terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Setembro/ 2010


Setembro foi marcado pelo debate sobre a Escola Projeto de Gente. Adultos, meninos e meninas foram envolvidos pelo tema e seus variados aspectos: “será que todos que quiserem vão poder participar?”, “quem está nesta escola vai precisar ir na outra?”, “quem vier na escola do Projeto vai ter diploma que vale?”, “oba! não tem prova?”, “sei não, acho que meu pai vai ficar com medo de me colocar em outra escola!”, “vai ser uma escola paga?”, “e se eu mudar de cidade, p'ra que ano que vou?”, “a gente aprende o mesmo que na outra escola?”, “e se me perguntarem em que ano que 'tou, o que que eu falo?”, “quem vai dar aula?”, “tem aula?”, “se não tem prova, como é que faz?”, “tem presença?”, “é preciso explicar muito bem este negócio de liberdade, se não vão pensar que é bagunça!”, “onde é que vamos conseguir dinheiro para levantar a escola?”

Foi também em setembro que fomos, Ana e eu, a São Paulo. Tínhamos como metas entrar em contato com o pessoal das Escolas Democráticas, principalmente a Helena Singer; conhecer a Politeia – escola organizada pelo grupo da Helena –; procurar conhecer com detalhes as estruturas administrativa e financeira da escola; conversar sobre as questões específicas de Cumuruxatiba, etc e etc.

A viagem foi bastante proveitosa. Além da Politeia, conhecemos também a Teia Multicultural – uma escola que está se organizando democraticamente, orientada pelo pessoal da Helena e oferece Ensino Infantil e Fundamental I. A Politeia trabalha com uma moçada mais velhinha – um equivalente ao Fundamental II.

Helena Singer comentou, em São Paulo, que cooperativas têm se mostrado a estratégia mais eficiente na organização de experiências sócio-democráticas no Brasil. Isto se deve, provavelmente, à facilitação na formação de redes entre cooperativas afins; ao fato de que os gestores serão também pessoas que estarão próximas e interessadas no dia a dia da escola; além disto, os que não participam do cotidiano têm também os mesmos ideais e objetivos.

Como, por definição, uma cooperativa é formada pelo encontro de pessoas que desejam contribuir, umas com as outras, com bens e serviços, na construção de uma atividade de proveito comum e sem objetivo de lucro, em uma pequena comunidade esta é, sem dúvida, a melhor forma de associação, pois favorece a união de potências – recursos – pessoais para um fim comum. Uma cooperativa é, portanto, uma estrutura perfeitamente adequada a uma escola democrática.

Entretanto, nos parece que, a princípio, seria muito custoso criar uma cooperativa, pois já temos a Associação Projeto de Gente que, embora precisando de ajustes, já está criada.

Em Sampa tivemos a oportunidade de conhecer o projeto Escola Bairro. Percorremos com a Helena e a Lilian as várias modalidades de atividades que são desenvolvidas na Vila Madalena: oficinas de grafiti com intervenções nas praças e muros do bairro, informática, áudio- visuais, jornal, etc e etc.

Seguindo a inspiração do Birro Escola e a a ideia de cooperação, de cooperativa – operar junto, trabalhar junto –, podemos imaginar a escola, em Cumuruxatiba, ultrapassando seus limites físicos a alcançando o conhecimento que está por toda parte. O conhecimento que está na padaria, na cozinha do restaurante, na oficina de bicicleta, no posto de saúde, na pousada, no mercadinho, no bote do pescador, na roça, na aldeia pataxó, na biblioteca da vila, nas outras escolas, no cinema na praça. Podemos imaginar uma bela rede de relações entre os mestres destes conhecimentos – pessoas comuns com as quais nos encontramos a todo momento – e os estudantes da escola. Também podemos imaginar que, na medida que os responsáveis estarão escolhendo esta escola por causa de sua forma de pensar e atuar, vamos ter a chance de construir uma rede mais forte entre a escola e estas famílias. Esta rede pode criar um suporte mais vivo e ativo para os meninos e meninas da escola. Daí a sugestão de nome para esta escola: Vila-Escola Projeto de Gente.

Voltamos muito animados, depois de um estratégica paradinha no Rio para discutir com o pessoal de lá os resultados da viagem.

Tanto no Rio de Janeiro (na tal estratégica paradinha) quanto em Cumuruxatiba (principalmente durante um de nossos jantares mensais – casa de Andreia e Rico), expusemos estes aspectos, conversamos a respeito e concluímos que este era mesmo um bom caminho a seguir – ocamiho da Escola.

Pois bem, demos início ao movimento em direção à efetiva criação da escola; nesta altura já tratada como: a Vila Escola Projeto de Gente.

Este movimento incluía: (1) reunião com os pais e mães dos pequeninos – acontecida em 21 de setembro –; (2) reunião com as direções e coordenações pedagógicas das 3 escolas de Vila – realizada em 23 de setembro   –; (3) ida ao Prado para reunião com o pessoal da Secretaria Municipal de Educação – 04 de outubro.

Como resultado da reunião na Secretaria foi enviado um ofício, em 19 de outubro, solicitando ao Conselho Municipal de Educação a apreciação de nossa proposta.

Neste meio tempo escrevemos a Proposta Político-Pedagógica da Vila Escola que foi anexada ao ofício. Também neste período preparamos o regimento interno da escola. A reunião do Conselho foi adiada duas vezes (de 22 para 24 de outubro e, finalmente, para 11 de novembro). Ainda não temos o resultado desta reunião, embora, e certamente um bom sinal, tenhamos recebido uma mensagem eletrônica de uma das conselheiras avisando do adiamento da reunião e elogiando a proposta.

Como já é nossa tradição – boa tradição – trabalhamos com a certeza de que sempre devemos ter nossos planos visíveis e transparentes. Justo por conta disto, inclusive, logo quisemos um contato com as escolas da vila para, exatamente, não criar a impressão de que estávamos propondo a criação de uma estrutura inimiga. Apenas queremos oferecer uma alternativa - alternativa no mais puro sentido do termo.

