A não obrigatoriedade de comparecimento ao Projeto de Gente aponta para importantes questões: qual o grau de dependência dos meninos e meninas à obrigação?, qual a nossa possibilidade de estimular a autonomia verdadeira, isto é aquela que é, de fato e de direito, a de cada um?, qual a “autonomia” que nós, adultos e corpo social, oferecemos a eles?, quão acostumados, viciados mesmo, já estão nossos meninos e meninas em relação a não perceberem seus próprios desejos, motivações e, até mesmo, necessidades?, qual o tamanho de suas defesas?, qual a gravidade da fratura de suas vontades, de seu eixo vital pessoal, único?
Quando lhes é oferecido um campo no qual suas vozes serão ouvidas é comum, muito comum, ouvirmos o silêncio, ou palavras inteligentes mas sem alma, palavras que serão – já o sabem! – aceitas e aplaudidas, ou um murmúrio seguido de silêncio e olhos baixos, ou a reação agressiva, os sinais do descrédito.
Volta e meia surge, nos educadores, a sensação de que é necessário que se institua a obrigatoriedade de comparecimento ao Projeto e na Roda, isto é a obrigatoriedade do exercício da democracia, a obrigatoriedade do exercício da livre expressão. Obrigar à democracia? Obrigar à espontaneidade? Obrigar à livre expressão? Vara de marmelo, palmatória, joelho no milho até que a naturalidade seja (re)conquistada? Existe um meio-termo ou qualquer meio-termo, neste momento, é jogar brasa (meia-brasa) na fogueira?
“... o que fazer para que o ser humano se veja (...) parte do mundo natural? Para tanto, é preciso que ele observe a si mesmo enquanto observa o mundo”, disse Humberto Mariotti. Este é o propósito, dito utópico por muitos, do Projeto de Gente. E segue Mariotti: “Este passo é fundamental, pois permite compreender que entre o observador e o observado (entre o ser humano e o mundo) não há hierarquia nem separação, mas sim cooperatividade na circularidade”.
E então, as questões acima, obedecendo a tal circularidade voltam-se para nós, adultos. Conseguimos, enquanto observamos, enquanto cuidamos, observar a nós mesmos? Cuidar de nós mesmos? Podemos aceitar que não há hierarquia nem separação, mas sim cooperatividade? Aceitar que não existem melhores ou piores, mas sim possibilidades diferentes? Podemos construir um saber cuidar oriundo, não da opressão, da superioridade, mas sim do simples conhecer, do simples viver? Podemos distinguir a fronteira entre cuidar – mãos que aconchegam – e o impor – mãos que sufocam? Podemos sentir os meninos e meninas como mestres que apontam nosso desconhecimento, nossos erros, nossos medos, que provocam nossa própria reatividade? Podemos reconhecê-los mestres que apontam, eles mesmos, seus caminhos, embora precisem melhor conhecê-los e mais adquirir habilidades para, então, trilhá-los?
Maio e junho de 2009 foram meses tranqüilos no Projeto de Gente. Tranqüilos com todas estas perguntas. O dia a dia transcorreu em paz, casa nova, muitas brincadeiras e jogos no novo espaço. Começamos a colecionar brincadeiras de várias partes do mundo: a estréia foi com a “queimada suíça” que a Alexandra e o Flavinho ensinaram. Um sucesso! O Marcelo ensinou gamão e ganhou aficionados. A Eliana, esperta e experta, argilou. A Gili também – ocarinas com carinha e corpo de pássaros piaram, mágicas. A Renata vai queimá-las por estes dias. A quadrilha não se organizou – aprendizado de autonomia. Algumas pessoinhas já conhecidas retornaram; outras, novas, firmaram.
Ah! É preciso estar atento – e forte, como diz a canção – para, pacientemente, muito pacientemente, perceber aquele menino ou aquela menina que falou uma palavra nova, ainda não dita – bendita! – na Roda; naquele outro, naquela outra que levantou a voz e disse o que nunca havia dito; no outro que ouviu o que, até então, não ouvia; escutar o que observou: “ué, suas palavras foram de escabrear, mas você não `tava escabreando” (obs: escabrear = brigar, reclamar); valorizar a construção, a cooperação; aceitar a forma de reagir de qualquer um, sabendo, de antemão, que algo motiva esta reação, algo que dói, uma dor que ele mesmo não percebe a origem.
Você é capaz de estar atento assim em relação a você mesmo e não apenas em relação aos meninos e meninas? Você é capaz de tentar perceber onde aquela reação LHE atinge? Você é capaz de tentar encontrar a dor tão antiga, tão menina que você ainda – talvez desde sempre e para sempre – carrega sem saber qual a melhor maneira de lidar com ela, de vivê-la?
Até julho.
sábado, 11 de julho de 2009
Abril/2009
Abril abriu com a perspectiva da nova sede e muita, muita chuva. A vila ficou cerca de seis dias sem energia elétrica. Voltamos à era das velas, falta de geladeira, televisão, rádio, comunicações prejudicadas. Ruas enlameadas, acessos para a parte alta da vila forma se desmanchando. Em certo momento começou a preocupação com a possibilidade da falta de água e mesmo de comida, pois, sem refrigeração, ou se consumia rapidamente o alimento ou ele se estragava.
Quando a chuva dava uma trégua nos reuníamos debaixo do jamelão – aliás, carregadíssimo – no terreno do Cantagalo. Mais de uma vez o toró caiu e era criança para todo lado, correndo para casa.
Finalmente, - negócio fechado! – iniciamos a arrumação do novo espaço. O Nitão – grande e já mencionado amigo do Projeto –, a Eliana, o Begara e o Alexandre foram os educadores que se revezaram na pintura de portas, janelas e paredes; cada dia um tanto de meninos e meninas aparecia para fazer suas marcas.
O problema do número de participantes voltou a se manifestar. Muitos meninos e meninas foram chegando de mansinho. Alguns já conhecidos e que, por variados motivos, não compareceram nesta fase de atividades; outros novos – muitos vizinhos da nova sede. É sempre muito difícil mostrar para eles a necessidade de sermos mais firmes na formação de um grupo com um número certo de participantes; difícil mostrar o quanto precisamos cuidar deste solo inicial, embrionário, que ainda precisa ser muito arado, adubado, para que as fases seguintes possam ser melhor desenvolvidas; difícil explicar que vivemos um verdadeiro rito de iniciação, isto é, construímos um processo onde o saber é aprendido – e apreendido – através da vivência cotidiana. Uma vivência do que nunca foi vivido por nenhum de nós, uma vivência insegura, pois não há um método experimentado e consagrado. Existem, é certo, experiências outras que nos alimentam e inspiram, porém não são a nossa experiência. Cada Projeto de Gente a ser desenvolvido em qualquer outro recanto trará sempre um novo rito a ser vivido. Cada grupo de educadores será um novo grupo, cada grupo de crianças também é sempre novidade, assim como cada comunidade educadores-crianças será sempre diferente, particular, singular.
