uma baleia muito larga – lembrava um submarino à tona -, muito mais larga do que as outras. Neilton desligou o motor e, agora no silêncio, as duas e depois outra, passaram a evoluir, mergulhando, levantando a cauda, as nadadeiras laterais – imensas, brancas, muito brancas de um lado -, esguichando, levantando as cabeças e nos olhando. Um espetáculo maravilhoso, emocionante, um casamento de força e doçura, poder e mansidão. Mais tarde, conversando, soubemos que tivemos, todos, o mesmo desejo: nadar ao lado daqueles lindos animais. Um maravilhoso momento está, para sempre, gravado em nossas almas.
Não vamos fechar o parêntese para que a bela energia deste encontro se esparrame pelos outros parágrafos... e chegue até você.
Em 24 de julho, aproveitando a estada do Márcio, o coordenador da Associação e nosso arquiteto-mor, fizemos a medição e as plantas do terreno e da casinha do Projeto. Luiz Fernando fotografando e Mônica, nossa outra arquiteta, desenhando, participaram ativamente deste processo. Com isto feito vamos poder planejar alguma possível intervenção: local de uma horta, da construção da oca, por exemplo. Neste mesmo dia, Daniel podou árvores, fez lenha e rastelou o quintal. Enquanto isso, Alexandre e Luiz Fernando iniciaram a criação do http://oprojetodegente.blogspot.com (linda novidade!)
Na quinta-feira, 26, reunimos um grupo de pessoas para discutir o plano para a implementação das atividades do Projeto de Gente....; mas agora vamos, novamente, aproveitar a presença do Márcio e passar a caneta, ou melhor, o teclado para que ele nos fale sobre este encontro e suas sensações-impressões-intuições-reflexões a respeito de Cumuru e do Projeto de Gente em Cumuru:
“Encontro. Esta palavra tem feito parte dos meus dias, há algum tempo, por variadas razões. E, tendo em vista, a perspectiva de estar no local próximo ao primeiro encontro dos que chegaram de fora com essa terra e seus habitantes, há mais de 500 anos – e talvez não só por isso -, penso que ela ganhou novos significados, trouxe fortes emoções e profundas reflexões. Tudo no delicioso ritmo Cumuruxatiba de ser, fluindo num fortíssimo contato com a natureza e suas manifestações.
Fiquei impressionado com a vasta rede de pessoas que já tinham tido contato com as idéias do Projeto de Gente, fruto do trabalho de 2 meses do Alexandre (completados hoje), obviamente construído sob a generosa oferta desta rede pelo Daniel. Pessoas de variadas origens, da terra ou de fora, com mais ou menos grana, mais ou menos integrados à comunidade que já estabeleciam algum ponto de encontro com o Projeto.
Senti-me muito bem recebido aqui, por todos. Senti-me um observador muito atendo, buscando captar tudo, dentro e fora de mim, que pudesse ampliar minha compreensão sobre essa rápida passagem por aqui e quais são as minhas reais ofertas para o Projeto em Cumuruxatiba e pra mim mesmo aqui.
Assim como as belezas de Cumuruxatiba foram se mostrando aos poucos pra mim, com os movimentos de marés, do sol e do vento, foram também se construindo os vínculos com pessoas e com o local. Aqui experimentei uma sensação de pertencimento muito forte. E foi assim que já me vi pensando no retorno ao Rio e na importância de estar lá batalhando mais por recursos pra fortalecer o Projeto aqui, e em quando voltarei e com que freqüência.
E isso só me reforça a crença de que o Projeto de Gente encontrou um campo fértil para se desenvolver saudável e feliz, sendo nutritivo e nutrindo-se dessa Cumuruxatiba que acabei de conhecer. E como parte do Projeto assim encontro-me também.
Por tudo isso agradeço profundamente a todos que pude conhecer, de quem levo um pouco da luz comigo amanhã e especialmente ao meu irmão de caminhada Alexandre, fonte de luz e força permanente.”