Seguindo a mesma linha de conduta, pensamos em apresentar à comunidade a proposta desta escola tão diferente em relação ao que a Vila tem como possibilidade para os meninos e meninas. Vale lembrar que foi assim que agimos em 2007: durante 3 meses, realizamos encontros frequentes, muito frequentes, com as escolas, os pescadores, moradores em geral, etc. E, apenas depois de sentir  receptividade dos moradores, abrimos as portas do Projeto de Gente.

Para nós isto é muito importante na medida que acreditamos que será, mais do que qualquer outro fator, a reunião – muita união – de pessoas interessadas na proposta da Vila Escola que nos levará aos demais recursos necessários: profissionais, voluntários e recursos financeiros. E, quando dizemos interessadas, estamos nos referindo a pessoas que têm filhos e filhas em idade escolar, pessoas que, mesmo sem filhos nesta situação, apoiam a proposta por acreditar em suas metas.

Não nos iludimos quanto a complexidade da proposta que, como já dissemos, é inovadora em nossa comunidade – e mesmo em outros centros, embora e felizmente, não única. Porém, acreditamos que justamente apresentando – clareando, clareando – o trabalho podemos criar campo propício ao seu  gradual entendimento. Desta maneira também, revelando nossos conceitos, filosofia, possibilidades e limitações, estaremos evitando que as pessoas criem ilusões a respeito e contribuindo também para evitar o “ouvir falar que...”.

Falar sobre a Vila Escola pode, inclusive, abrir chances de concretização para circunstâncias que, neste momento, não são possíveis: a turma de crianças acima de 7 anos, por exemplo e especialmente para os maiores de 10. Pais e mães de meninos e meninas com mais de 7 que se interessem poderão criar a mobilização necessária para alcançarmos estes recursos. Aliás, vale dizer, este já é um acontecimento real.

Não nos iludimos também ao afirmar que a proposta de uma escola libertária será, por muito tempo, delicada, duplamente delicada. Duplamente, pois, tanto do ponto de vista pedagógico quanto do filosófico, encontraremos muita resistência. Pedagogicamente, muitos se sentirão inseguros quanto aos resultados desta instituição tão diferente das que estão acostumados a perceber como “normais”; filosoficamente pois, para muitos, é difícil trabalhar em direção à autonomia de seus filhos e filhas, na medida em que isto pressupõe questionamentos, sensação de perda de controle, além de dedos colocados em feridas que estes adultos esconderam muito bem escondidas e não desejam expor (embora sigam sentindo a dor das feridas ocultas!).

Infelizmente, via de regra, as crianças são estimuladas a obterem autonomia para satisfazer as necessidades que a sociedade solicita. A conquista de uma autonomia que os impulsione em direção à felicidade mais profunda e verdadeira exige um longo trabalho e nós, adultos, que tencionamos nos oferecer como campo para que algumas crianças alcancem esta forma de autonomia precisamos estar seguros e dispostos a ele; precisamos não nos deixar abater por julgamentos feitos de acordo com as leis do sistema vigente e que, via de regra, não admite alternativas; precisamos, serenos e pacíficos, criar e mostrar nossas próprias avaliações. Avaliações que incluem “coeficientes” de alegria, de bem estar e de prazer no desenvolvimento de cada uma de nossas crianças, “coeficientes” de alegria, de bem estar e de prazer na aquisição de conhecimentos, “coeficientes” de solidariedade, “coeficientes” que revelem pessoas menos competitivas e mais colaborativas na organização social do ser humano, “coeficientes” de compreensão e respeito às limitações pessoais e dos amigos, “coeficientes” de compreensão e aceitação das diversas formas de se ver e sentir a vida.

Até a próxima!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Agosto/ 2010

Três anos de atividades. Três anos de erros e acertos. Três anos de aprendizado. Mais de 120 meninos e meninas passaram pelo Projeto de Gente neste período. Destes, muitos, quase todos, se sentem ainda pertencentes a este espaço. Alguns presentes com muita regularidade, outros mais distantes. Motivos do afastamento: cresceram, motivaram-se por outros movimentos, mudaram de cidade, perderam o interesse pelo que existe no dia a dia do Projeto, uma teve um filhinho, outros estão trabalhando...


O que conquistamos nestes anos? Confiança dos meninos e meninas. Apesar de termos muitas dificuldades no contato com as famílias, percebemos também – pelo fato de permitirem a ida de seus filhos - um grau importante de confiança.


O que não conquistamos? Muito; porém, o mais importante: não conquistamos uma estrutura verdadeiramente democrática. Ou melhor, os meninos e meninas não conseguiram romper suas resistências quanto ao processo democrático de conversação e negociação das questões coletivas. É certo que alguns adultos também tiveram dificuldades de abrir mão de condutas dominadoras.


O que comentaremos, a seguir, é o resultado de observações, muita conversação; também vamos escrever sobre os rumos que estamos propondo ao Projeto de Gente em Cumuruxatiba.
 O Projeto de Gente, em seu formato atual, não poderia ser de presença obrigatória, sob pena de afastar os meninos e meninas que, por conta de variadas e naturais situações, não podem garantir tal assiduidade. Foi, exatamente, a flutuabilidade na frequência cotidiana no Projeto e a percepção de que a estrutura democrática ficava comprometida sem uma participação mais estável que os educadores colocaram em pauta a transformação do Projeto de Gente na Escola Projeto de Gente.

Agora, estamos seguros de que este é um passo à frente no desenvolvimento do trabalho em direção às metas do Projeto.