Em 25 de abril foi inaugurada a nova sede do Projeto de Gente em Cumuruxatiba. Na Roda de Combinações um tanto informal que se organizou foi possível, mais uma vez, constatar a necessidade de um imenso e paciente trabalho para que, pouco a pouco, a roda – ainda quadrada – vá ganhando sua forma mais confortável, redondinha. Vimos adultos e crianças desrespeitando a combinação básica de ouvir o que um componente está apresentando (como já disse alguém: “diálogo existe quando um ouve”); percebemos a falta de costume em ocupar um espaço com sua opinião própria; nos demos conta da impaciência com aquele que parece precisar ser o centro das atenções – do roda, portanto –; da irritação; da tendência de se cair logo na “facilidade” da punição, de “passar um sermão”; sentimos também a dificuldade que é saber o tempo que leva para se ter certeza de que uma certa metodologia é inútil.
Enfim, na inauguração, tocamos, todo o tempo, no tema do parágrafo anterior: iniciação, vivência. Uma vivência que é, ao mesmo tempo, uma iniciação, pois é uma aprender fazendo, um acertar errando. Uma vivência que, ao contrário da aplicação de uma “decoreba” apenas racional, se faz em um clima carregado de emoções e sentimentos, histórias de vida e singularidades.
Enfim, um barco navegando sobre uma correnteza – às vezes leve, outras turbulenta – de emoções, tocado por um vento nem sempre suave e muitas vezes inesperado e, ainda por cima, guiados por um mapa cheio de hiatos. Uma aventura, uma bela aventura! O problema é que, no tal mundo moderno, não se abrem muitos espaços para aventuras. Parece que todos preferem o conhecido, o padronizado, o que está na moda.
Participantes do Projeto de Gente - Cumuruxatiba
Educadores em Campo
Eliana, Cristina, Shal e Alexandre.
Educadores de Apoio
Begara, Ângela, Renata e Dolores
Meninas e meninos
Manhã
Ioane, Ismael, Cleiton, Sula, Sol, Flávia, Fabiana, Alan, César, Fernando, Ana Paula e Fabiane.
Tarde
Sabrina, Mávila, Abimael, Stefany, Olívia, Flávio Dinei, Weber, Maciele, Mireli, Flavinho, Jaqueline, Laiara, Luli, Sol, Douglas, Natália, Carol, Alexandra e Mábia.
Lista de Espera (da qual, pelo menos, seis estão sempre por lá)
Naiane, Robson, Graziele, Mariana, Peterson, Daniel, Lucas, Willian, Jonatas, Jaísa, Madson, Ornan, Sara, Luiza e Nina.
Quando a chuva dava uma trégua nos reuníamos debaixo do jamelão – aliás, carregadíssimo – no terreno do Cantagalo. Mais de uma vez o toró caiu e era criança para todo lado, correndo para casa.
Finalmente, - negócio fechado! – iniciamos a arrumação do novo espaço. O Nitão – grande e já mencionado amigo do Projeto –, a Eliana, o Begara e o Alexandre foram os educadores que se revezaram na pintura de portas, janelas e paredes; cada dia um tanto de meninos e meninas aparecia para fazer suas marcas.
O problema do número de participantes voltou a se manifestar. Muitos meninos e meninas foram chegando de mansinho. Alguns já conhecidos e que, por variados motivos, não compareceram nesta fase de atividades; outros novos – muitos vizinhos da nova sede. É sempre muito difícil mostrar para eles a necessidade de sermos mais firmes na formação de um grupo com um número certo de participantes; difícil mostrar o quanto precisamos cuidar deste solo inicial, embrionário, que ainda precisa ser muito arado, adubado, para que as fases seguintes possam ser melhor desenvolvidas; difícil explicar que vivemos um verdadeiro rito de iniciação, isto é, construímos um processo onde o saber é aprendido – e apreendido – através da vivência cotidiana. Uma vivência do que nunca foi vivido por nenhum de nós, uma vivência insegura, pois não há um método experimentado e consagrado. Existem, é certo, experiências outras que nos alimentam e inspiram, porém não são a nossa experiência. Cada Projeto de Gente a ser desenvolvido em qualquer outro recanto trará sempre um novo rito a ser vivido. Cada grupo de educadores será um novo grupo, cada grupo de crianças também é sempre novidade, assim como cada comunidade educadores-crianças será sempre diferente, particular, singular.
Em 25 de abril foi inaugurada a nova sede do Projeto de Gente em Cumuruxatiba. Na Roda de Combinações um tanto informal que se organizou foi possível, mais uma vez, constatar a necessidade de um imenso e paciente trabalho para que, pouco a pouco, a roda – ainda quadrada – vá ganhando sua forma mais confortável, redondinha. Vimos adultos e crianças desrespeitando a combinação básica de ouvir o que um componente está apresentando (como já disse alguém: “diálogo existe quando um ouve”); percebemos a falta de costume em ocupar um espaço com sua opinião própria; nos demos conta da impaciência com aquele que parece precisar ser o centro das atenções – do roda, portanto –; da irritação; da tendência de se cair logo na “facilidade” da punição, de “passar um sermão”; sentimos também a dificuldade que é saber o tempo que leva para se ter certeza de que uma certa metodologia é inútil.
Enfim, na inauguração, tocamos, todo o tempo, no tema do parágrafo anterior: iniciação, vivência. Uma vivência que é, ao mesmo tempo, uma iniciação, pois é uma aprender fazendo, um acertar errando. Uma vivência que, ao contrário da aplicação de uma “decoreba” apenas racional, se faz em um clima carregado de emoções e sentimentos, histórias de vida e singularidades.
Enfim, um barco navegando sobre uma correnteza – às vezes leve, outras turbulenta – de emoções, tocado por um vento nem sempre suave e muitas vezes inesperado e, ainda por cima, guiados por um mapa cheio de hiatos. Uma aventura, uma bela aventura! O problema é que, no tal mundo moderno, não se abrem muitos espaços para aventuras. Parece que todos preferem o conhecido, o padronizado, o que está na moda.
Participantes do Projeto de Gente - Cumuruxatiba
Educadores em Campo
Eliana, Cristina, Shal e Alexandre.