Depois deste belo depoimento, vamos retomar o encontro do dia 26: para um grupo de pessoas, de variadas atividades, possíveis colaboradores do Projeto: artistas plásticos, dentistas, biólogas, arquitetas e arquitetos, fotógrafos, professoras, sociólogas, apresentamos o planejamento proposto para agosto. Surgiram idéias; reafirmou-se a necessária atenção a certas questões (item 8 do plano); sugestões enriquecedoras (convite às esquecidas avós – um comum campo de mater-paternagem para muitas crianças de Cumuru; muitas delas artesãs, além de costureiras e cozinheiras. Lembrou-se do Seu Cosme, carpinteiro habilidoso e aposentado para o projeto de construção dos móveis); Helena falou sobre a importância de não perdermos a oportunidade de elaborar estes saberes do ponto de vista conceitual; combinamos um novo encontro, provavelmente em 7 dias, já com uma possível grade de mestres organizada.
Daniel e Márcio seguem para o Rio de Janeiro dia 28/07... e vida que segue... Até breve!
junho de 2007
Em 27 de maio de 2007, quando o Projeto de Gente chegou em Cumuruxatiba, sabíamos a hora – 17:30h – e que, três dias depois, haveria Lua Cheia – a segunda no mesmo mês, uma circunstância relativamente incomum e que é conhecida como a LUA AZUL; mas não sabíamos qual a direção do vento nem como estava a maré naquele momento.
Hoje, 29 de junho, são 12:30h e agora sabemos que o vento bate de leste – vento bom para trazer os pescadores na volta do mar. Porém, hoje quase ninguém saiu porque não soprou o terral – o vento que enche as velas e que sopra da terra para o mar – na madrugada e, por isto, apenas os que possuem barco – com motor – foram pescar; sabemos também que a maré está subindo; que às 15:15h estará no máximo; e que, amanhã pela manhã, quando a maré baixar, será um bom momento para pegar polvos em suas locas nas pedras – e, amanhã, ela vai baixar forte porque será noite de Lua Cheia. A segunda Lua Cheia do Projeto de Gente em Cumuruxatiba – a nossa LUA AZUL.
Em 27 de maio, ainda parado na parada do ônibus, sem saber exatamente o que fazer, a quem recorrer para ajudar a carregar a relativamente grande bagagem, vimos surgir naturalmente Nego e Mujinha – pescadores,... construtores, mecânicos – porque, aqui em Cumuruxatiba, todos têm muitas habilidades e ofícios -, amigos desde a nossa vinda em março. Eles ajudaram a carregar as malas para a casinha em cima da falésia. Carregar, descarregar... e carregar novamente porque esta primeira casinha estava habitada por, pelo menos, uma bela família de morcegos. Fomos, então, para a segunda casinha do terreno do Dr. Novaes – pai do Daniel que, gentilmente, ofereceu uma de suas casinhas para morarmos neste primeiro momento.
Nos dias seguintes, além de irmos, aos poucos, percebendo o ritmo da vida – que, aqui, acontece muito, muito próximo dos ciclos da natureza: as marés, os ventos, as estações, a chegada da baleia – fomos encontrando (e reencontrando) pessoas em um movimento de, podemos dizer, grande sincronicidade tal a facilidade e as aparentes coincidências com que os contatos foram se sucedendo.