Resumindo, acreditamos, ou melhor, estamos convencidos de que, por conta da natural necessidade de presença das meninas e meninos, a escola promove um:
            - Melhor campo para a  vivência da dinâmica democrática. E assim, com a prática democrática todos poderão perceber melhor o valor do comportamento solidário. Nesta circunstância, cada um aprende que é responsável por si e também pelos demais. A lei natural da cooperação e solidariedade prevalecerá em relação à lei da competitividade.
            - Melhor campo para interação e observação do Processo de Individuação de cada um dos integrantes do Projeto. Um lugar onde poderemos perceber melhor quem cada um é, e respeitá-lo em sua maneira de ser. As pessoas são semelhantes entre si; semelhantes, não iguais. Nem todos têm as mesmas habilidades, interesses ou mesmo sensibilidades absolutamente iguais. Apesar de cada ser humano possuir tudo o que outro possui, em cada um, estes elementos se organizam de maneira única, singular. É preciso que as crianças possam reconhecer sua pessoalidade – e a do outro – para, assim, perceber que nenhum é melhor – e nem precisa ser – do que ninguém. Neste lugar será possível conhecer a liberdade como uma prática onde não se faz, simplesmente, o que se quer, mas, uma prática onde se faz o que se quer junto ao outro, com o outro.
            - Oferecer uma prática pedagógica em que os estudantes definirão, com os professores, sua trajetória de aprendizado, apoiados em interesses concretos.
            - Oferecer uma alternativa à escola tradicional na qual o estudante encontra um ambiente extremamente disciplinador, com escolhas quase sempre reduzidas a cumprir – ou não – tarefas que lhe são impostas; onde precisa cumprir metas e performances estabelecidas, frequentemente, sem atenção às particularidades de cada pessoa. Um lugar onde ou cumprem estas tarefas ou serão punidos e reprovados.

Na verdade, desde 2005, temos esta convicção. Apenas não entramos em Cumuruxatiba como escola por termos percebido, depois do contato com as três escolas municipais da vila, que este não seria uma boa maneira de apresentar os conceitos e a filosofia de nosso trabalho. A atitude extremamente dedicada de alguns dos profissionais das escolas revelou o melhor caminho para o Projeto de Gente na Vila de Cumuruxatiba.

Agora, três anos se passaram; temos mais clareza do universo em que vivemos; conhecemos mais seus habitantes; sabemos mais de suas questões e necessidades; de seus anseios e peculiaridades.

Uma nova etapa se abre. Etapa carregada de trabalho e responsabilidade; porém, etapa necessária e possível.

Julho - 2010

Mês de férias. 15 dias. Os acontecimentos dos últimos meses trouxeram, com mais evidência, reflexões sobre a dinâmica cotidiana do Projeto de Gente. Os principais pontos: como fortalecer a democracia, como incrementar a divisão de responsabilidades, como mostrar que, aqui, cada um é responsável por si e também pelos demais, como trabalhar a importância da livre manifestação ao lado do outro – isto é, como viver a liberdade com o outro.

Um elemento dominou, naturalmente, o centro destas reflexões: a democracia, o aprendizado do comportamento democrático acontece na vivência cotidiana dela mesma. Para que este rito iniciático aconteça é necessário a participação efetiva dos membros da comunidade. Como já nos referimos, em outros diários, o Projeto não tem obrigatoriedade de presença. Concluímos, por vários motivos, que estabelecer esta prática levaria ao esvaziamento do trabalho. O principal motivo seria a natural reação das crianças contra tal obrigatoriedade - “já somos obrigados a ir na escola, e, agora, também neste tal de projeto!”.

Contudo, a questão que se organiza com a não obrigatoriedade é, justamente, uma vivência menos efetiva da prática democrática. Por exemplo: em certo dia a Roda, com 15 participantes, levantava importantes questões. Ótimo!, porém, como as soluções não puderam ser concluídas neste dia acontecia que, na próxima Roda, também com 15 participantes – mas, 11 diferentes da anterior –, não se conseguia fechar o assunto. Tínhamos várias primeiras Rodas!

Foi neste contexto que a possibilidade de criarmos um Escola Projeto de Gente foi ganhando força. Numa escola, constituída oficialmente, teríamos a questão da regularidade de presença naturalmente resolvida. Outro ponto vantajoso: a participação das famílias também tenderiam a ser mais natural. Mesmo do ponto de vista do principal propósito do Projeto de Gente – o acompanhamento do Processo de Individuação de cada um de seus participantes – haveria um ganho extraordinário por conta da possibilidade de estarmos mais próximos dos meninos e meninas.

Assim, começamos a conversar com a moçada sobre o que é uma Escola Democrática. Foi muito fácil perceber a adesão de muitos meninos e meninas. A princípio por conta de questões como a ausência de provas, por exemplo; mais adiante, compreendendo melhor a dinâmica desta proposta pedagógica, percebendo outras, e mais profundas, atrações.

Problemas também eram percebidos por eles: “mas, se a gente vira uma escola, o que vai acontecer com os caras que o pai ou a mãe não queiram que o filho esteja aqui?”; “será que meus pais vão concordar?”; “é uma escola paga?; “quanto vai custar?”; “dá diploma igual a outra escola?”. A moçada é esperta!

A ideia está lançada! Também começamos a conversar com os apoiadores do Projeto de Gente, aqui em Cumuruxatiba e no Rio de Janeiro.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

junho de 2010

DIÁRIOS DE CUMURUXATIBA
junho de 2010

Olá! Pois bem, o tal movimento dos moradores e viajantes se organizou. Também se organizou o grupo de moradores que organiza o Projeto de Gente: Jaqueline, Alexandra, Alexandre, Thiago, Ornan, Marina e Douglas. Alguns do grupo de “bagunceiros” estão aí.

Pois não é que a onda de bagunça refluiu! Alguns acontecimentos deste mês: a oficina de flauta se fortaleceu, a preparação de uma apresentação – flauta e teatro de sombras – para julho; a própria aula de flauta ganhou novos adeptos (incluindo dois carinhas do famoso “grupo”); a proposta do grupo de teatro avançou. Em um dia de muita chuva vimos um filme – Avatar – e combinamos que uma sessão acontecerá de 15 em 15 dias, seguida de um bate-papo, para quem quiser, naturalmente.

Pelo menos para um dos adultos do Projeto esta foi uma extraordinária experiência, pois ele estava na beira de desistir de, pelo menos, dois daqueles meninos. Ele se sentia dividido entre os que queriam uma dinâmica mais tranquila, calma e os bagunceiros que, de um jeito ou outro, também tinham direito à sua própria dinâmica. Claro que os combinados em roda é que decidiriam a parada e, neste caso, a maioria queria mais paz. De todo modo este adulto estava se acostumando com a possibilidade de considerar o caminho escolhido por aquele grupo como um direito e um fato cristalizado em suas vidas. Enfim, estava aceitando que as couraças organizadas por estas crianças eram já tão endurecidas quanto às de tantos adultos. Restava a questão sobre como trabalhar a situação de reincidência contumaz do desrespeito às combinações. Levar para a Roda e aceitar o que muitos já admitiam como única solução: a expulsão ou suspensão destes meninos?