Educadores de Apoio
Begara, Ângela, Renata e Dolores
Meninas e meninos
Manhã
Ioane, Ismael, Cleiton, Sula, Sol, Flávia, Fabiana, Alan, César, Fernando, Ana Paula e Fabiane.
Tarde
Sabrina, Mávila, Abimael, Stefany, Olívia, Flávio Dinei, Weber, Maciele, Mireli, Flavinho, Jaqueline, Laiara, Luli, Sol, Douglas, Natália, Carol, Alexandra e Mábia.
Lista de Espera (da qual, pelo menos, seis estão sempre por lá)
Naiane, Robson, Graziele, Mariana, Peterson, Daniel, Lucas, Willian, Jonatas, Jaísa, Madson, Ornan, Sara, Luiza e Nina.
domingo, 24 de maio de 2009
MARÇO DE 2009
Fim do verão e a vila retoma seu ritmo mais comum. Esta retomada é súbita, acontece quase que de um dia para o outro. Ontem, carros, muitos carros, buzinas, zoada dos motores, pessoas andando por todos os lados, várias lojas e restaurantes abertos; hoje, o caminhão do lixo, o transporte escolar, pessoas conhecidas se cumprimentando, dois ou três restaurantes abertos todos os dias, o atelier da Renata Homem e a Barraca do Régis também abertos, assim como o lanche do 14 e o da Lucinha, a confecção de D. Belinha e o Arte sobre Arte nos fins de semana, algumas pousadas fecham as portas até o próximo verão.
A vila, suas belezas, seus problemas, será o cenário do cotidiano de um grupo de pessoas que ocupam, se tanto, metade de um quarteirão do Rio de Janeiro, São Paulo ou Belo Horizonte e Salvador.
As crianças do Projeto de Gente iniciaram as atividades com encontros na frente daquele terreno que havíamos limpado, lembram-se? (está no relato de janeiro/fevereiro). Começamos ali, debaixo de uma mangueira, pois havíamos combinado o reinício do Projeto junto com as aulas. Ali tivemos as primeiras Rodas de Combinações; soubemos quem, de fato, havia se mudado para outras cidades; decidimos – importante! - que haveria um pequeno grupo pela manhã, pois alguns meninos e meninas passaram a estudar à tarde e solicitaram esta possibilidade; definimos em 30 o número total (manhã/tarde) de meninos e meninas; o grupo da manhã resolveu, junto com a Cristina Leme – nova colaboradora -, revitalizar o blog do Projeto e fazer um jornal. Ali também comunicamos às crianças sobre o novo terreno no Cantagalo e combinamos um pic-nic lá em 7 ou 8 de março.
O encontro aconteceu com cerca de 15 crianças, 3 educadores e a Lucia da Pousada Cantoria que ofereceu sanduíches de ricota. Conhecemos o terreno, nos defrontamos com suas desvantagens e curtimos as vantagens. Deste dia em diante passamos a nos reunir ali, agora debaixo de um carregadíssimo pé de jamelão, de segunda a quarta-feira, manhã e tarde. Aos poucos o grupo foi tomando forma.
Paralelamente, o grupo de educadores realizou encontros para organizar o jantar dos amigos do Projeto, aperfeiçoar o demonstrativo financeiro e fortalecer a Associação Projeto de Gente – na próxima gestão duas ou três pessoas de Cumuruxatiba farão parte da chapa.
Dois acontecimentos, inesperados talvez, se uniram para apontar novas rotas para o Projeto, pelo menos do ponto de vista mais visível: (1) o sucesso da Campanha do 1% e (2) a possibilidade de aluguel de uma casa muito adequada ao Projeto de Gente.
Vamos por partes: o resultado financeiro da campanha foi acima do esperado (ver o demonstrativo financeiro) e pudemos fazer uma reserva – talvez pela primeira vez. Por outro lado, uma amiga desocupou uma casinha ótima para as demandas do trabalho – dois cômodos independentes com banheiros, cozinha com fogão e geladeira, uma varanda coberta e, na frente, um campo de areia para vôlei e/ou peteca. Praticamente todos os espaços se interrelacionam através de janelas e portas formando, deste modo, uma estrutura, até mesmo fisicamente, comunitária. Além do mais, a casa tem uma bela localização. Com a reserva financeira garantida resolvemos contatar a proprietária. Um aluguel de 280 reais foi combinado a partir de abril de 2009.
Na última semana de março iniciamos a mudança da velha para a nova casinha do Projeto de Gente – a nova sede. Estamos, todos, bastante contentes e com a boa sensação de passos para frente e, em também boa, direção.
A vila, suas belezas, seus problemas, será o cenário do cotidiano de um grupo de pessoas que ocupam, se tanto, metade de um quarteirão do Rio de Janeiro, São Paulo ou Belo Horizonte e Salvador.
As crianças do Projeto de Gente iniciaram as atividades com encontros na frente daquele terreno que havíamos limpado, lembram-se? (está no relato de janeiro/fevereiro). Começamos ali, debaixo de uma mangueira, pois havíamos combinado o reinício do Projeto junto com as aulas. Ali tivemos as primeiras Rodas de Combinações; soubemos quem, de fato, havia se mudado para outras cidades; decidimos – importante! - que haveria um pequeno grupo pela manhã, pois alguns meninos e meninas passaram a estudar à tarde e solicitaram esta possibilidade; definimos em 30 o número total (manhã/tarde) de meninos e meninas; o grupo da manhã resolveu, junto com a Cristina Leme – nova colaboradora -, revitalizar o blog do Projeto e fazer um jornal. Ali também comunicamos às crianças sobre o novo terreno no Cantagalo e combinamos um pic-nic lá em 7 ou 8 de março.
O encontro aconteceu com cerca de 15 crianças, 3 educadores e a Lucia da Pousada Cantoria que ofereceu sanduíches de ricota. Conhecemos o terreno, nos defrontamos com suas desvantagens e curtimos as vantagens. Deste dia em diante passamos a nos reunir ali, agora debaixo de um carregadíssimo pé de jamelão, de segunda a quarta-feira, manhã e tarde. Aos poucos o grupo foi tomando forma.
Paralelamente, o grupo de educadores realizou encontros para organizar o jantar dos amigos do Projeto, aperfeiçoar o demonstrativo financeiro e fortalecer a Associação Projeto de Gente – na próxima gestão duas ou três pessoas de Cumuruxatiba farão parte da chapa.