Primeiro, as “aparições” de Nego e Mujinha que não haviam combinado nada, nem entre si e, muito menos, conosco. Na verdade, Nego havia acabado de se comunicar com Daniel – estava exatamente vindo do telefone público – para saber se viríamos de fato. Depois, no dia seguinte, almoçando no pequeno restaurante de D. Dalva – excelente cozinheira e avó do menino Lucas a quem cria sozinha, pois o pai vive em SP e que, também por isto, interessou-se muito pelo Projeto – fomos apresentados ao Marquinhos, diretor da Escola Municipal Antônio Climério (uma das três escolas municipais que atendem aos cerca de 1000 estudantes de Cumuruxatiba) e à Shirley, coordenadora pedagógica da E. M. Tiradentes. Logo depois do almoço fomos à Antônio Climério para apresentar o Projeto de Gente ao Marquinhos e à Eliana, coordenadora pedagógica desta escola. Conhecemos toda a escola que tem, mais ou menos, 300 estudantes e uma turma de crianças com necessidades especiais da qual muito se orgulham. Eles se mostraram bem animados com a perspectiva de troca entre o projeto e a escola. (foto Mujinha)
Reencontramos, já no dia seguinte, o James e a Verônica, também conhecidos da viagem de março, entusiastas e divulgadores do trabalho. Para confirmar isto, no mesmo dia, conhecemos a Helena – socióloga e cientista política – e o Luiz Fernando – designer gráfico – que moram aqui há cerca de 2 anos e foram apresentados ao projeto por James. Aliás, James é escocês e fotógrafo e Verônica, húngara de nascimento e artista plástica de profissão. Também reencontramos a Breda, professora dos pequenos na Tiradentes. Breda já havia se interessado pelo trabalho desde março, quando conversamos. Neste meio tempo ela leu o Memorial Descritivo do Projeto de Gente e manifestou muito interesse em trabalhar conosco. Uma ótima colaboradora, pois, além de ter nascido na terra, é muito querida, conhece bem as crianças e as necessidades da escola.
Mais um almoço na Dalva e conhecemos a Ana Paula, carioca e professora na E. M. Algeziro Moura. Conversamos sobre o Projeto e ela nos encheu de perguntas e comentários interessantes. Desde este momento, interessou-se por colaborar, de algum modo, conosco.
Depois o reencontro com um “velho” amigo: o Seu Messias, pedreiro, pintor, músico, poeta, conhecedor das árvores. Um dia, limpando o terreno da casinha do Projeto de Gente – que foi emprestada pelo Daniel e Letícia para ser a sede do Projeto – ouvimos Seu Messias cantando uma música, feita por ele, sobre as crianças. Neste mesmo dia, ele disse que era melhor não cortar certa madeira porque ela era boa para fazer gaiola de passarinho – o que não gostamos muito – e casinhas e curraizinhos para uma fazendinha de brinquedo – o que muito nos interessou.
Conhecemos, então, a Letícia, diretora da E. M. Tiradentes – que é a escola dos pequeninos (pré-escola e fundamental I). Conversamos bastante tempo e, ficou claro, ela é mais uma parceira do Projeto de Gente. Foi ela que nos apresentou à Rosângela, diretora da E. M. Algeziro Moura. Outra excelente conversa que resultou em novos contatos: Bia, professora de biologia, criadora de um grupo de trabalho formado por jovens e ligado ao meio ambiente; Sérgio e Lu, um casal de mineiros professores de educação física.
Uma curiosidade: depois de uma visita à Algeziro Moura; aliás, de verdade mesmo, depois de uma apresentação teatral de uma trupe de meninos e meninas, estudantes desta escola – dirigidos pela professora Adriana com muita sucata e criatividade e preocupados com o problema do aquecimento global -, percebemos a Biblioteca Pública de Cumuruxatiba aberta. Resolvemos conhecê-la e, lá, encontramos uma turma de rapazes e moças preparando o Correio do Amor para as festas de Sto. Antônio. Papo vai, papo vem e falamos sobre o Projeto. Quando dissemos que as crianças poderiam fazer os deveres de casa no Projeto, ouvimos uma vozinha vinda da sala ao lado: “Isto é bom porque quem cuida de mim é meu avô e ele não sabe ler nem escrever direito e um monte de vezes quero ajuda mas não dá pé!” Era o Rafael, 11 anos, que ainda disse que queria ser o “primeirão” no Projeto.
Por conta da boa sorte, poucos dias após nossa chegada, começavam os 13 dias de festas em homenagem a Sto. Antônio, o padroeiro da vila. Nestes dias tivemos a oportunidade de conhecer uma fila grande de gente que, perguntando o propósito de nossa estada em Cumuru assim fora de estação, se interessaram ao ouvir a resposta. Foi assim que travamos contato com: Ricardo e Andréia, o casal de dentistas, carinhosos pai e mãe do pequeno Theo, ótimas pessoas, muito ligados aos movimentos que buscam melhorar a qualidade de vida dos moradores; Mônica Vaz, arquiteta de SP; Su, gerente de uma pousada; alguns donos de pousada, como o Miguel, o Hans e a Esther.