Um acontecimento, aparentemente casual, foi uma marca importante numa mudança de atitude do grupo: alguns meninos estragaram um jogo – um tabuleiro de gamão – de estimação de um educador e que fora emprestado por este aos meninos e meninas. Quando isto veio á tona houve um clamor forte e alguns dos meninos responsáveis se sentiram muito constrangidos. Agora, poeira assentada, é possível perceber que realmente houve um divisor de águas neste momento. A auto-regulação enfim acontecia. Os meninos perceberam quais seriam as consequências de seus atos – e nem estamos falando de expulsão, embora isto tenha sido discutido. Estamos nos referindo à uma espécie de isolamento que, a partir daquele momento, este grupo passou a sentir. A partir daí alguns destes meninos mudaram de atitude e, de certa forma, passaram a liderar uma mudança. Na verdade, acreditamos que houve uma mudança de consciência mesmo que ainda sem a percepção do que motivava cada um dos componentes do grupo a agirem como agiam. De todo modo, entre alguns, questões começaram a ser levantadas: “O fulano faz isto porque esta com problemas em casa, sua mãe e o padrasto estão se separando e ele não sabe o que vai acontecer com ele”, “Sicrano precisa muito de ter atenção, lá na casa dele ninguém liga p'ra ele, o pai bebe p'ra caramba, a mãe desconta nele”.

Um grande amigo do Projeto tinha a opinião de que os educadores já estavam sendo considerados como pessoas bobas, achincalhados pelos meninos e meninas “da bagunça”. Mas, talvez, estivessem apenas sendo fiéis a um princípio. Para eles, serem eventualmente motivo de chacotas não era o mais importante; o complicado é que uma outra parcela de pessoas – as que não queriam aquela quantidade de bagunça – também estavam corretas em pedir que sua proposta tivesse valor, que fosse qualificada. Largar de mão os “bagunceiros” era difícil para os educadores. Mas, eles aparentemente não queriam compor uma combinação. Foi então que aconteceu o “golpe de sorte” que contamos aí em cima. Há quem diga que não foi “golpe de sorte” e sim o momento – um momento de sincronicidade, diria Mestre Jung – em que novas engrenagens se organizaram, o momento em que eventos aparentemente separados, distintos – apenas aparentemente – se juntaram, o momento da mágica auto-regulação. Afinal, os “bagunceiros” não queriam perder o Projeto e, na hora h, agiram neste sentido.

Lévi-Strauss mostrou que as sociedades humanas, embora diferentes entre si, obedecem, em sua organização, a um código ou sistema universal, isto é, há algo em comum – um fundamento universal – como pano de fundo em todas elas. Tal pano de fundo não é a geografia em que o humano está incluído – embora ela também tenha influência – , nem a natureza externa a ele ou a própria sociedade onde nasceu – embora também isto tenha influência. A cultura de uma sociedade – sua maneira de viver, ver o mundo – é organizada por seus sócios, isto é, por todos os que co-laboram na organização desta estrutura. Este é o pano de fundo: o ser humano e sua muito pessoal sensibilidade, sua forma reativa, sua forma ativa. Cada um oferece seu labor, sua cota e, ao mesmo tempo, recebe o labor e a cota do outro, parceiros nesta construção, todos responsáveis pelos caminhos, pelo destino desta sociedade.

Esta responsabilidade, pessoal e intransferível – e formadora da estrutura coletiva -, é nosso foco de interesse. “Cada vez que, num sistema, um estado surge como modificação de um estado prévio, temos um fenômeno histórico”, disseram Maturana e Varela. Qual nossa cota de responsabilidade na organização do caminho histórico da vida? Qual a qualidade de nossa contribuição pessoal? Qual a “parte que me cabe neste latifúndio”?

É preciso, primeiro, existir para, depois, reproduzir. Será que damos oportunidade a nossas crianças para que elas, primeiro, simplesmente existam ou será que nem percebemos sua existência e já a obrigamos a reproduzir atitudes e comportamentos organizados que, por sua vez, escondem nossa verdadeira e própria existência?

Certa vez uma pessoa disse que seu companheiro lhe fazia muito bem, mas, ao mesmo tempo, de algum modo a obrigava a olhar para a sua loucura – suas próprias palavras. Entre eles isto era percebido como o mais extraordinário acontecimento daquele encontro: por conta do misterioso e maravilhoso afeto que sentiam, um mostrava ao outro seus recantos mais esquecidos, mais sensíveis e que precisavam vir à tona. Mostravam, assim, a fonte de energia vital mais pura, mais primordial, mais legítima, a mais curativa fonte; porém, também a mais exigente, dolorosa e assustadora. Assustadora porque dela ninguém pode fugir sob pena de construir a negação de si mesmo, a ilusão, a desarmonia, a infelicidade. Uma bela possibilidade se apresentava para aquele casal, porém muito trabalhosa, difícil e exigente. Vale mesmo dizer que este casal não conseguiu avançar até onde, certamente, podiam.

Este é o trabalho do Projeto de Gente: ser um campo despreconceituado, sem falsos moralismos, livre o máximo possível para que todos possam se desenvolver de acordo com suas fontes originais. Contudo, vários aspectos conspiram contra e dificultam o trabalho. (1) Nós, adultos do Projeto, estamos livres? Resposta: claro que não! (2) O campo para onde nossos meninos e meninas retornam – casa, escola – tem quais tipos de qualidades? Em relação à primeira questão, além do “claro que não”, também podemos dizer que, pelo menos estamos tentando lidar com esta contradição, não negá-la. Quanto á segunda questão, as limitações são imensas. Quantas vezes, no dia a dia do trabalho, vimos um carinha saindo do Projeto com uma atitude, com um certo brilho e voltando no dia seguinte com esta luz apagada, já esquecida.

Dá para sentir o tamanhão do trabalho?