Dois acontecimentos, inesperados talvez, se uniram para apontar novas rotas para o Projeto, pelo menos do ponto de vista mais visível: (1) o sucesso da Campanha do 1% e (2) a possibilidade de aluguel de uma casa muito adequada ao Projeto de Gente.
Vamos por partes: o resultado financeiro da campanha foi acima do esperado (ver o demonstrativo financeiro) e pudemos fazer uma reserva – talvez pela primeira vez. Por outro lado, uma amiga desocupou uma casinha ótima para as demandas do trabalho – dois cômodos independentes com banheiros, cozinha com fogão e geladeira, uma varanda coberta e, na frente, um campo de areia para vôlei e/ou peteca. Praticamente todos os espaços se interrelacionam através de janelas e portas formando, deste modo, uma estrutura, até mesmo fisicamente, comunitária. Além do mais, a casa tem uma bela localização. Com a reserva financeira garantida resolvemos contatar a proprietária. Um aluguel de 280 reais foi combinado a partir de abril de 2009.
Na última semana de março iniciamos a mudança da velha para a nova casinha do Projeto de Gente – a nova sede. Estamos, todos, bastante contentes e com a boa sensação de passos para frente e, em também boa, direção.
JANEIRO E FEVEREIRO DE 2009
O verão começou com muita chuva e preocupação para os moradores da vila, pois a vida econômica da comunidade gira em torno do turismo nesta época do ano. Chuva muito forte espanta os turistas e, ainda por cima, destrói a estrada de acesso para os fiéis visitantes de Cumuruxatiba.
No Projeto, o movimento foi no sentido de se encontrar a melhor solução para o problema da nova sede. Já havíamos decidido que seria melhor iniciar as atividades de 2009 já em um novo espaço. Entretanto, encontrar uma casa em Cumuruxatiba nesta época do ano é bastante difícil – aluguéis altos, raros e apenas por temporada
Um terreno muito bem localizado, na praia, nos foi oferecido por um ano. Chegamos a realizar a limpeza do local; porém, ficou claro que o custo para deixar aquela área em condições mínimas é muito alto. Outro belo terreno, no Morro do Cantagalo, nos foi oferecido por um casal de amigos. Um terreno, em declive mas muito bonito, com uma casinha pequena. Outros amigos, o Walter e a Dolores, nos deram uma lona redonda – cerca de 8 metros de diâmetro – para ser armada ao lado da casinha. Um problema é que a casinha está ocupada e apenas estará livre em meados de abril. Até lá podemos trabalhar o próprio terreno que precisa ser, em parte, aplainado para receber a tenda. De todo jeito – um pouco por falta de opção – o martelo foi batido: ali será instalado o Projeto de Gente.
Neste meio tempo, o Begara, sempre atento às necessidades objetivas, trouxe a proposta de se organizar um grupo de pessoas amigas do Projeto que se reuniriam mensalmente com o compromisso de, presentes ou não, arrecadar uma quantia. Esta seria uma quantia fixa e certa para as necessidades materiais do trabalho; além disto, este grupo de amigos reunidos em torno de um propósito comum estará alimentando o Projeto de Gente com uma outra qualidade de demanda: subjetiva e identificada com o coração.
Fevereiro terminou com belos dias de sol e uma definição em relação ao local da nova sede do Projeto de Gente que exigirá muito trabalho e determinação.
No Projeto, o movimento foi no sentido de se encontrar a melhor solução para o problema da nova sede. Já havíamos decidido que seria melhor iniciar as atividades de 2009 já em um novo espaço. Entretanto, encontrar uma casa em Cumuruxatiba nesta época do ano é bastante difícil – aluguéis altos, raros e apenas por temporada
Um terreno muito bem localizado, na praia, nos foi oferecido por um ano. Chegamos a realizar a limpeza do local; porém, ficou claro que o custo para deixar aquela área em condições mínimas é muito alto. Outro belo terreno, no Morro do Cantagalo, nos foi oferecido por um casal de amigos. Um terreno, em declive mas muito bonito, com uma casinha pequena. Outros amigos, o Walter e a Dolores, nos deram uma lona redonda – cerca de 8 metros de diâmetro – para ser armada ao lado da casinha. Um problema é que a casinha está ocupada e apenas estará livre em meados de abril. Até lá podemos trabalhar o próprio terreno que precisa ser, em parte, aplainado para receber a tenda. De todo jeito – um pouco por falta de opção – o martelo foi batido: ali será instalado o Projeto de Gente.
Neste meio tempo, o Begara, sempre atento às necessidades objetivas, trouxe a proposta de se organizar um grupo de pessoas amigas do Projeto que se reuniriam mensalmente com o compromisso de, presentes ou não, arrecadar uma quantia. Esta seria uma quantia fixa e certa para as necessidades materiais do trabalho; além disto, este grupo de amigos reunidos em torno de um propósito comum estará alimentando o Projeto de Gente com uma outra qualidade de demanda: subjetiva e identificada com o coração.
Fevereiro terminou com belos dias de sol e uma definição em relação ao local da nova sede do Projeto de Gente que exigirá muito trabalho e determinação.
DEZEMBRO DE 2008
Dezembro de 2008, mês curto, pois as férias escolares estão à vista, no horizonte. A apreensão de muitas crianças quanto à aprovação ou não é palpável. As férias podem começar com tempo fechado, tempestades ou sol aberto.
No Projeto, mês de transformações: pintamos as paredes, portas e janelas; também trocamos duas janelas que estavam corroídas por cupins. Deixamos a casinha bem bonita para entregá-la, com a marca do nosso agradecimento, ao Daniel e Letícia. Ao mesmo tempo iniciamos a busca por um novo espaço. As idéias que predominam a este respeito são: (1) conseguir um lote, em regime de comodato, e ali construir uma estrutura circular, sem divisões internas mas protegida dos ventos. Neste espaço, comunitário e democrático, aconteceriam certas atividades – as internas -, enquanto que, no ao redor, ao ar livre, outras. A segunda idéia é (2) é tentar o aluguel de uma casa. Talvez esta seja a possibilidade mais prática e, até mesmo, mais econômica; porém, sem os encantos da primeira. Vamos a ver!
Outra circunstância marcante em dezembro foi a definição do grupo de 2009. Como referido no diário de novembro, estamos, desde outubro, discutindo, em roda, a necessidade de equilibrar a balança “número de educadores/número de meninos e meninas” no Projeto de Gente.
Pois bem, uma das meninas, a Sula, apresentou a única e difícil solução – fato também já relatado no diário de novembro. Cada participante do Projeto responderia a duas perguntas: “Quem eu gostaria de ter ao meu lado no Projeto 2009?” e/ou “Quem eu percebo são as pessoas que mais curtem o Projeto? Aquelas que estão mais envolvidas, mais ligadas ao dia a dia do Projeto”. Os critérios que Sula estava propondo eram, portanto, afinidade e interesse – dois muito bons critérios para a organização de um grupo.