Um dia, conversando com Rita – mulher de Nego, mãe de 5 filhos (Hygino, Marta, Talita, Esther e Carla), professora da Escola Indígena da Aldeia Cahy, dona de casa, liderança na aldeia, artesã, muito interessada no Projeto -, recebemos o convite de visitar a Cahy num dia de festa em que seria dançado o Toré (o Awé, na língua pataxó). Neste mesmo dia conhecemos D. Jovita, mãe de Rita e esposa do Cacique Timborana, uma mulher de forte personalidade e coragem, carinhosa e gentil, cuida de 6 crianças que foram abandonadas por seus familiares. Ela reiterou o convite para irmos à aldeia. (foto nego)
Fomos. Uma linda vivência: conversa com o cacique no interior de uma oca feita de pau a pique e tabatinga – uma argila que parece cimento por conta de sua cor e dureza – até a altura das janelas que, por sua vez, circundam toda a estrutura cilíndrica da construção. As janelas se abrem para dentro e para cima; deste modo, o ar circula em todas as direções. Isto, junto com o teto de sapé, cria uma atmosfera de frescor – e o sol estava a pino quando entramos para conversar. O teto é sustentado por varas de madeira que apontam para cima e para o centro da oca. Bem no meio – e no alto - elas se encontram e são presas por uma espécie de pião que as sustentam sem a necessidade de uma estaca central. Assistimos a apresentação do Toré – a dança ritualística com as crianças fazendo uma roda no interior de outra, como estivessem protegidas por esta segunda roda externa, formada por homens e mulheres. Com passos marcados, cantam músicas que falam sobre o povo pataxó, pedem proteção a Tupã e tocam marimbas (um chocalho feito de cabaça) de vários tons. Depois, almoço de índio – arroz, feijão, galinha, mandioca, farinha e água fresquinha –; banho de rio;... e alguns – muitos – micuins que adoraram o sangue, também fresquinho, dos novatos. Repetimos a dose uma semana depois em outro dia de Toré.
Mais gente: Ângela, já trabalhou na Pastoral da Criança e cria um menino de 10 anos, mais ou menos; Alexandre, o pipoqueiro das festas, mototaxista e construtor de seu próprio quiosque de praia; Alice, ex-dona de loja de roupas femininas em SP e que se interessou em trabalhar no cotidiano do Projeto; Neusivan, pescador de olhos serenos, riso franco, pai de 3 filhos e filho de Mauro – pescador e patriarca de uma grande família; Seu Oscar, velho pescador, cheio de histórias e conhecimento das coisas do mar; Eva, artista plástica; Gerliel, pescador forte e risonho; Neilton, faz mergulho de apnéia, caça submarina e, sem nenhuma arrogância, orgulhoso de suas proezas; D. Vera, professora, ótima cozinheira e mãe do esperto Guilherme de 3 anos – que adora ir para a escola; Airton, homem culto e com uma visão bem clara e original a respeito da formação da sociedade cumuruxatibana, dono de uma lan-house e professor de informática para os rapazes e moças da vila que o respeitam muito, casado com Vivi que tem um filho de 9 anos; Dondi, artesão imensamente habilidoso, carpinteiro que cria móveis a partir de madeira caída da floresta (ele, junto com 2 outros artesãos, pode vir a ser um dos mestres do Projeto, pois existe uma boa chance de que um dos primeiros Projetos de Saber seja a construção – com as crianças, os educadores e colaboradores – dos móveis da casinha-sede; Hygino (já o mencionamos: filho de Rita, mas vale a pena voltar a falar), 16 anos, cheio de habilidades e energia, músico, aprendeu violão (“... assim, só de ouvir as seqüências das notas...”) e teclado (“... é mais fácil...”), tem uma proposta de atividade para o Projeto que, por enquanto, é segredo (“... quero pensar um pouquinho mais...”); Andréia, bióloga, com um filhinho de 10 meses e que, também por isto, vem pensando muito em alternativas à pedagogia mais comum. (foto Mauro)
Como em toda sociedade, também em Cumuru, existem tensões: pessoais, políticas e sociais. Entretanto, a entrada do Projeto de Gente aconteceu, natural e simultaneamente, por diversos caminhos: (1) os pescadores, (2) pessoas que vieram de vários lugares do Brasil e do mundo, (3) professoras e professores, (4) a comunidade indígena e, por último e mais importante, (5) as crianças e jovens.