Até a próxima!

abril/maio de 2010

Diários de Cumuruxatiba
abril/maio 2010

Como abril foi um mês de muito trabalho, não conseguimos escrever o diário. Melhor assim, pois, abril e maio revelaram-se meses bastante parecidos em sua dinâmica.

Vamos propor uma metáfora que, talvez, facilite a compreensão deste movimento: um dia, conhecemos um menino que veio ver como era o Projeto de Gente. Menino de 12 anos, pele negra, olhos de jabuticaba – lugar comum mas real –, gentil. Como tínhamos poucas crianças naquela segunda-feira, nós o convidamos para participar. O menino mostrou-se, de fato, gentil, colaborativo, solidário. Morava na Areia Preta – um bairro mais distante do Centro de Cumuruxatiba –, o que nos deixou contentes, pois, pela distância, é difícil alcançar os meninos e meninas deste bairro.

Durante a semana ele veio, sempre sabendo que sua permanência dependeria do número de participantes – um limite espacial. O grupo de inscritos do Projeto está, neste momento, completo (42 pessoas).

Mais ou menos a partir da 3ª semana seu comportamento, gentil e participativo, foi, a pouco e pouco, modificando-se. 4ª semana: definitivamente à vontade, o menino mostrava outras facetas – provocador, “zoador”, desrespeitando as combinações (todas feitas em rodas de conversações).

Dissemos “à vontade”, é verdade, porém, talvez seja melhor não dizer “à vontade”, pois este menino não está exercendo sua vontade original. Está, de fato, apenas repetindo uma atitude organizada ao longo de anos e anos de massacre à sua verdadeira vontade. Sua vontade original, sua fonte vital original está escondida, esquecida. Ele não é mais consciente protagonista na construção de sua história, pois não é mais ativo, é reativo. Como disse Rousseau: “O homem nasce livre e por todo lado está acorrentado”. E, concordando com este pensador, acrescentou Wilhelm Reich: “... o homem nasce livre, mas é como escravo que ele passa a vida”, um escravo esquecido de sua liberdade, tão bem escravizado que não sabe mais como é ser livre. Tão bem escravizados que aceitamos como regras de liberdade (e felicidade) as correntes que nos prendem a uma mesma e repetitiva maneira de (re)agir.

Ao longo da vida, de fato bem no seu início (ainda intra-útero, apontam muitas observações), já aprendemos a nos contrair, amolecer, enrijecer, e a manter estas atitudes até perder a forma original, até esquecê-la. Nos contraímos, amolecemos, enrijecemos pois nos vemos frente a diversas circunstâncias ameaçadoras. Depois, assustados, confusos, mantemos estas estruturas emocionais mesmo quando não mais ameaçados. Cuidadosamente camuflamos (disse Reich) o ponto onde a atenção deveria se focalizar, desviamos esta atenção, perdemos contato com nossa sensibilidade mais profunda, pois lá está o medo que um dia foi tocado, a sensível ferida que também nos identifica como aquela pessoa.
Assim somos a maioria. Talvez seja correto dizer, todos; todos em todo o mundo.

Por isto, por ser constituído por pessoas comuns, a comunidade do Projeto de Gente é também presa destas tão humanas armadilhas. Já fomos mais gentis, generosos, participativos, criativos. Um grupo de meninos e meninas seguiu o exemplo do menino de pele negra e olhos de jabuticaba. Não seguiu este menino que, embora exista, aqui foi ilustrativo.

Mas, o que aconteceu? Perdemos o controle da situação, como sugeriu uma pessoa adulta que participava do trabalho? Participava, pois, em um dia particularmente difícil, trabalhoso, ela alcançou seu limite e desligou-se do Projeto.

Enfim, nós perdemos o controle ou nunca o quisemos? Se, por outro lado, o “controle” foi tomado por uma maioria, então, democraticamente, apenas cabe aceitar. Democraticamente a maioria tem o direito de organizar a comunidade. A democracia, muitas vezes, revela-se um lugar de maioria feliz e minoria infeliz.

O Projeto de Gente tem outra – e sutil – proposta: democracia sem vencedores nem vencidos; democracia onde prevalecem as combinações e não a simples escolha de uma opção; democracia onde, mais do que no voto, as decisões são debatidas e deliberada uma combinação. Combinação, como o nome diz, pode ser o resultado da junção entre várias possibilidades. Claro que o voto, em algumas circunstâncias, é a saída mais limpa; entretanto, neste momento, todos estão acordados sobre a necessidade desta ferramenta. O voto não é a democracia, é uma ferramenta; democracia é o debate aberto, franco e, principalmente, solidário. Infelizmente, no tal “mundo real”, aparentemente, o jogo democrático tornou-se um confronto entre inimigos; e frequentemente jogo sujo, desleal, corrupto. Assim, franqueza e solidariedade, no jogo político, são qualidades quase incompatíveis.

Entretanto, na situação que estávamos vivendo, não havia uma conquista democrática de um grupo convencendo aos outros sobre a beleza e justeza de sua proposta. Havia um grupo, minoritário, forçando uma situação.

E o Projeto tem o direito de impor sua proposta? Certamente não de impor, mas pode apresentá-la claramente como uma opção. Discuti-la, debatê-la. Além disto, os que ouvem têm a chance de melhorar esta proposta com sua sugestões. Assim, uma vez ouvida, debatida, compreendida, uma pessoa pode perceber se deseja ou não participar do movimento.

Nestes dois últimos meses, foi, sistematicamente, dito a este grupo de meninos e meninas que eles não estavam deixando o Projeto de Gente ser o Projeto de Gente. Ora, podem dizer, mas isto é muito poder para um grupo de meninos e meninas. E é mesmo! E é para ser mesmo! A auto-regulação apenas acontece com as pessoas percebendo seu real poder. O projeto mantem-se fiel ao fato de que as crianças vão se conhecer à medida que observam o mundo que criam junto ao outro.

Porém, um quase paradoxo se formou: o Projeto de Gente é um lugar onde as pessoas podem ser quem são; mas, como um lugar que pretende apoiar as pessoas a serem quem são não pode ser, ele mesmo, o que é?