Conversamos, conversamos, conversamos e... conversamos. No dia 13 foi feita a definição do grupo. Alguns estavam tensos, outros apenas se deram conta do que realmente significava tudo aquilo ao terem na sua frente a lista de cerca de 60 meninos e meninas. Destes apenas 30 estariam juntos em 2009. Difícil, muito difícil! Seria mesmo este o melhor mecanismo para se lidar com a questão?
Conforme decidido por todos, o voto poderia ser secreto ou não – decisão de cada um. Alguns se retiraram para um cantinho; outros resolveram se apoiar mutuamente e o grupo foi definido. De fato sabemos que ainda será preciso um reajuste, pois, pelo menos, duas crianças que estão na lista não estarão em Cumuruxatiba no ano que vem.
Naquela noite um dos educadores do Projeto conversou com um velho sábio e lhe perguntou o que significava tudo aquilo. Ele respondeu: “É um ponto de transição, uma encruzilhada com o sol levantando-se ao fundo. Trata-se de um movimento renovador, uma energia construtiva que surge, porém ainda em broto. Representa também um movimento de cuidado com a raiz, um movimento de proteção que deve ser paciente e suave, pois esta é a única maneira de garantir seu crescimento, neste momento de fragilidade. Trata-se de uma dinâmica de desenvolvimento interno, sutil, uma pequena faísca que, mesmo tênue, deixa um lastro indelével, o despertar de um embrião luminoso e silencioso. Um aprendizado e desenvolvimento em direção à meta almejada e ainda distante”.
Para fechar: o Luiz e a Milena, da Pousada Rio do Peixe, nos apresentou uma linda idéia. Eles vão propor a seus hóspedes do verão de 2009 que acrescentem 1% ao valor total de suas diárias. Este 1% será destinado ao Projeto de Gente. Eles também sugeriram que procurássemos outros pousadeiros para saber se gostariam de entrar nesta onda. Luiz e Milena são, de fato, grandes amigos do Projeto de Gente. Seis outros aceitaram a sugestão. Obrigado, amigos!
E até 2009!
No Projeto, mês de transformações: pintamos as paredes, portas e janelas; também trocamos duas janelas que estavam corroídas por cupins. Deixamos a casinha bem bonita para entregá-la, com a marca do nosso agradecimento, ao Daniel e Letícia. Ao mesmo tempo iniciamos a busca por um novo espaço. As idéias que predominam a este respeito são: (1) conseguir um lote, em regime de comodato, e ali construir uma estrutura circular, sem divisões internas mas protegida dos ventos. Neste espaço, comunitário e democrático, aconteceriam certas atividades – as internas -, enquanto que, no ao redor, ao ar livre, outras. A segunda idéia é (2) é tentar o aluguel de uma casa. Talvez esta seja a possibilidade mais prática e, até mesmo, mais econômica; porém, sem os encantos da primeira. Vamos a ver!
Outra circunstância marcante em dezembro foi a definição do grupo de 2009. Como referido no diário de novembro, estamos, desde outubro, discutindo, em roda, a necessidade de equilibrar a balança “número de educadores/número de meninos e meninas” no Projeto de Gente.
Pois bem, uma das meninas, a Sula, apresentou a única e difícil solução – fato também já relatado no diário de novembro. Cada participante do Projeto responderia a duas perguntas: “Quem eu gostaria de ter ao meu lado no Projeto 2009?” e/ou “Quem eu percebo são as pessoas que mais curtem o Projeto? Aquelas que estão mais envolvidas, mais ligadas ao dia a dia do Projeto”. Os critérios que Sula estava propondo eram, portanto, afinidade e interesse – dois muito bons critérios para a organização de um grupo.
Conversamos, conversamos, conversamos e... conversamos. No dia 13 foi feita a definição do grupo. Alguns estavam tensos, outros apenas se deram conta do que realmente significava tudo aquilo ao terem na sua frente a lista de cerca de 60 meninos e meninas. Destes apenas 30 estariam juntos em 2009. Difícil, muito difícil! Seria mesmo este o melhor mecanismo para se lidar com a questão?
Conforme decidido por todos, o voto poderia ser secreto ou não – decisão de cada um. Alguns se retiraram para um cantinho; outros resolveram se apoiar mutuamente e o grupo foi definido. De fato sabemos que ainda será preciso um reajuste, pois, pelo menos, duas crianças que estão na lista não estarão em Cumuruxatiba no ano que vem.
Naquela noite um dos educadores do Projeto conversou com um velho sábio e lhe perguntou o que significava tudo aquilo. Ele respondeu: “É um ponto de transição, uma encruzilhada com o sol levantando-se ao fundo. Trata-se de um movimento renovador, uma energia construtiva que surge, porém ainda em broto. Representa também um movimento de cuidado com a raiz, um movimento de proteção que deve ser paciente e suave, pois esta é a única maneira de garantir seu crescimento, neste momento de fragilidade. Trata-se de uma dinâmica de desenvolvimento interno, sutil, uma pequena faísca que, mesmo tênue, deixa um lastro indelével, o despertar de um embrião luminoso e silencioso. Um aprendizado e desenvolvimento em direção à meta almejada e ainda distante”.
Para fechar: o Luiz e a Milena, da Pousada Rio do Peixe, nos apresentou uma linda idéia. Eles vão propor a seus hóspedes do verão de 2009 que acrescentem 1% ao valor total de suas diárias. Este 1% será destinado ao Projeto de Gente. Eles também sugeriram que procurássemos outros pousadeiros para saber se gostariam de entrar nesta onda. Luiz e Milena são, de fato, grandes amigos do Projeto de Gente. Seis outros aceitaram a sugestão. Obrigado, amigos!
E até 2009!
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
NOVEMBRO DE 2008
Mês intenso, carregado de emoções: fim de ano, crianças preocupadas com as provas finais, recuperações, “bombas”, entrega da casinha do Projeto, a possível diminuição no número de crianças para 2009, gente que não conhece o trabalho falando mesmo assim -pessoas que, com maior ou menor consciência, comentam sobre a velha - e sempre importante - questão da liberdade, pessoas que não conseguem - não desejam - ver as crianças exercendo autonomia e escapando de certos controles, pessoas que não desejam ver crianças questionando o que para eles é inquestionável, pessoas que não querem crianças sendo elas mesmas porque não têm coragem para fazer o mesmo. Enfim, reatividade. Esta reação tem, por um lado, nos entristecido muito; porém, por outro, nos faz ver com mais nitidez o valor, a intensidade e a boa direção do trabalho. Estamos percebendo que enquanto o projeto era uma sementinha não eram precisos tantos cuidados, agora que é um brotinho, aflorado, é preciso protegê-lo dos predadores "naturais" e das intempéries - estas sim, naturais - que influenciam seu crescimento.