Depois destes contatos, resolvemos realizar uma reunião com as pessoas que mais se dispuseram a auxiliar na implantação do Projeto de Gente. A pauta era sobre aspectos práticos – quantas crianças, quais, horários, etc, etc. Marcamos para o dia 24 de junho. Convidamos 20 pessoas, puderam comparecer 15.
Foi uma boa reunião, produtiva, entusiasmada por parte de uns, tímida por conta de outros – houve quem veio revelar uma ou mais idéias depois do encontro. Nela também foi possível reafirmar certos conceitos do trabalho.
Ao fim deste encontro ficou claro que é absolutamente necessário formar uma equipe de trabalho. Uma equipe que representa a linha que o Projeto de Gente oferece para que, trançada com outras – familiares, agentes de mater-paternagem, escola – se forme a rede de proteção sobre a qual (e não envolvida por ela) as crianças “... empreenderão, elas próprias, a construção de seu ser...”(Antônio Carlos Gomes da Costa), o campo no qual as crianças vão poder se organizar.
Combinamos, então, novo encontro com este propósito. Foi realizado em 28 de junho. Temos, neste instante, além de Alexandre e Daniel, a Ana Paula, o Sérgio e a Alice com disponibilidade de tempo para o Projeto de Gente em Cumuruxatiba. Ainda sem tempos definidos: Breda, Mujinha, Rita – muito ocupada mas estamos organizando -, Hygino, Mônica, Andréia. James e Verônica estão em compasso de espera, pois podem, eventualmente, sair de Cumuru. Helena se propôs, com sua experiência, a fazer o registro do cotidiano do Projeto de Gente.
Ainda deixamos na alça de mira a possibilidade de realizarmos alguma atividade nas duas ou na última semana de julho. O propósito – Plano A – é começar o trabalho efetivo, em agosto, com um número de crianças dependente do número de pessoas – educadores e mestres – com disponibilidade de tempo para participar das atividades do Projeto de Gente.
Hoje, 29 de junho, são 12:30h e agora sabemos que o vento bate de leste – vento bom para trazer os pescadores na volta do mar. Porém, hoje quase ninguém saiu porque não soprou o terral – o vento que enche as velas e que sopra da terra para o mar – na madrugada e, por isto, apenas os que possuem barco – com motor – foram pescar; sabemos também que a maré está subindo; que às 15:15h estará no máximo; e que, amanhã pela manhã, quando a maré baixar, será um bom momento para pegar polvos em suas locas nas pedras – e, amanhã, ela vai baixar forte porque será noite de Lua Cheia. A segunda Lua Cheia do Projeto de Gente em Cumuruxatiba – a nossa LUA AZUL.
Em 27 de maio, ainda parado na parada do ônibus, sem saber exatamente o que fazer, a quem recorrer para ajudar a carregar a relativamente grande bagagem, vimos surgir naturalmente Nego e Mujinha – pescadores,... construtores, mecânicos – porque, aqui em Cumuruxatiba, todos têm muitas habilidades e ofícios -, amigos desde a nossa vinda em março. Eles ajudaram a carregar as malas para a casinha em cima da falésia. Carregar, descarregar... e carregar novamente porque esta primeira casinha estava habitada por, pelo menos, uma bela família de morcegos. Fomos, então, para a segunda casinha do terreno do Dr. Novaes – pai do Daniel que, gentilmente, ofereceu uma de suas casinhas para morarmos neste primeiro momento.