Não foi surpresa quando, defrontados, com as consequências de seus atos, os tais meninos e meninas concordaram que, de fato, o Projeto não estava sendo o Projeto. Concordaram por um simples motivo, inquestionável: eles sabiam que estavam desrespeitando os combinados; sabiam que, se não concordavam com algum, também não estavam fazendo questão de comparecerem às rodas de debates sobre os rumos do trabalho. Deste modo, os outros não sabiam porque aqueles estavam desrespeitando as combinações nem se teriam outras a sugerir.

Dois grupos se estabeleceram: (1) um exigindo que o Projeto fosse o Projeto – um lugar onde as combinações são debatidas, deliberadas e respeitadas; onde uma combinação pode ser alterada – na roda – assim que se percebe que uma outra é melhor. (2) Outro, comparecendo ao Projeto, porém desrespeitando as combinações.

Como não há a ferramenta da exclusão – a velha e ruim expulsão –, para alguns, um impasse se formou. “Vamos deixar os caras colocarem fogo no Projeto?”, perguntavam uns. “Por que não expulsamos quem descumpre certas combinações?”, diziam outros. “Mas, será que expulsar resolve?”, “Será que estes caras que estão botando fogo não estão precisando de uma ajuda, será que estão fazendo isto só para chamar atenção?”, outros elaboravam.

Algumas circunstâncias ficavam claras: a flutuação em relação ao comparecimento na roda dificultava a legitimação das decisões. Em uma certa roda, 10 crianças decidiam algo e deixavam outro algo semi debatido. Na roda seguinte novamente 10 crianças estavam presentes, porém, da 10 do outro dia apenas duas eram as mesmas. O semi debate não havia valido muito. Seria necessário tornar a roda obrigatória? Mas, uma democracia que começa com compulsoriedade parece estranha.

Na verdade, o que fica, mais que tudo, claro é que as meninas e meninos não estão nem um pouco acostumados a participar das decisões nos ambientes em que eles são maioria e – deveriam ser – principais protagonistas; vale dizer, não são protagonistas em seus próprios palcos.

Com todos estes acontecimentos e conclusões, decidiu-se que: (1) os meninos e meninas comprometem-se a comparecer, pelo menos, dois dias – dos quatro de trabalho – ao Projeto. O que se fará com quem não cumprir este combinado, ainda não se sabe. (2) Os combinados precisam ficar mais claros para todos, isto é, precisam ser melhor divulgados. Além disto, as rodas precisam ser mais estimuladas e estimulantes.

Nos últimos dias uma ideia, já mencionada, voltou a ganhar força. O Projeto seria como um país onde existem moradores (pessoas que frequentam com assiduidade), moradores que viajam muito (naturalmente os que não são tão assíduos) e visitantes – aqueles que não estão inscritos (por limite de vagas) no Projeto mas, quando possível, passam o dia conosco. Os moradores fixos seriam os principais responsáveis pelos caminhos do país, pois, por viverem nele, melhor sabem de seus problemas e possíveis soluções. Naturalmente que estas soluções não seriam simplesmente impostas aos outros moradores, mas aqueles se responsabilizariam em levar para estes tanto os problemas quanto as sugestões de soluções.

Esta proposta pareceu bem interessante do ponto de vista organizacional. Porém, a maioria dos meninos que “botam fogo” são, justamente, os mais assíduos. (Interessante isto, não?) Os que descumprem as combinações seriam, portanto, os responsáveis principais por elas. A raposa tomando conta do galinheiro? Nada disto! A crença na sensibilidade e na inclusão dos caras!

Isto ainda não está decidido, mas... vamos a ver!

Em final de maio começamos uma Oficina de flauta com o Mestre Dema. Contudo, uma sequência impressionante de dias de chuvas muito intensas que impediram o trânsito pela estrada de acesso a Cumuruxatiba, dificultaram este início de trabalho.

A vinda de Dema deve-se aos recursos obtidos por um grande amigo do Projeto de Gente, o Herbert Moosmann. Ele, austro-cumuruxatibense, tem um grupo de amigos há muitos anos trabalhando com eventos culturais e decidiram apoiar o nosso trabalho. Muito obrigado, Herbert e amigos!

março de 2010

Diários de Cumuruxatiba
março de 2010


Em fins de fevereiro a vila amanheceu com este cartaz espalhado pelos tradicionais e democráticos pontos de avisos, recados e convocações:



NOVIDADE NO PROJETO DE GENTE

Em 2010, estamos abrindo um grupo para crianças de 3 a 5 anos de idade.

Vagas: 08

Os pais, mães ou responsáveis interessados devem comparecer na sede do Projeto de Gente na Rua Santo Antônio (em frente ao Tadeu e ao Restaurante da Isabel) nos dias 22 e 23 (segunda e terça-feira após o carnaval) das 17:00hs às 19:30hs.

No dia 1º de março, lá pelas 8:30h da manhã, chegavam a Eloah, o Jeremy, o João, o Jonatan, o Kevin, o Oton, o Sávio e o Theo. Aqui, em ordem alfabética; lá, na deliciosa des-ordem das crianças; para nós, iguais no direito à atenção, ao cuidado, ao respeito em relação aos seus projetos de ser, de existir, todos únicos.

Logo na entrada pudemos sentir a imensa responsabilidade assumida pelo Projeto de Gente: era palpável a emoção de mães e pais trazendo seus filhotes para um ambiente outro, diferente de suas já bem conhecidas casinhas. Todos estavam bem cientes que o Projeto não é uma escola; entretanto, a energia circulante (bom exemplo para um certo uso desta complicada palavrinha: energia) era a de primeiro dia na escola.

Crianças de olhares atentos, coladinhas aos pais e mães, mochilinhas nas costas, sacolinhas nas mãos. Uns mais introvertidos, quietos – exploradores visuais –, outros mais expansivos, inquietos – exploradores táteis. Aqui, um concentrado; ali, outro devaneador. Um falante, outro, escutador. Um gesticula amplo, segredos por detrás; em outro o gesto é quase secreto, segredo a ser desvendado. Todos desenhistas, escultores, pintores, construtores; cada um, um desenho, uma escultura, uma pintura, uma construção – uma revelação. Verdes, traços, círculos, caras e bocas, vermelho, azul e amarelo, sóis e luas. Risos, choros, gargalhadas, conflitos, arranjos, rearranjos. Areia, baldes e água. Música, dança. Chuveirada – viva o sol do sul da Bahia! - e lanche. Histórias contadas e ouvidas, olhos brilhando. E o primeira manhã da turminha dos pequeninos passou rápida.