Mas, vamos em frente: trabalhamos muito – quase todos os dias era tema de roda - a questão do grupo de 2009 e a Sulamita deu a idéia que, ajustada com a colaboração de outros, foi considerada a mais justa e democrática para tratar do problema. Foi então combinado que em dezembro será realizada uma assembléia com o maior número possível de crianças e educadores. Cada um vai escolher o grupo que considerar melhor para o Projeto. Este número será definido, combinação entre todos, pelos educadores. Os critérios serão: (1) afinidades, naturalmente, e (2) quem é percebido como uma pessoa que considera o Projeto de Gente importante em sua vida, aqueles que no dia a dia fazem o trabalho se desenvolver, pode ser uma criança bagunceira, é a sua relação com o projeto que conta. É uma proposta que contempla o “sim”, não o “não”. Se houver empate entre alguns, sorteio. Assim que conseguirmos mais gente grande as vagas vão se abrindo.
Difícil solução, mas trabalhada com carinho e atenção por muitas crianças
Resolvemos também nos preparar para a eventualidade da casinha ser mesmo vendida neste verão. Em relação a esta questão - local -, temos duas opções: (1) alugar um espaço - estamos procurando algo para depois do verão (logicamente já estamos procurando desde agora); (2) pensamos - e gosto muito da idéia - em montar uma tenda de circo (idéia baseada na "Tenda dos Milagres", do Jorge Amado). Existem duas possibilidades de terreno que poderiam ser cedidos em comodato, compraríamos uma lona de circo usada e construiríamos uma casinha - talvez de sapé - para guardar objetos (um dos terrenos vem com a possibilidade de a própria proprietária fazer uma casinha de quarto, sala, banheiro e pequena cozinha)... Achamos a idéia do circo muito apropriada: marca bem a alternativa que é o Projeto de Gente; tem a cara das crianças e do próprio projeto; compartilharíamos um espaço coletivo – o que seria muito interessante na socialização e construção do respeito às atividades que se fariam concomitantemente. Está aberta a “Campanha Tá na Lona”: quem souber de uma lona de circo usada ou nova boa para doação ou com bom – ótimo, maravilhosos, o melhor – preço, procure-nos.
Este mês marcou o início das atividades da Silvana, professora de matemática na Escola Algeziro Moura, pasteleira de mão cheia, pousadeira, violeira e dona do abraço mais caloroso da Vila,... da Bahia,... do Brasil... e há quem diga de todo o mundo. No Projeto ela vai nos abraçar, cantar –está preparando um coral -, tocar e ensinar violão. Uma linda contribuição para todos nós! Bem vinda!
O bingo na Pousada Rio do Peixe foi um sucesso. Milena e Luiz demonstraram, mais uma vez, todo seu carinho com o Projeto ao oferecer as pizzas. Arcamos apenas com o custo das bebidas.
O cartaz e o convite ficaram assim:
B I N G O
A POUSADA RIO DO PEIXE convida todos para
Mas, vamos em frente: trabalhamos muito – quase todos os dias era tema de roda - a questão do grupo de 2009 e a Sulamita deu a idéia que, ajustada com a colaboração de outros, foi considerada a mais justa e democrática para tratar do problema. Foi então combinado que em dezembro será realizada uma assembléia com o maior número possível de crianças e educadores. Cada um vai escolher o grupo que considerar melhor para o Projeto. Este número será definido, combinação entre todos, pelos educadores. Os critérios serão: (1) afinidades, naturalmente, e (2) quem é percebido como uma pessoa que considera o Projeto de Gente importante em sua vida, aqueles que no dia a dia fazem o trabalho se desenvolver, pode ser uma criança bagunceira, é a sua relação com o projeto que conta. É uma proposta que contempla o “sim”, não o “não”. Se houver empate entre alguns, sorteio. Assim que conseguirmos mais gente grande as vagas vão se abrindo.
Difícil solução, mas trabalhada com carinho e atenção por muitas crianças
Resolvemos também nos preparar para a eventualidade da casinha ser mesmo vendida neste verão. Em relação a esta questão - local -, temos duas opções: (1) alugar um espaço - estamos procurando algo para depois do verão (logicamente já estamos procurando desde agora); (2) pensamos - e gosto muito da idéia - em montar uma tenda de circo (idéia baseada na "Tenda dos Milagres", do Jorge Amado). Existem duas possibilidades de terreno que poderiam ser cedidos em comodato, compraríamos uma lona de circo usada e construiríamos uma casinha - talvez de sapé - para guardar objetos (um dos terrenos vem com a possibilidade de a própria proprietária fazer uma casinha de quarto, sala, banheiro e pequena cozinha)... Achamos a idéia do circo muito apropriada: marca bem a alternativa que é o Projeto de Gente; tem a cara das crianças e do próprio projeto; compartilharíamos um espaço coletivo – o que seria muito interessante na socialização e construção do respeito às atividades que se fariam concomitantemente. Está aberta a “Campanha Tá na Lona”: quem souber de uma lona de circo usada ou nova boa para doação ou com bom – ótimo, maravilhosos, o melhor – preço, procure-nos.
Este mês marcou o início das atividades da Silvana, professora de matemática na Escola Algeziro Moura, pasteleira de mão cheia, pousadeira, violeira e dona do abraço mais caloroso da Vila,... da Bahia,... do Brasil... e há quem diga de todo o mundo. No Projeto ela vai nos abraçar, cantar –está preparando um coral -, tocar e ensinar violão. Uma linda contribuição para todos nós! Bem vinda!
O bingo na Pousada Rio do Peixe foi um sucesso. Milena e Luiz demonstraram, mais uma vez, todo seu carinho com o Projeto ao oferecer as pizzas. Arcamos apenas com o custo das bebidas.
O cartaz e o convite ficaram assim:
B I N G O
A POUSADA RIO DO PEIXE convida todos para
o bingo em comemoração ao primeiro ano de
atividades do PROJETO DE GENTE em Cumuruxatiba!