Nos dias seguintes, além de irmos, aos poucos, percebendo o ritmo da vida – que, aqui, acontece muito, muito próximo dos ciclos da natureza: as marés, os ventos, as estações, a chegada da baleia – fomos encontrando (e reencontrando) pessoas em um movimento de, podemos dizer, grande sincronicidade tal a facilidade e as aparentes coincidências com que os contatos foram se sucedendo.
Primeiro, as “aparições” de Nego e Mujinha que não haviam combinado nada, nem entre si e, muito menos, conosco. Na verdade, Nego havia acabado de se comunicar com Daniel – estava exatamente vindo do telefone público – para saber se viríamos de fato. Depois, no dia seguinte, almoçando no pequeno restaurante de D. Dalva – excelente cozinheira e avó do menino Lucas a quem cria sozinha, pois o pai vive em SP e que, também por isto, interessou-se muito pelo Projeto – fomos apresentados ao Marquinhos, diretor da Escola Municipal Antônio Climério (uma das três escolas municipais que atendem aos cerca de 1000 estudantes de Cumuruxatiba) e à Shirley, coordenadora pedagógica da E. M. Tiradentes. Logo depois do almoço fomos à Antônio Climério para apresentar o Projeto de Gente ao Marquinhos e à Eliana, coordenadora pedagógica desta escola. Conhecemos toda a escola que tem, mais ou menos, 300 estudantes e uma turma de crianças com necessidades especiais da qual muito se orgulham. Eles se mostraram bem animados com a perspectiva de troca entre o projeto e a escola. (foto Mujinha)
Reencontramos, já no dia seguinte, o James e a Verônica, também conhecidos da viagem de março, entusiastas e divulgadores do trabalho. Para confirmar isto, no mesmo dia, conhecemos a Helena – socióloga e cientista política – e o Luiz Fernando – designer gráfico – que moram aqui há cerca de 2 anos e foram apresentados ao projeto por James. Aliás, James é escocês e fotógrafo e Verônica, húngara de nascimento e artista plástica de profissão. Também reencontramos a Breda, professora dos pequenos na Tiradentes. Breda já havia se interessado pelo trabalho desde março, quando conversamos. Neste meio tempo ela leu o Memorial Descritivo do Projeto de Gente e manifestou muito interesse em trabalhar conosco. Uma ótima colaboradora, pois, além de ter nascido na terra, é muito querida, conhece bem as crianças e as necessidades da escola.
Mais um almoço na Dalva e conhecemos a Ana Paula, carioca e professora na E. M. Algeziro Moura. Conversamos sobre o Projeto e ela nos encheu de perguntas e comentários interessantes. Desde este momento, interessou-se por colaborar, de algum modo, conosco.
Depois o reencontro com um “velho” amigo: o Seu Messias, pedreiro, pintor, músico, poeta, conhecedor das árvores. Um dia, limpando o terreno da casinha do Projeto de Gente – que foi emprestada pelo Daniel e Letícia para ser a sede do Projeto – ouvimos Seu Messias cantando uma música, feita por ele, sobre as crianças. Neste mesmo dia, ele disse que era melhor não cortar certa madeira porque ela era boa para fazer gaiola de passarinho – o que não gostamos muito – e casinhas e curraizinhos para uma fazendinha de brinquedo – o que muito nos interessou.
Conhecemos, então, a Letícia, diretora da E. M. Tiradentes – que é a escola dos pequeninos (pré-escola e fundamental I). Conversamos bastante tempo e, ficou claro, ela é mais uma parceira do Projeto de Gente. Foi ela que nos apresentou à Rosângela, diretora da E. M. Algeziro Moura. Outra excelente conversa que resultou em novos contatos: Bia, professora de biologia, criadora de um grupo de trabalho formado por jovens e ligado ao meio ambiente; Sérgio e Lu, um casal de mineiros professores de educação física.