Uma; duas; três; quatro semanas e mais três dias. 23 dias. Primeiro mês.


O ano de atividades do Projeto de Gente em 2010 abre com uma compreensão mais clara do trabalho. Na misteriosa sincronicidade da lei natural, a chegada da Ana Lúcia e a organização da turma dos pequeninos – a Oficina dos Pequeninos – é a corporificação de um melhor entendimento do trabalho no Projeto de Gente.

Os pequenos, e para os desabituados em aprender com pequenos pode parecer paradoxal, trazem organização ao trabalho. Eles são, sem peso ou cobranças sobre seus ombros, campo organizacional e de florescimento para a continuidade do Projeto de Gente, pois exigem atenção e cuidados naturais e específicos. Ao cuidarmos de cuidar deles, somos, naturalmente, obrigados a nos cuidar; somos obrigados a atentar para novos – e muito pessoais – limites; somos obrigados a rever o que é cuidar, o que é obrigar; a fazer a distinção entre apresentar e impor, entre ser duro, flexível e firme, entre habituar ou incorporar, conscientes, atitudes de saúde que nosso corpo pede (lavar os dentes e mãos, por exemplo). Com eles – os pequenos – vamos aprimorar a rede de proteção que tentamos, dia a dia, estender por debaixo das brincadeiras, conversas, oficinas e jogos no Projeto; com eles vamos aperfeiçoar a aproximação com os pais e mães, avós, avôs e tios. Afinal, um carinha de 8 anos ou mais vem só para a casa do Projeto, mas o de 3 a 5 só vem com alguém.

Os nomes dos pequeninos já estão lá em cima. Os maiores de 2010 são: Jéssica, Laiara, Marina, Talita, Thiago, Igor, Matheus, David, Douglas, Ester, Lucas, Nathalia, Gabriel, Ramon, Messias, Peterson, Ornan, Vitor, Flávio, Flavinho, Sara, Stefany, Sabrina, Daniel, Isaías, Jaqueline, Larissa, Patrick, Flávia, Natan, Gladstone, Alexandra, Douglas Costa, George, Lucas, Dilermano, Fabiane, Ana Paula, Abimael, Mávila, Sulamita, Cleiton.

Quanto aos maiores, em março, pareceu que estavam um tanto enciumados em relação aos pequeninos. Apesar das conversas durante o mês de fevereiro e todas as rodas do mês, eles reclamaram do espaço diminuído, do material exclusivo, das frutas incluídas no lanche dos menores. E, mesmo com todas estas circunstâncias debatidas e resolvidas em comum acordo, o certo é que um certo movimento foi ficando claro: um grupo – minoritário, mas, como de costume, contando com o silêncio da maioria – de pessoas passaram a, gradativamente, descumprir combinações propostas. Combinados simples – como lavar os copos depois do uso – ou outros mais importantes – desrespeito agressivos, implicâncias aparentemente sem sentido. Um descumprimento claro, sistemático e, até mesmo, ostensivo. Esta não é uma observação absoluta, não é completamente clara a inter-relação entre estes eventos; porém, não é possível deixar de juntar coisas. Vamos observar mais.

Janeiro/Fevereiro de 2010

Diários de Cumuruxatiba – Janeiro/Fevereiro 2010

Verão absurdamente quente. Se há gente falando que não existe o tal aquecimento global – e bem pode ser verdade visto que, aparentemente, a maioria das pesquisas ditas científicas estão comprometidas por interesses outros –, pelo menos em Cumuruxatiba, o aumento da temperatura média neste verão em relação aos últimos anos foi sensível. Bom para o turistas e a moçada de férias que viveram dias e dias de sol num céu sem nuvens, sombra só a das amendoeiras. Bom para os que vivem – quase todos da vila – do comércio com os turistas. Não tão bom para os lavradores que rezavam para que um pouquinho de água caísse daquele céu sem nuvens, nem que fosse à noite quando os turistas não estão na praia ou no mar.

Fernando Pessoa escreveu:

“... Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se
- Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E quando haja rochedos e erva...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade...”

Ainda temos muito o que aprender!

O Projeto de Gente viveu um longo recesso, pois as escolas da vila, este ano, apenas reiniciaram suas atividades em março. Nós, como sempre fazemos, seguimos este calendário.

Tempo de reflexões e re-estruturações. Nosso amigo Herbert, que já havia mencionado um oferecimento, reiterou o desejo de obter recursos junto a seu grupo para viabilizar a presença do Mestre Dema – músico mineiro, professor de flauta e violão – no Projeto de Gente. Dito e feito! Em janeiro, Herbert nos procurou com as combinações básicas já realizadas junto a seus amigos e também com o Dema. Vamos entrar março com a Oficina de Flauta do Mestre Dema!

Outra grande novidade vai ser a 1ª turma de pequeninos no Projeto. Ana Lúcia – pedagoga carioca que conheceu o trabalho em 2009 – realizou um corajoso movimento: mudou-se de armas e bagagens (mais bagagens do que armas, visto que é uma pacifista) para Cumuruxatiba. Vai trabalhar no Projeto pela manhã cuidando de 8 pequenos com 3 a 5 anos. Ana traz na tal bagagem um currículo muito importante: professora, dona de escola por 10 anos. Também vai estar com as crianças da Escola Tiradentes no período da tarde.

Negreiro e Pé de Serra poderão voltar ás atividades relacionadas à capoeira. No ano passado, compromissos outros impediram nossos amigos de participar. Estão de volta!

A Bel Nogueira – jovem estudante interessada em experiências de educação libertária, estudiosa do teatro de Augusto Boal – já marcou dia de chegada.

Dolores, nossa conhecida chef de cozinha, vai dar uma tarde por mês de trabalho. Neste dia vamos fazer uma Oficina de Alquimia Culinária e, aproveitando, uma festa com o que se fez. Nesta festa vamos convidar os pais e mães da moçada do Projeto de Gente.