22 de novembro de 2008
Às 19:00h
Na Pousada Rio do Peixe
Pizza da Paula, cerveja e refrigerante, além de 03 cartelas para o
Na Pousada Rio do Peixe
Pizza da Paula, cerveja e refrigerante, além de 03 cartelas para o
sorteio das peças oferecidas pelas artistas Renata, Eva e Eliana
Além deste evento a Pousada É – Esther e Hans – nos ofereceram, de surpresa, a arrecadação de um bingo comemorativo do aniversário do Hans. Muito obrigado, amigos!
Vamos arrumar a casinha e fazer uma caixinha para o início do ano.
Até dezembro!
Além deste evento a Pousada É – Esther e Hans – nos ofereceram, de surpresa, a arrecadação de um bingo comemorativo do aniversário do Hans. Muito obrigado, amigos!
Vamos arrumar a casinha e fazer uma caixinha para o início do ano.
Até dezembro!
OUTUBRO DE 2008
Outubro chegou trazendo o aroma dos cajus que, por tradição, as crianças comem ainda verdes... e com sal. Do mesmo modo comem as mangas. É difícil acreditar que vão sobrar frutas para amadurecer nas árvores.
Aliás, os cajueiros e mangueiras foram palco de uma polêmica – que, de fato, acontece desde o ano passado. A maioria das crianças de Cumuruxatiba têm uma imensa habilidade para subir nas árvores, “está no sangue”, é cultural, podemos dizer.
Entretanto, podem cair – “acidentes acontecem” – e alguém levantou o perigo disto acontecer no Projeto de Gente; que, neste caso, pode ser responsabilizado. Naturalmente que já há algum tempo discutimos a questão.
E agora? Duas verdades: as crianças sobem nas árvores muito bem, gostam, sabem o que fazem, e é muito bonito vê-las usando suas habilidades. Seria, até mesmo, uma violência obrigá-las a não se empoleirarem nas árvores. Porém, por outro lado, podem cair e o Projeto é mesmo responsável por elas.
Dias e dias de conversa para que todos compreendam que precisávamos proteger as crianças e o próprio trabalho; que é legítimo o desejo de subir nas árvores; que têm a habilidade necessária para isso; e que algum adulto – fora do Projeto -, esquecido que um dia foi criança, pode não aceitar que este tipo de acidente acontecesse exatamente ali – embora eventualmente pudesse aceitar (mesmo brigando com a criança) se acontecesse na sua própria casa, no terreno baldio ou no quintal, invadido, do vizinho.
Assim, algumas regras foram combinadas e providências tomadas: foi estabelecido que nos galhos mais baixos seria possível subir, nos galhos secos e finos não pode; varas para colher as frutas sem necessidade de subir na árvore foram arranjadas.
Ao lado deste movimento tão natural – o subir nas árvores – outro foi sugerido por algumas meninas. Elas propuseram, em Roda, a realização de um desfile: o concurso Miss Projeto de Gente. A proposta foi imediatamente aceita com entusiasmo e, inclusive, a adesão de alguns meninos – para surpresa das meninas. Foi criado um grupo organizador que estabeleceu que: além da Miss e, agora, do Mr. Projeto de Gente, haveria a Miss e Mr. Simpatia; não haveria desfile de biquíni ou sunga para não haver injustiça ou vantagens já que alguns são tímidos o suficiente para não desfilar se fosse necessário usar estes trajes; foi escolhido um Mestre de Cerimônia; dois juízes – adultos -; uma corda demarcaria a passarela; e familiares seriam convidados.
Foi assim que, numa bela tarde ensolarada, á sombra da grande mangueira, realizou-se o evento. Notem que toda a organização foi coordenada pelos meninos e meninas, os adultos participaram mais efetivamente apenas da construção da passarela e, convidados, do corpo de jurados.
Sucesso, inclusive com a tradicional presença da mãe da Miss Projeto de Gente: a Neuziane; a Miss Simpatia foi a Juliene; o Mr. Projeto de Gente escolhido foi o Ioane e o Mr. Simpatia, o Douglas Costa. Tudo foi vivido com muita alegria, graça, liberdade e seriedade – uma menina chamou um educador nos bastidores para mostrar as mãos tremendo e úmidas. Também foi um bom momento para conversar sobre temas relacionados ao corpo, à sexualidade, à banalização do uso tanto de um quanto de outro; timidez; beleza padronizada e escravocrata; etc. e etc.
Outro grupo também organizou, produziu e apresentou uma “Puxada de Rede”. A Puxada é uma, já tradicional, performance cultural em Cumuruxatiba. Trata-se da adaptação de um trecho do “Mar Morto”, de Jorge Amado: um grupo de pescadores e suas companheiras apresentam cenas da realidade de suas vidas – a pesca, os conflitos conjugais, a bebida, o cotidiano das mulheres esperando seus maridos, a morte no mar.
Foi interessante acompanhar o trabalho dos que tomaram a frente dos ensaios, suas alegrias e reclamações; como lidaram com o descompromisso de um ou outro, o trabalho para arrumar roupas e instrumentos: rede, arpões, machado, os atabaques e berimbaus que pontuam os cantos do candomblé presentes em toda a encenação – aliás, a voz do cantor soou cheia de lamento e vigor nos momentos de maior dor ou alegria.
No dia da apresentação um dos componentes não pode participar e foi muito bonito perceber a solidariedade de todos com a menina que se dispôs a fazer uma substituição. Do mesmo modo houve uma linda colaboração com os atores que, nervosos, esqueciam, aqui e ali, suas falas: vozinhas eram ouvidas sussurrando a voz esquecida.
O palco foi sobre a terra do quintal, o mar levantava poeira e o céu era a copa das mangueiras, mas aqueles meninos e meninas nos levaram para a beira-mar, para dentro das biroscas, para o interior das canoas, para dentro da dor da saudade, para debaixo do céu azul e da luz dourada do sol.
Conforme comentamos no “Diário de setembro”, demos andamento à idéia da Milena e do Luiz da Pousada Rio do Peixe: preparamos cerca de 170 cartões feitos de papel reciclado e desenhados pelas crianças. Durante as conversas surgiu também a possibilidade de realizarmos um bingo em novembro com recursos revertidos para o Projeto. Estamos combinando como será.
Neste outubro aprofundamos a questão da relação entre o número de crianças e o de adultos. Muitas crianças e poucos adultos. Em praticamente todas as rodas era comentado que alguma coisa não estava bem, que havia certo descuido, que os adultos estavam mais exercendo um papel de “policiamento” do que atuando nas oficinas ou estando em contato mais contínuo com as crianças individualmente. Isto é, muitas crianças, muito movimento, muito encontro de energias, muita necessidade de estar atento aos inevitáveis conflitos,... mas poucos educadores para cumprir esta função e as demais que marcam a essência do Projeto.