Uma curiosidade: depois de uma visita à Algeziro Moura; aliás, de verdade mesmo, depois de uma apresentação teatral de uma trupe de meninos e meninas, estudantes desta escola – dirigidos pela professora Adriana com muita sucata e criatividade e preocupados com o problema do aquecimento global -, percebemos a Biblioteca Pública de Cumuruxatiba aberta. Resolvemos conhecê-la e, lá, encontramos uma turma de rapazes e moças preparando o Correio do Amor para as festas de Sto. Antônio. Papo vai, papo vem e falamos sobre o Projeto. Quando dissemos que as crianças poderiam fazer os deveres de casa no Projeto, ouvimos uma vozinha vinda da sala ao lado: “Isto é bom porque quem cuida de mim é meu avô e ele não sabe ler nem escrever direito e um monte de vezes quero ajuda mas não dá pé!” Era o Rafael, 11 anos, que ainda disse que queria ser o “primeirão” no Projeto.
Por conta da boa sorte, poucos dias após nossa chegada, começavam os 13 dias de festas em homenagem a Sto. Antônio, o padroeiro da vila. Nestes dias tivemos a oportunidade de conhecer uma fila grande de gente que, perguntando o propósito de nossa estada em Cumuru assim fora de estação, se interessaram ao ouvir a resposta. Foi assim que travamos contato com: Ricardo e Andréia, o casal de dentistas, carinhosos pai e mãe do pequeno Theo, ótimas pessoas, muito ligados aos movimentos que buscam melhorar a qualidade de vida dos moradores; Mônica Vaz, arquiteta de SP; Su, gerente de uma pousada; alguns donos de pousada, como o Miguel, o Hans e a Esther.
Um dia, conversando com Rita – mulher de Nego, mãe de 5 filhos (Hygino, Marta, Talita, Esther e Carla), professora da Escola Indígena da Aldeia Cahy, dona de casa, liderança na aldeia, artesã, muito interessada no Projeto -, recebemos o convite de visitar a Cahy num dia de festa em que seria dançado o Toré (o Awé, na língua pataxó). Neste mesmo dia conhecemos D. Jovita, mãe de Rita e esposa do Cacique Timborana, uma mulher de forte personalidade e coragem, carinhosa e gentil, cuida de 6 crianças que foram abandonadas por seus familiares. Ela reiterou o convite para irmos à aldeia. (foto nego)
Fomos. Uma linda vivência: conversa com o cacique no interior de uma oca feita de pau a pique e tabatinga – uma argila que parece cimento por conta de sua cor e dureza – até a altura das janelas que, por sua vez, circundam toda a estrutura cilíndrica da construção. As janelas se abrem para dentro e para cima; deste modo, o ar circula em todas as direções. Isto, junto com o teto de sapé, cria uma atmosfera de frescor – e o sol estava a pino quando entramos para conversar. O teto é sustentado por varas de madeira que apontam para cima e para o centro da oca. Bem no meio – e no alto - elas se encontram e são presas por uma espécie de pião que as sustentam sem a necessidade de uma estaca central. Assistimos a apresentação do Toré – a dança ritualística com as crianças fazendo uma roda no interior de outra, como estivessem protegidas por esta segunda roda externa, formada por homens e mulheres. Com passos marcados, cantam músicas que falam sobre o povo pataxó, pedem proteção a Tupã e tocam marimbas (um chocalho feito de cabaça) de vários tons. Depois, almoço de índio – arroz, feijão, galinha, mandioca, farinha e água fresquinha –; banho de rio;... e alguns – muitos – micuins que adoraram o sangue, também fresquinho, dos novatos. Repetimos a dose uma semana depois em outro dia de Toré.