A Cristina Leme, mestra da Informática em 2009, está viajando e ainda não confirmamos os dias, em 2010, da sua oficina. No quadro mantivemos os dias do ano passado.


2ª feira
3ª feira
4ª feira
5ª feira
6ª feira
MANHÃ

(8:30 às 11:30h)
Pequeninos da Ana
Pequeninos da Ana (atividades na praia)
Pequeninos da Ana

Oficina de Teatro da Bel e do Alexandre

Oficina de Informática da Cristina Leme
Pequeninos da Ana


Pequeninos da Ana

Oficina de Capoeira do Shal
TARDE

(13:30 às 17:00h)


Oficina de Arte da
Eliana
Oficina de Capoeira do Pé de Serra
Oficina de Música do Mestre Dema

Oficina de Teatro da Bel e do Alexandre

Oficina de Informática da Cristina Leme

O intrépido exército de Brancaleone vai tomando sua forma em 2010! Tomando forma à medida que reflete e sente seus movimentos.

De fato, o verão foi um momento de muita reflexão, conversas, troca de ideias entre os componentes do Projeto – crianças incluídas, embora ainda estejam muito desacostumadas a participar deste tipo de organização –, entre estes e outras pessoas interessadas no trabalho.

Algumas percepções foram confirmadas: o formato atual do Projeto de Gente favorece, ou melhor, atrai, principalmente, a moçada até 12/13 anos. Os mais velhos, modo geral, buscam atividades outras (mais esporte, teatro, dança); as oficinas de arte passam a ser menos procuradas (“só desenhar e pintar fica sem graça”, dizem... É justo!). É bom dizer que ficam sem graça exceto, claro, pelos realmente interessados. Interessados, porém, enfrentando os muito comuns conflitos entre o que desejam de verdade e o que a turma “pede”, ou melhor, exige como comportamento padrão. Para eles fica a sensação de que se não se comportarem como a maioria – ou como os dominantes – não serão aceitos na turma. Naturalmente existem aqueles que identificaram no trabalho do Projeto a marca da liberdade, da autonomia, a chance de terem conversas francas sobre qualquer tema e nos procuram para exercer estas possibilidades. Muito bom. Entretanto, como no Projeto não existe frequência obrigatória, também estes se sentem pressionados e sua presença passa a ser um tanto irregular, pois flutua ao sabor de suas preocupações, conflitos e outras questões já conhecidas (trabalho doméstico, na roça, etc). Assim, ficamos mais distantes da interação mais constante que permitiria um conhecimento mais amplo sobre seus sentimentos e sensibilidades.

Temos conversado sobre criar oficinas que estejam mais ligados aos interesses deste grupo – a informática, o teatro, por exemplo. Da informática poderia surgir a possibilidade de uma publicação mensal. O pessoal da capoeira – Shal e Pé de Serra – se interessaram em participar deste movimento. Também vamos pensando sobre como explorar, mais e melhor, a necessidade de se ter um espaço que seja um fórum livre para debates, conversas informais, aprofundamento nos temas de interesse e, frequentemente, fonte de conflitos. Como criar, com naturalidade, estes espaços se não é a prática comum destes meninos e meninas? É preciso esperar, pacientemente, as oportunidades, os momentos que se abrirão para que as peças se encaixem sem forçação, sem amassar as pontinhas e, consequentemente, estragarem. Amassar as pontinha – embora com a melhor das intenções, vamos lembrar sempre – significa repetir os velhos formatos que obrigam, desrespeitam e invadem.

Outro ponto: o grau de defesa de muitas crianças. Sobre isto falamos – começamos – no diário de dezembro. Vale tocar novamente, e quantas vezes for necessário, neste ponto. Pois bem, durante o ano de 2009, fomos defrontados e, por vezes, confrontados fortemente, com a organizadíssima couraça de muitos meninos e meninas. Exemplificando: (1) o menino que a cada dia se mostra mais e mais “marrento”. Pois bem, a cada dia, frente às demandas, exigências do grupo social e, principalmente, defrontado com sua própria sensibilidade, ele vai adotando atitudes-padrão: uma postura mais agressiva, risadinhas provocativas, a ginga padrão, as roupas – uniformes – de praxe e de marca, o uso estereotipado do celular com música. (2) A menina que, desconhecendo suas demandas mais profundas, sua sensibilidade mais verdadeira, seus medos e inseguranças, vai ampliando uma espécie de “zona de segurança”. Zona esta que apenas a esconde, falsamente protegida. Ela se recolhe, se isola, colocando em um mesmo saco de gatos todos os adultos – incluindo aquelas pessoas com as quais ela podia contar, conversar e abrir seu coração. Agora, 14 anos, grávida, temos um outro cenário. (3) O menino que, aos poucos, ia falando sobre suas questões familiares e que, abruptamente, se afasta. Dois, três dias se passam e ficamos sabendo que seu pai – fonte de amor e ódio (Lugar comum? Comum, mas real, realíssimo!) - estava no hospital, internado com graves traumatismos por conta de uma briga no bar. Procuramos o menino e encontramos um carinha reativo, raivoso, descrente de qualquer opção senão a violência (Naturalmente que tudo isto apenas implica no que já temos: muito trabalho)

Um dia, contou um dos educadores, ele – este educador – chegou em casa, após o dia de trabalho, e emocionado, angustiado, pensou na estranha possibilidade de trabalhar apenas com crianças órfãs, afastadas, de algum modo, desta sociedade tão pouco fértil para o desenvolvimento de uma criança, tão pouco colaborativa no sentido de que ela – a criança – possa ter paz minimamente suficiente para se descobrir e prosperar. Ao sentir assim ele estava demonstrando a imensa importância do campo onde as crianças devem – deveriam – se organizar. Um campo que pode oferecer adubo ou veneno para este desenvolvimento. O adubo é a compreensão do processo de individuação de cada um, o afeto construtivo, colaborador. O veneno é justo o avesso, o desconhecimento, a desqualificação, a surdez, a cegueira em relação a este processo, isto é, o afeto destrutivo, confrontador, não acolhedor.

Até março!