Questão delicada, pois a melhor solução é, justo, a mais difícil: conseguir mais educadores para adequar a tal relação criança/adulto, profissionalizar o trabalho. Claro que é a solução também ansiada e procurada. A alternativa , compulsória, indesejada, é diminuir o grupo de crianças.
Assim fechamos outubro: refletindo sobre este problema e aproveitando os biscoitos que a Ângela doou.
Aliás, os cajueiros e mangueiras foram palco de uma polêmica – que, de fato, acontece desde o ano passado. A maioria das crianças de Cumuruxatiba têm uma imensa habilidade para subir nas árvores, “está no sangue”, é cultural, podemos dizer.
Entretanto, podem cair – “acidentes acontecem” – e alguém levantou o perigo disto acontecer no Projeto de Gente; que, neste caso, pode ser responsabilizado. Naturalmente que já há algum tempo discutimos a questão.
E agora? Duas verdades: as crianças sobem nas árvores muito bem, gostam, sabem o que fazem, e é muito bonito vê-las usando suas habilidades. Seria, até mesmo, uma violência obrigá-las a não se empoleirarem nas árvores. Porém, por outro lado, podem cair e o Projeto é mesmo responsável por elas.
Dias e dias de conversa para que todos compreendam que precisávamos proteger as crianças e o próprio trabalho; que é legítimo o desejo de subir nas árvores; que têm a habilidade necessária para isso; e que algum adulto – fora do Projeto -, esquecido que um dia foi criança, pode não aceitar que este tipo de acidente acontecesse exatamente ali – embora eventualmente pudesse aceitar (mesmo brigando com a criança) se acontecesse na sua própria casa, no terreno baldio ou no quintal, invadido, do vizinho.
Assim, algumas regras foram combinadas e providências tomadas: foi estabelecido que nos galhos mais baixos seria possível subir, nos galhos secos e finos não pode; varas para colher as frutas sem necessidade de subir na árvore foram arranjadas.
Ao lado deste movimento tão natural – o subir nas árvores – outro foi sugerido por algumas meninas. Elas propuseram, em Roda, a realização de um desfile: o concurso Miss Projeto de Gente. A proposta foi imediatamente aceita com entusiasmo e, inclusive, a adesão de alguns meninos – para surpresa das meninas. Foi criado um grupo organizador que estabeleceu que: além da Miss e, agora, do Mr. Projeto de Gente, haveria a Miss e Mr. Simpatia; não haveria desfile de biquíni ou sunga para não haver injustiça ou vantagens já que alguns são tímidos o suficiente para não desfilar se fosse necessário usar estes trajes; foi escolhido um Mestre de Cerimônia; dois juízes – adultos -; uma corda demarcaria a passarela; e familiares seriam convidados.
Foi assim que, numa bela tarde ensolarada, á sombra da grande mangueira, realizou-se o evento. Notem que toda a organização foi coordenada pelos meninos e meninas, os adultos participaram mais efetivamente apenas da construção da passarela e, convidados, do corpo de jurados.
Sucesso, inclusive com a tradicional presença da mãe da Miss Projeto de Gente: a Neuziane; a Miss Simpatia foi a Juliene; o Mr. Projeto de Gente escolhido foi o Ioane e o Mr. Simpatia, o Douglas Costa. Tudo foi vivido com muita alegria, graça, liberdade e seriedade – uma menina chamou um educador nos bastidores para mostrar as mãos tremendo e úmidas. Também foi um bom momento para conversar sobre temas relacionados ao corpo, à sexualidade, à banalização do uso tanto de um quanto de outro; timidez; beleza padronizada e escravocrata; etc. e etc.
Outro grupo também organizou, produziu e apresentou uma “Puxada de Rede”. A Puxada é uma, já tradicional, performance cultural em Cumuruxatiba. Trata-se da adaptação de um trecho do “Mar Morto”, de Jorge Amado: um grupo de pescadores e suas companheiras apresentam cenas da realidade de suas vidas – a pesca, os conflitos conjugais, a bebida, o cotidiano das mulheres esperando seus maridos, a morte no mar.
Foi interessante acompanhar o trabalho dos que tomaram a frente dos ensaios, suas alegrias e reclamações; como lidaram com o descompromisso de um ou outro, o trabalho para arrumar roupas e instrumentos: rede, arpões, machado, os atabaques e berimbaus que pontuam os cantos do candomblé presentes em toda a encenação – aliás, a voz do cantor soou cheia de lamento e vigor nos momentos de maior dor ou alegria.
No dia da apresentação um dos componentes não pode participar e foi muito bonito perceber a solidariedade de todos com a menina que se dispôs a fazer uma substituição. Do mesmo modo houve uma linda colaboração com os atores que, nervosos, esqueciam, aqui e ali, suas falas: vozinhas eram ouvidas sussurrando a voz esquecida.
O palco foi sobre a terra do quintal, o mar levantava poeira e o céu era a copa das mangueiras, mas aqueles meninos e meninas nos levaram para a beira-mar, para dentro das biroscas, para o interior das canoas, para dentro da dor da saudade, para debaixo do céu azul e da luz dourada do sol.
Conforme comentamos no “Diário de setembro”, demos andamento à idéia da Milena e do Luiz da Pousada Rio do Peixe: preparamos cerca de 170 cartões feitos de papel reciclado e desenhados pelas crianças. Durante as conversas surgiu também a possibilidade de realizarmos um bingo em novembro com recursos revertidos para o Projeto. Estamos combinando como será.
Neste outubro aprofundamos a questão da relação entre o número de crianças e o de adultos. Muitas crianças e poucos adultos. Em praticamente todas as rodas era comentado que alguma coisa não estava bem, que havia certo descuido, que os adultos estavam mais exercendo um papel de “policiamento” do que atuando nas oficinas ou estando em contato mais contínuo com as crianças individualmente. Isto é, muitas crianças, muito movimento, muito encontro de energias, muita necessidade de estar atento aos inevitáveis conflitos,... mas poucos educadores para cumprir esta função e as demais que marcam a essência do Projeto.
Questão delicada, pois a melhor solução é, justo, a mais difícil: conseguir mais educadores para adequar a tal relação criança/adulto, profissionalizar o trabalho. Claro que é a solução também ansiada e procurada. A alternativa , compulsória, indesejada, é diminuir o grupo de crianças.
Assim fechamos outubro: refletindo sobre este problema e aproveitando os biscoitos que a Ângela doou.
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