Mais gente: Ângela, já trabalhou na Pastoral da Criança e cria um menino de 10 anos, mais ou menos; Alexandre, o pipoqueiro das festas, mototaxista e construtor de seu próprio quiosque de praia; Alice, ex-dona de loja de roupas femininas em SP e que se interessou em trabalhar no cotidiano do Projeto; Neusivan, pescador de olhos serenos, riso franco, pai de 3 filhos e filho de Mauro – pescador e patriarca de uma grande família; Seu Oscar, velho pescador, cheio de histórias e conhecimento das coisas do mar; Eva, artista plástica; Gerliel, pescador forte e risonho; Neilton, faz mergulho de apnéia, caça submarina e, sem nenhuma arrogância, orgulhoso de suas proezas; D. Vera, professora, ótima cozinheira e mãe do esperto Guilherme de 3 anos – que adora ir para a escola; Airton, homem culto e com uma visão bem clara e original a respeito da formação da sociedade cumuruxatibana, dono de uma lan-house e professor de informática para os rapazes e moças da vila que o respeitam muito, casado com Vivi que tem um filho de 9 anos; Dondi, artesão imensamente habilidoso, carpinteiro que cria móveis a partir de madeira caída da floresta (ele, junto com 2 outros artesãos, pode vir a ser um dos mestres do Projeto, pois existe uma boa chance de que um dos primeiros Projetos de Saber seja a construção – com as crianças, os educadores e colaboradores – dos móveis da casinha-sede; Hygino (já o mencionamos: filho de Rita, mas vale a pena voltar a falar), 16 anos, cheio de habilidades e energia, músico, aprendeu violão (“... assim, só de ouvir as seqüências das notas...”) e teclado (“... é mais fácil...”), tem uma proposta de atividade para o Projeto que, por enquanto, é segredo (“... quero pensar um pouquinho mais...”); Andréia, bióloga, com um filhinho de 10 meses e que, também por isto, vem pensando muito em alternativas à pedagogia mais comum. (foto Mauro)
Como em toda sociedade, também em Cumuru, existem tensões: pessoais, políticas e sociais. Entretanto, a entrada do Projeto de Gente aconteceu, natural e simultaneamente, por diversos caminhos: (1) os pescadores, (2) pessoas que vieram de vários lugares do Brasil e do mundo, (3) professoras e professores, (4) a comunidade indígena e, por último e mais importante, (5) as crianças e jovens.
Depois destes contatos, resolvemos realizar uma reunião com as pessoas que mais se dispuseram a auxiliar na implantação do Projeto de Gente. A pauta era sobre aspectos práticos – quantas crianças, quais, horários, etc, etc. Marcamos para o dia 24 de junho. Convidamos 20 pessoas, puderam comparecer 15.
Foi uma boa reunião, produtiva, entusiasmada por parte de uns, tímida por conta de outros – houve quem veio revelar uma ou mais idéias depois do encontro. Nela também foi possível reafirmar certos conceitos do trabalho.
Ao fim deste encontro ficou claro que é absolutamente necessário formar uma equipe de trabalho. Uma equipe que representa a linha que o Projeto de Gente oferece para que, trançada com outras – familiares, agentes de mater-paternagem, escola – se forme a rede de proteção sobre a qual (e não envolvida por ela) as crianças “... empreenderão, elas próprias, a construção de seu ser...”(Antônio Carlos Gomes da Costa), o campo no qual as crianças vão poder se organizar.
Combinamos, então, novo encontro com este propósito. Foi realizado em 28 de junho. Temos, neste instante, além de Alexandre e Daniel, a Ana Paula, o Sérgio e a Alice com disponibilidade de tempo para o Projeto de Gente em Cumuruxatiba. Ainda sem tempos definidos: Breda, Mujinha, Rita – muito ocupada mas estamos organizando -, Hygino, Mônica, Andréia. James e Verônica estão em compasso de espera, pois podem, eventualmente, sair de Cumuru. Helena se propôs, com sua experiência, a fazer o registro do cotidiano do Projeto de Gente.
Ainda deixamos na alça de mira a possibilidade de realizarmos alguma atividade nas duas ou na última semana de julho. O propósito – Plano A – é começar o trabalho efetivo, em agosto, com um número de crianças dependente do número de pessoas – educadores e mestres – com disponibilidade de tempo para participar das atividades do Projeto de Gente.
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